Opinião

O caos nas urgências

As notícias de abertura de quase todos os telejornais nos últimos tempos não deixam que se ignore: Mortes e mais mortes. De Dezembro de 2013 ao final de Janeiro de 2014 morreram 18963 pessoas, de Dezembro de 2014 ao final de Janeiro de 2015 morreram 24231 pessoas. Isto quer dizer que nestes últimos meses de Dezembro e Janeiro morreram mais 5268 pessoas relativamente aos meses correspondentes do ano anterior.

Todos os anos, por esta altura, tem sido noticiado que, por todo o país, o número de doentes a recorrer aos serviços de urgência assume o seu pico. A verdade, e os números confirmam-no, é que cada vez morrem mais pessoas e que cada vez mais se instala o caos nas urgências portuguesas. Seria de esperar que num qualquer país civilizado, assumindo a experiência como lição, se tomassem medidas para prevenir o caos anunciado ano após ano. Mas não em Portugal, com um governo cego, surdo mas não mudo no que a políticas de saúde diz respeito. Não mudo porque ouvimos o Exmo Sr Ministro da Saúde dizer, quase diariamente, que é normal este panorama neste período do ano. Será normal perdermos mais de vinte mil avós, pais, mães, irmãos ou filhos em dois meses de Inverno? Vulgarizar e fazer desta situação algo banal é a estratégia para nos ludibriarem e continuar assim o desinvestimento na saúde. Desprovendo as populações de cuidados de saúde de proximidade, de qualidade e de confiança.

As razões desta sobrelotação não têm só a ver com a gritante falta de visão e de capacidade de prever atempadamente aquilo que vai, inevitavelmente, acontecer; nem apenas com a diminuição das camas disponíveis nos internamentos; também não tem só a ver com as insuficiências demonstradas pelos cuidados de saúde primários no que ao doente urgente diz respeito; nem sequer tem a ver apenas com a procura exagerada de cuidados de saúde dos doentes não urgentes ou com as dificuldades económicas que alguns vivem em que têm de escolher entre comer ou comprar a sua medicação crónica. Nenhuma destas razões por si só leva à situação nacional que todos temos presenciado. No entanto, todas elas combinadas compõem uma fórmula terrível em que o resultado final está bem à vista e o problema só não se traduz em mais mortes devido ao profissionalismo, esforço e empenho dos profissionais portugueses, reconhecidos internacionalmente como excelentes.

O problema das urgências é mais grave nos grandes centros urbanos e suas redondezas, onde há hospitais com urgências polivalentes. Aquando da reorganização da rede de urgêncas foram encerrados vários serviços de urgência básicos privilegiando os tais “super hospitais” com o ideal que a maioria dos portugueses tenham um destes estabelecimentos a menos de uma hora de distância e com a promessa de uma melhoria franca na assistência pré-hospitalar. Na altura algumas autarquias revoltaram-se, a maioria, talvez por serventilismo partidário para com o governo, absteve-se. Nestes locais a única alternativa para os doentes passaram a ser esses mesmos hospitais. Não há outra alternativa para aqueles casos que sendo urgentes não são graves. É a falta dessa alternativa que faz com que essas urgências tão avançadas e tão cheias de especialistas fiquem sobrelotadas por doentes que podiam ser atendidos ao nível de uma urgência básica. E este é o caso de Vila Verde, com o Hospital de Braga aqui tão perto deixaram de haver serviços de urgência básica nos arredores. Aos vilaverdenses restam duas hipóteses: recorrer ao privado ou recorrer ao Hospital de Braga e arriscar-se a esperar até 8 horas numa situação urgente. Felizmente a resposta, em Vila Verde, a nível do privado é de excelente qualidade com o remodelado Hospital da Santa Casa da Misericórdia. Mas o governo não se pode demitir das suas responsabilidades para com a saúde dos vilaverdenses e dos portugueses em geral.

O que estão a fazer a este país, ao NOSSO país, é inaceitável. Eu, como cidadão, não aceito que se gastem milhares de milhões em submarinos, ou a tapar buracos financeiros resultantes de gestões danosas e fraude, e depois se corte cegamente na saúde, na educação, na cultura e na segurança-social. Eu, como cidadão, tenho o poder que a democracia me investe e vou exercê-lo na altura e local próprios e espero que todos vós, em consciência também o façam.

 

PS: Com este artigo dei início à minha colaboração com o vilaverde.net, felicito a coragem e a independência e desejo que este se possa estabelecer e afirmar rapidamente como o principal meio de comunicação em Vila Verde. Partilhamos o ideal: “mais que uma terra… uma paixão!”

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