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Braga: Ensino doméstico ou onde o papel do professor é assumido pelos pais

A Margarida, a Mara, o Tomás e o Ari são crianças iguais às outras mas têm uma escola diferente, onde a figura do professor é assumida pelos pais e onde o respeito, a liberdade e o amor são as palavras-chave.

É na antiga escola primária de Santa Lucrécia de Algeriz, em Braga, entretanto desativada por falta de alunos, que aquelas quatro crianças e respetivos pais se encontram de segunda a sexta-feira, para mais um dia de aulas, de partilha, de aventura e de contacto com a natureza.

E os professores, quem são? “É o João, é a Céu e a Eliana. E os meus pais também”, responde Margarida, de 7 anos, que adora ler e fazer origamis e que quando for grande quer ser veterinária ou cientista.

Aqueles são apenas quatro dos cerca de 350 alunos que em todo o país estão inscritos no chamado “ensino doméstico”, modalidade que pode ser adotada até ao 12.º ano e que deixa à responsabilidade dos pais a educação dos filhos.

João Quintas é pai do Tomás e decidiu optar pelo ensino doméstico por não ter gostado daquilo que viu no ensino convencional, onde lecionou atividades extracurriculares durante sete anos.

“Há uma grande lacuna, tanto em termos pedagógicos como a nível do relacionamento que se cria com as crianças”, refere, defendendo que a educação “tem de ser repensada”.

No projeto desenvolvido em Santa Lucrécia de Algeriz, denominado “O mundo somos nós”, o ensino tem em conta a especificidade de cada aluno, dando-lhe liberdade para trabalhar e criar o seu projeto individual.

“A aprendizagem não é só direcionada para o que se quer ensinar, mas também para o que eles querem aprender”, explica João Quintas.

Naquela escola, cada jornada começa, normalmente, por uma caminhada pelas ruas da aldeia.

As matérias curriculares de Língua Portuguesa, Matemática e Estudo do Meio são ministradas de forma criativa, através de projetos práticos que “puxam” pelos alunos.

Depois há dança, ioga, música, expressão, plástica, desenho e várias outras atividades.

“Têm liberdade para fazerem muitas coisas, não os formatamos, deixámo-los ser eles próprios”, refere Maria do Céu, mãe do Ari.

Com 9 anos, a Mara é a aluna mais velha da sala. Já esteve dois anos no ensino convencional mas agora está no doméstico e confessa que não sente saudades do passado.

“Aqui trabalhamos mais naquilo que queremos, não temos de fazer fichas todos os dias, temos mais liberdade”, diz, adiantando que é também ali que pretende cumprir o 2.º ciclo.

Os alunos do ensino doméstico têm de estar matriculados numa escola, onde no final de cada ciclo se submetem a uma prova escrita de avaliação de conhecimentos, para ascenderem ao ciclo seguinte.

A Mara vai fazer o seu exame no final deste ano letivo e, com tranquilidade, diz que acha que está preparada.

Já a mãe, Eliana Rodrigues, sente que a filha “está mais feliz” desde que enveredou pelo ensino doméstico.

“E eu também, gosto de a ter mais perto de mim”, confessa.

Segundo um estudo do investigador da Universidade do Minho Álvaro Ribeiro, o número de crianças e jovens inscritos no ensino doméstico subiu de 82, em 2009/10, para 338, em 2013/14.

Uma mudança de paradigma que, de acordo com os pais inquiridos no estudo, se deve sobretudo à “deterioração” da escola tradicional.

“Os pais, muitos deles com formação superior e forte espírito crítico, acreditam que é necessário deixar de perpetuar uma educação baseada no controlo, na repressão das emoções, na competição e no sacrifício da felicidade atual”, defende o investigador.

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