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Terras de Bouro: criadores revoltados com ataques de lobos a rebanhos e ameaçam “fazer sangue”

Os criadores de gado de Terras de Bouro manifestam-se revoltados com os “constantes” ataques dos lobos aos seus rebanhos e ameaçam “fazer sangue” se o problema não for resolvido em tempo útil.

“O povo está revoltado e mais hora menos hora vai fazer sangue. Resolvam o problema enquanto é tempo”, alertou Carlos Fernando, na noite de terça-feira, durante uma inflamada sessão promovida pela Associação de Compartes de Campo do Gerês e pelo Município de Terras de Bouro para procurar soluções para diminuir a conflitualidade resultante dos danos provocados pelos lobos.

Na sessão, que contou com cerca de 200 pessoas, os criadores de gado queixaram-se que os ataques dos lobos são cada vez mais frequentes e que passam “uma carga de trabalhos” para receberem as indemnizações previstas na lei pelo abate de cada animal.

Lembrando que há muita gente que tem na criação de gado a fonte de sustento da família, António Oliveira, um pequeno agricultor, afirmou que “mais de 80 por cento dos prejuízos não são pagos”.

“É um princípio sagrado não brincar com aquilo que um chefe de família põe na mesa diariamente. Não se deve brincar com esse pão”, avisou.

O lobo é uma espécie protegida por lei, por alegadamente estar em vias de extinção, e, como tal, não pode ser abatida.

A lei prevê indemnizações pelo gado abatido pelo lobo, mas os proprietários têm de fazer prova desses ataques, nomeadamente apresentando o que restou de cada animal atacado.

As indemnizações devem ser pagas num prazo de 60 dias.

“O problema é que, muitas vezes, os criadores não conseguem encontrar o rasto dos animais abatidos”, contrapõe Adelino Vieira, confessando que nos dois últimos lhe desapareceram mais de 200 cabras, pelas quais não recebeu “um único tostão”.

Além disso, e como admitiu Carlos Pinto, representante do Instituto para a Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) na sessão, as indemnizações não são pagas nos prazos previstos na lei.

“Neste momento, estão pagos os prejuízos registados até agosto de 2014”, informou.

De acordo com os números avançados por este responsável, em cada um dos últimos três anos as queixas por ataques de lobos no concelho de Terras de Bouro têm-se mantido estáveis, na casa das duas centenas.

O número de processos recusados é que sofreu uma evolução, passando de 9 em 2012 para 21 em 2013 e para 36 em 2014.

Uma subida que Carlos Pinto justificou com o facto de, a partir de finais de agosto de 2013, a lei ter passado a prever que o abate de cavalos só seria indemnizado mediante a apresentação do respetivo chip.

“É tudo e mais alguma coisa para proteger os lobos e tudo e mais alguma coisa para nos tramar a vida”, desabafou Carlos Pires, queixando-se de que os lobos lhe estão “a entrar pela casa dentro” e deixando a pergunta: “quem defende os serranos?”.

A construção de cercas para os lobos, a realização de batidas ou a instalação de armadilhas foram algumas das muitas hipóteses levantadas pelos criadores de gado, que deixaram claro que não estão dispostos a aguentar a situação por muito mais tempo.

“Sem os lobos vivemos, mas sem os nossos animais não”, atirou um agricultor, em jeito de aviso.

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