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“Violeiro” constrói e toca instrumentos que preserva em museu em Braga

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Agência Lusa
Escrito por Agência Lusa

Conhecido por “violeiro”, Domingos Machado continua, aos 78 anos, a fazer jus ao nome, cumprindo diariamente longas jornadas de trabalho na sua velha oficina de construção e reparação de instrumentos de corda, em Braga.

Dali já saíram instrumentos para nomes grandes da música, nomeadamente uma viola e um cavaquinho para George Harrison, dos Beatles.

Domingos Machado montou em casa um Museu dos Cordofones com o seu nome, onde moram mais de 100 instrumentos, a esmagadora maioria dos quais construídos pelas suas próprias mãos.

Sabe tocá-los praticamente todos, apesar de não conhecer uma única nota de música.

“Nem sei em que notas toco. A música está no ouvido, na cabeça”, confessa.

Mesmo assim, recorda, conseguiu pôr a chorar Amália Rodrigues, quando a fadista visitou o seu museu e Domingos a brindou com um fado arrancado das quatro cordas de um cavaquinho.

“A senhora começou a limpar os olhos”, conta.

Diz, com orgulho, que o seu museu é o “único” do género em Portugal e “um dos poucos” na Europa, por ter na oficina a vertente “ao vivo”.

Quem ali vai não dispensa também uma visita à velhinha oficina, onde a coqueluche é uma máquina de serrar movida a pedal.

Domingos começou a fazer-se “violeiro” aos 11 anos, seduzido pela arte do pai.

Sempre que algum cliente ali ia, espreitava-lhe a forma de tocar e depois, quando o pai virava costas, aproveitava para tentar tirar os mesmos sons do instrumento.

Tinha de fazê-lo às escondidas, porque o trabalho era muito e o pai, se o visse a tocar, perguntava-lhe logo “se não tinha mais que fazer”.

Mesmo assim, aprendeu a tocar “as violas típicas todas”, os cavaquinhos, os bandolins, as guitarras. Também dá “um jeito” no violão.

Qualquer instrumento construído ou reparado na sua oficina não sai dali sem antes ser testado pelas suas mãos experientes e pelos seus exigentes ouvidos.

“Estou sempre ansioso por ter a peça pronta, para ver se está bem, se tem boa acústica”, refere.

É essa ansiedade que o faz cumprir diariamente “muito mais” do que as oito horas de um horário normal de trabalho.

Chega a passar na oficina 10, 12, 15 horas por dia, com longos serões e com porta aberta até aos domingos de manhã.

“Já devo ter mais de 100 anos de trabalho”, atira, com humor.

Parar não está nos seus projetos, porque gosta muito daquilo que faz e porque na sua oficina, onde trabalha também um filho que vai garantir a continuidade da atividade, não faltam encomendas.

“Se parar, acho que morro”, diz.

Aos sábados à tarde, a oficina de Domingos Machado transforma-se numa espécie de casa de fados, reunindo tocadores “muito bons”, em tertúlias que, de quando em vez, são também acompanhadas por vozes da terra.

“Gosto muito de fados”, afirma o mestre violeiro, que no carro anda sempre acompanhado por duas cassetes da Amália.

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