Braga Destaque Região

Pe. João Torres. “Uma igreja que não está com os pobres não serve para nada”

Pe. João Torres
Fernando André Silva

O presépio ao vivo de Priscos movimenta milhares de pessoas na sua construção, que se centram sob as ordens de João Torres, o “padre de Priscos”. O Semanário V vestiu a batina e foi confessar o cabeceirense, que nos conta sobre peripécias em África, onde aldeias têm várias crianças muçulmanas chamadas João Torres, ou como lida com os presidiários depois de lhes assinar umaa fiança para saírem em precária.

Com 41 anos, João Torres é hoje o pároco de Priscos, Guisande e Tadim, no concelho de Braga, e acumula as funções de cura com o “peso” de ser uma das figuras mais mediáticas no seio do clero bracarense, pela sua participação ativa na construção e manutenção daquele que é hoje o maior presépio vivo da Europa, que, anualmente, traz figuras de “proa” para verem in-loco o que é feito durante todo o ano na paróquia de Priscos.

Como tudo começou? João Torres explica. No meio da assembleia na igreja de Arco de Baúlhe, em Cabeceiras de Basto, um pequeno João sonhava em um dia poder ser padre. Mirava o “prior” da freguesia com respeito e gostava de um dia “ser um homem velho que todos respeitam”. Para isso, sugeriram-lhe, ainda em criança, ser acólito. “Vais-te habituando ao altar”, diziam. Mas não, João Torres, determinado, dizia que só subia ao altar para celebrar missa. E assim foi.

Ainda seminarista, João Torres viveu num bairro de lata e no meio do mato africano

“Vim para Braga e acabei por ter a felicidade de entrar num grupo de ação social chamado GASAFRICA, que me enviou, primeiro para o Alentejo onde vivi num bairro de lata”. E desse bairro, João aprendeu uma lição. “Uma igreja que não está com os pobres não serve para nada”-

“Essa experiência serviu para perceber que os padres têm de servir os pobres na prática, e não só na teoria. Tem que ser uma coisa de vida. Temos de cheirar, tocar e estar com eles. Muitas das nossas teorias sobre os pobres são falhadas porque não vivemos com eles, não sabemos o que é ter o frigorífico vazio. Não sabemos o que é perder um filho. Quando falo de pobres, não é só no sentido material. Há os pobres que precisam de amor, de carinho. Esses também são os nossos pobres”; refere, contando um história “curiosa”.

“Quando estava no bairro de lata, foi lá um bispo, o Dom Manuel Franco Falcão, para nos fazer uma visita, e nem sequer tínhamos uma cadeira onde ele se pudesse sentar. Foi uma experiência para a vida”; aponta.

Depois do bairro de lata, o ainda seminarista João Torres partiu para a Madeira, com o mesmo grupo, para dar explicações a crianças de uma paróquia. “Éramos sete seminaristas para dar explicações a 140 crianças”, revela. Em cada um dos sítios, passou dois meses, até que se deu a passagem por África.

Hospital Josina Machel, Luanda Angola / DR

Hospital Josina Machel, Luanda Angola / DR

“Estive em Angola a trabalhar no Hospital Central de Luanda, que é o maior do país. Lavava corpos com soro fisiológico. Tínhamos um mapa do corpo humano e quem tivesse ferimentos também íamos cuidando”.

“Nesse hospital fazia de barbeiro e ainda fazia curativos. Foi rápido mas interessante. Foi aí que fui desenvolvendo a ideia de que uma igreja que não está com os pobres não serve para nada. Que não está com os humildes. É onde tento sempre estar”, confessa. No hospital, passou dois meses, e outros tantos passou-os “no meio do mato”

Há uma aldeia em Moçambique onde crianças muçulmanas têm o nome João ou Joana Torres. “Foi uma forma de agradecimento”.

“Tinham ficado vários soldados da UNITA dispersos pelo mato depois da guerra civil e tive a sorte de contactar com eles de perto. Havia muitos protestantes e foi a primeira vez que falei com um pastor que não era da minha religão. Na altura pensava que era pecado comer com gente de outra religião”, conta, entre risos. “Sabe como é, aqui no Minho, ou somos católicos ou não somos nada”, diz.

De Angola partiu para Moçambique, onde ficou dois anos como superior de uma missão que “era maior que arquidiocese de Braga”, em Chiure, na zona norte.

Chuile, Moçambique

Cabo Delgado, Moçambique / DR

“Em Chiure aprendi a celebrar a missa em língua local e, no dia 24 de dezembro de 2003, foi quando a celebrei. Foi estranho, os mais novos só se riam. Mas os mais velhos ficaram tão felizes que me disseram que foi a melhor prenda que Deus lhes poderia ter dado no Natal – enviar um padre que fala a nossa língua”.

Mas outra situação caricata aconteceu em terras de Cabo Delgado. “Tive uma relação próxima com a comunidade muçulmana. Chegava a levar as mulheres para darem à luz, porque não tinham maneira de chegar ao Hospital. E lembro-me de fazer essas viagens tantas vezes… A forma para pagar que eles encontraram é que é a mais caricata. Quando os filhos faziam um mês vinham a minha casa pedir se podiam dar o meu nome às crianças. Há lá muitos João e Joana Torres. Crianças filhas de muçulmanas com nome de padre católico não é muito vulgar”, conta o pároco.

Regressado a Portugal, assumiu as paróquias que ainda hoje estão à sua guarda. Mas, nem só de paróquias ou missões vive João Torres. Voluntário na cadeia de Braga há 20 anos, desde seminarista. “Na cadeia não falo muito de Deus. Mostro-lhes a minha presença que mostra que Deus está com eles. Muitas vezes estou lá na zona prisional e chegam ao pé de mim e perguntam se entrei ontem preso. Dá para rir, às vezes. Mas eu sei porque estou lá. Acredito que alguém que passou pelo mundo com este registo de vida deve ser assim com todos”.

“Se tenho medo que eles fujam? Digo-lhe sempre que se fugirem, voltam a ver-me no funeral deles”

Na cadeia, João Torres faz “de tudo”. “Converso, ajudo a escrever cartas. Alguns, que querem voltar a falar com a família, sou eu que vou a cada deles tentar uma reaproximação”, explica. “Outros, que querem sair em precária, sou eu que dou o meu nome para afiançar que eles possam sair, pois não têm mais ninguém”. “Se tenho medo que eles fujam? Não fogem nada. Digo-lhe sempre que se fugirem, voltam a ver-me no funeral deles”.

Quanto ao presépio, João Torres é perentório. “Se pudermos ajudar alguém a mudar o estilo de vida para ser uma pessoa mais próxima dos familiares e de si própria por terem visto o presépio, já conseguimos mudar muito. Não quero mudar o mundo, quero mudar pessoas. Quero que quando tiverem 100 anos que possam olhar para trás e perceber que a mudança deu-se a partir do presépio de Priscos”.

Comentários

Acerca do autor

Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista

Deixar um comentário