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Braga. Vespas asiáticas já hibernaram. E agora os ninhos?

Ninho de velutina situado em Real
Fernando André Silva

O rigor do inverno deixou a maior parte das grandes árvores da periferia de Braga a nu e alguns ninhos de vespa velutina (vulgo asiática) têm sido avistados.

As últimas queixas vêm da freguesia de Real, onde um ninho de “asiáticas” se escondeu durante todo o verão no topo de uma árvore e jaz, agora, abandonado e em contraste com os estreitos ramos que lhe servem de sustento.

Os serviços da Proteção Civil já foram alertados e estará para breve a eliminação do ninho, que deverá ser levada a cabo pela Companhia de Bombeiros Sapadores de Braga, através do processo de queima com um maçarico.

Um pouco por todo o concelho, foram avistadas dezenas de “lares” da vespa carnívora, que podem atingir um metro de altura e 80 centímetros de diâmetro, tendo capacidade para albergar cerca de duas mil vespas obreiras e 150 fundadoras.

Sapadores removem ninho de velutina em CeleirósSapadores removem ninho de velutina em Celeirós

Ninhos nos postes da EDP são mais complicados de remover

Também em Real, existe um ninho identificado há vários meses que ainda não foi removido. O motivo? Está num poste de alta tensão à guarda da EDP.

O Semanário V acompanhou uma extração de um ninho de velutinas em Celeirós, em novembro último. O “casulo” estava no topo de um poste de alta tensão e foi queimado no local por uma equipa dos Bombeiros Sapadores de Braga.

Em declarações ao V, um dos engenheiros responsáveis da equipa de piquete da EDP que acompanhou os trabalhos apontou a necessidade prévia de desativar a corrente elétrica antes de se removerem os ninhos.

“Sabemos da existência de outro ninho num poste em Real mas não podemos fazer nada até que exista uma autorização por parte das entidades para que se possa desligar a corrente”

Ninho primário de Vespa Asiática, em Vila Verde

Ninho primário de Vespa Asiática, em Vila Verde

A partir de janeiro é quando se deve eliminar os ninhos

A partir de janeiro as rainhas começam a fundar ninhos primários, que não costumam passar dos 10 centímetros de diámetro. É também essa a altura aconselhada para destruir as vespas, que ainda se encontram em estado de fecundação.

O ninho primário é construído durante a época primaveril (fevereiro a abril). É constituído pela vespa fundadora e algumas obreiras. Situa-se num raio de 500 metros do ninho de inverno. É um ninho que costuma ser construído em arbustos, no solo e no interior de caves.

Asiáticas já hibernaram

É durante o mês de dezembro e início de janeiro que as vespas asiáticas morrem ou hibernam, deixando pouca solução para além da destruição do ninho secundário, já vazio. As obreiras morrem e uma nova rainha é fecundada pelas fundadoras sobreviventes.

A partir de janeiro, a rainha fundadora começa a construir um ninho primário, do tamanho de “duas bolas de ténis” com dezenas de vespas obreiras. Na primavera, e após nascerem centenas ou até milhares de vespas obreiras, a rainha começa a construir o ninho secundário, que é também o definitivo.

Segundo Domingos Costa e José Nunes, apicultores e habituais “vigilante” de ninhos em zona rural, em Vila Verde, as vespas “procuram o solo para hibernar”.

Os apicultores têm dedicado grande parte do tempo livre a identificar ninhos nos concelhos de Vila Verde e Ponte da Barca, recorrendo depois a métodos caseiros para os eliminar.

Vespa Asiatica 1

Apicultores de Vila Verde desenvolveram técnica de destruição de ninhos eficaz

Ao V, José Carlos Nunes, natural de Bragança e que conjuga a apicultura com a profissão de agente da PSP na cidade do Porto, explicou que o método utilizado para eliminar as vespas passa por embeber uma mistura de vários ingredientes misturados com inseticidas biológicos em algumas tiras de esfregona, colocando-as depois num arame preso (espécie de anzol) a um tubo, com o qual furam os ninhos, deixando as tiras de esfregona embebidas em inseticida dentro do ninho.

A ação dos furos nos ninhos provoca ansiedade nas vespas-asiáticas, que tentam reparar os mesmos furos de imediato, acabando por perecer perante o efeito da mistura. As vespas-asiáticas acabam por cair mortas, e as larvas não desenvolvem. O ninho, que fica no mesmo sítio, acaba por cair após falta de uso.

Foram precisas várias experiências por parte de José Carlos Nunes para chegar ao efeito pretendido. “Começamos este tipo de operação no ano passado, ainda em fase experimental, e verificamos que resulta atendendo que as vespas acabam por morrer”, explica, desvendando ainda todo um trabalho de laboratório para chegar à fórmula que permite atingir letalmente este tipo de vespa resistente e imune à maior parte dos produtos mortíferos para insetos.

“Comecei por experimentar misturar alguns inseticidas com outros produtos naturais e recolhia vespas vivas para testar o efeito das misturas que fui fazendo”, explica o morador em Aboim da Nóbrega. “Quando cheguei à mistura que matava eficazmente a vespa, comecei a implementar nos ninhos e tem resultado”, explicou, garantindo que este método não é prejudicial ao ambiente. “Os produtos são biológicos”, assegura.

“Fazemos isto porque somos apicultores preocupados com os nossos enxames e assim que detetamos um ninho, tentámos neutralizá-lo antes que se torne uma ameaça”, explicou ainda o apicultor, que tem a companhia de Domingos Costa neste tipo de ações. Normalmente, é o também zelador do Parque de Campismo de Aboim da Nóbrega que identifica e sinaliza os diferentes ninhos espalhados pela zona norte do concelho de Vila Verde, chamando depois José Carlos para a aplicação da fórmula.

Para além de vários inseticidas e produtos “naturais”, alguns apetrechos normalmente utilizados na culinária estão incluidos na fórmula , como é o caso da banha de porco

Ninho secundário em Vila Verde

Ninho secundário em Vila Verde

Existe uma plataforma para denunciar ninhos

A Plataforma SOS-Vespa visa apoiar a identificação e o controlo da Vespa velutina em Portugal. Através da georreferenciação online dos ninhos desta praga, este WEBSIG contribui para a comunicação entre os técnicos de Proteção Civil Municipal, a população e a Administração, bem como, para a tomada de decisão.
A aplicação web de natureza colaborativa e gratuita (SOS-Vespa) apoia a monitorização da distribuição e da expansão da praga da vespa asiática, através da geolocalização online de ninhos num servidor de mapas.

Com esta plataforma é possível através de um simples smartphone com ligação a internet, introduzir in loco a localização do avistamento e preenchendo formulário um simples com as características do ninho, bem como anexar fotografias do mesmo.

A Plataforma envia de seguida avisos automáticos aos técnicos de Segurança Pública e Proteção Civil da respetiva área de jurisdição que se encontrem registados na plataforma, para que estes passem agir de forma mais imediata e adequada nos focos de expansão da praga.

Desta forma, a monitorização espacial da evolução da Vespa visa, compreender as dinâmicas e padrões de distribuição espacial, identificar as zonas mais afetadas, e, zonas críticas, definindo intervenções oportunas e otimizando as estratégias e operações de luta e combate.

A eliminação/exterminação do ninho georreferenciado deve ser registada, pelo técnico de Proteção Civil responsável. Este registo envia uma notificação automática ao utilizador do estado da sua observação.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista