Braga Destaque

Braga. Onde o convívio é o segredo para uma vida longa: Café Benfica

FAS / Semanário V
Fernando André Silva

No número 167 da Rua Andrade Corvo, na freguesia de Maximinos um café resiste há mais de 40 anos, sob as sombras da estação de comboios, e é hoje um dos mais emblemáticos da cidade de Braga. Conhecido por estar sempre cheio de bracarenses a jogar às cartas, junto à rotunda de Maximinos, e por ter mais de 300 cachecóis do SC Braga em exposição, a “pérola” dos fundos do Arco da Sé é mesmo o Café Benfica.

“Cá há espaço para todos”. Quem o diz é Ester Barbosa, que, em conjunto com Sameiro Roteia, exploram o espaço desde 2006. “Aqui chama-se Café Benfica mas é frequentado por adeptos de todos os clubes”, refere Ester, revelando que a escolha do nome foi “responsabilidade da antiga gerência”.

“Tanto eu como a Sameiro trabalhámos aqui há 32 anos, mas só em 2006 é que tomamos conta e isto sofreu uma remodelação”, aponta, revelando no entanto que, “se pudesse, mudava o nome para Café Bracarense”.

“Eu sou doente do Braga, a minha família é doente do Braga, e só não mudámos o nome do café porque já existem com nome do Braga”

Já Luís Ferreira, marido de Ester e que também costuma “ajudar”, refere que o café “foi sempre Benfica”. “Antigamente já foi um stand, depois um mecânico, e antes de se mudar para aqui, há mais de 40 anos, era ali onde é hoje o centro comercial mais abaixo”, revela, explicando que o truque das centenas de pessoas que acorrem ao café diariamente é “mesmo pelos petiscos e pelo convívio”.

“Aqui as pessoas juntam-se para jogar uma canastra, uma sueca, um dominó, e ficam aqui entretidos”, aponta. E a clientela aprova.

Cafe benfica 1

João da Silva Machado tem 93 anos e é apontado pelos clientes como “o mais velho dentro do café”. Vindo de Frossos, o nonagenário torce pelo Sporting, mas não se importa de frequentar um café com o nome do rival. “Não me importa nada, não ligo nenhum a isso”, aponta, revelando que vem lá “pelas cartas”. “Não ganho sempre mas olhe ainda hoje ganhei uma partida”, aponta, para logo ser contrariado por António Alves, também sportinguista.

“Sou sportinguista e bracarense, e venho ao Café Benfica porque gosto muito de comer tripas à moda do Porto”

As palavras não deixam enganar. António Alves possui uma mescla de identidades díspares que, aliás, são comuns à maior parte dos clientes. “Aqui há de tudo e o pessoal raramente se chateia, até porque, tirando um ou outro benfiquista, a maior parte da rapaziada é também adepta do Braga”, alude António, de 70 anos e natural da Sé.

Para além das tripas “portuenses”, António gosta do convívio e da tijjelinha de vinho caseiro que é, aliás, o segredo mais bem guardado de Ester e Sameiro. “O vinho que servimos vem de Ponte de Lima mas não vou dizer de onde”, diz uma receosa Ester, sem brincadeira. “Não estou a brincar, isto é mesmo secreto”, reforça.

E é mesmo esse segredo que atrai José Dias, de Lomar. “Este café esteve quase a morrer nos anos 90, porque a dona não tinha estaleca para isto. Mas renasceu das cinzas assim que a Ester tomou conta”, aponta José, revelando que a grande atração é “o vinho bom”.

Benfiquista, José começou a frequentar o Café Benfica porque “era o primeiro da zona a abrir às 6 da manhã”, revela o antigo comerciante no mercado de Braga.

“Até o Ricardo Rio ia gostar do vinho de Ponte de Lima se cá viesse lanchar”

Quem o diz é Ester, aludindo à visita do edil bracarense durante a última campanha. “Só veio cá de raspão, não bebeu nem comeu nada. Mas se pudesse servia-lhe umas pataniscas”, diz Ester, entre risos, acrescentando que “se fosse ao sábado, dava-lhe antes Cabidela”.

No café Benfica não há tablets, só jornais e cartas

No café Benfica não há tablets, só jornais e cartas

Aberto até depois da meia-noite, é frequente ver alguns polícias entre os últimos resistentes dos petiscos. “Uma vez queria fechar e disse que os vizinhos iam chamar a polícia e quando reparei, estavam aqui só cinco pessoas e eram todas polícias”, diz Ester, entre risos. “Toda a gente gosta de cá vir por causa dos petiscos”, reforça, recordando um episódio menos bom, que também envolveu polícia.

“Há uns anos, o Sporting veio jogar a Braga e alguns adeptos vieram cá dizer que eu lhes servi cerveja quente e que me iam partir isto tudo”, confessa Ester, revelando que “enquanto uns foram buscar mais adeptos, um ficou à porta”. “Liguei logo para a polícia e disseram-me que haviam muitos na estação, mas não vi nenhum e eles continuavam à porta”, refere, explicando a forma como se livrou deles. “Foi fácil. Disse que era cigana e que ia ali dentro buscar a fusca e matava-os a todos”, aponta, acrescentando que “foi remédio santo”.

E assim continua o Café Benfica, aberto até de madrugada, com centenas de clientes fiéis que “passam o tempo, bebem uns vinhos e jogam umas cartas”. Da mesma forma de há 40 anos.

Comentários

Acerca do autor

Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista