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José Ávila. Quando a vida é como no cinema: no coração de Vila Verde

Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

De Angola trouxe o bichinho de ver cinema e a habilidade para as instalações elétricas. Em 76, abriu o primeiro e único cinema do centro de Vila Verde, que acabou por fechar em 82. A partir daí, e graças a retransmissores na Falperra e em Caldelas, começou a transmitir filmes através da Televisão de Vila Verde, que qualquer pessoa da região podia assistir. E tudo no mais puro secretismo. Até hoje.

José Ávila nasceu e cresceu em Angola, na província de Moçâmedes, onde conheceu a mulher, Maria, natural de Adaúfe, conhecimento esse que terminou em casamento. O fim da guerra colonial trouxe o casal de volta a Portugal, onde acabaram por se instalar em Vila Verde, alguns meses depois do 25 de Abril.

“Éramos sócios de uma empresa de abate de gado, congelação de carne e exportação”, começa por contar José Ávila. “Tivemos de vir embora à pressa com cinco mil escudos e deixar tudo para trás. Conforme estava a casa, ficou lá tudo”, acrescenta Maria Ávila, esposa.

José Ávila vive num apartamento na Av. Humberto Delgado, por cima dos CTT. Foto: Luís Ribeiro

Chegados a Portugal, a ideia do cinema ficou na cabeça de José, que abriu uma loja de reparação de eletrodomésticos na rua 25 de Abril, onde hoje é o restaurante “Palácio”. “Em 76, depois de negociar a venda da loja para se transformar no restaurante, abri um cinema na loja ao lado, onde hoje é uma loja de roupa”, explica José.

O bichinho do cinema vem de Angola, onde ajudava, gratuitamente, a fazer certos tipos de trabalhos, como colagem de filmes, rebobinar as fitas ou até manutenção.

“Quando abrimos o cinema foi uma loucura. Tínhamos as sessões sempre cheias, às noites de quinta até domingo. E à tarde, no domingo, fazíamos uma matiné, sempre cheia”

Com cerca de 100 lugares disponíveis, por vezes as crianças ocupavam duas cadeiras, enquanto pessoas ficavam de pé. Chegavam a ter 150 clientes numa só sessão, com preço dos bilhetes a 25 escudos. “Algumas das pessoas tinham lugares fixos, era um pouco como no futebol”, diz um tímido José, entre risos, recordando o filme “Sandokan” como o mais popular de sempre. “Geralmente tínhamos dois filmes para exibir ao fim de semana, mas nesse período, tinha de ser sempre Sandokan porque era o que nos pediam”, conta.

E se pediam, José não deixava os clientes insatisfeitos. Aliás, foi sempre esse o segredo do negócio. Tratar bem os clientes. “Eu fazia pipocas e batatas fritas caseiras”, diz Maria, que cuidava da restauração. Já José, servia uns “copos de vinho” para matar a sede. “Às vezes corria mal porque alguns ficavam com os copos a mais, mas chatices só tive uma vez, em que quase tive de chamar a polícia”, aponta.

Maria Ávila conheceu José ainda em Angola e vieram viver para Vila Verde depois do 25 de Abril. Foto: Luís Ribeiro

Em romarias de Gême, Barbudo, Pico ou Loureira, os domingos eram sempre o dia mais concorrido naquele cinema. “As pessoas da região apareciam, mesmo a vir a pé porque naquela altura não havia tanta facilidade em ter um carro”, conta José.

O cinema fechou em 1982. Segundo José, por já “dar mais despesa que lucro”. “Apareceu a TV a cores e depois as telenovelas. As pessoas vinham até ao cinema mas preferiam ficar no bar a comer e a ver a telenovela, em vez dos filmes em exibição. Foi uma moda que apareceu e tive de fechar”, lamenta, apontando ainda o “conforto” de ver um filme em casa. “É diferente. Em casa estamos mais confortáveis”, revela o agora adepto de ver filmes… em casa.

“Nunca mais fui ao cinema desde que fechei. Mas não deixei de ver filmes. Sempre que posso vou ao YouTube e vejo filmes de cowboys, do Trinitá, que é o meu favorito”, revela José, não sabendo muito bem porque não voltou a entrar numa sala de cinema. “Talvez não me sentisse bem com isso. Não sei explicar”.

José Ávila nasceu e cresceu em Angola, na província de Moçâmedes. Foto: Luís Ribeiro

Depois do cinema seguiu-se o regresso a Angola para trabalhar na Soares da Costa, mas seis meses depois volveu a Vila Verde para não mais sair. Voltou a abrir uma loja de reparações e ajudou um “amigo” num clube de vídeo que o mesmo tinha aberto em Braga.

Mas José foi guardando um segredo ao longo destes anos. Depois de chegar o cinema, montou um emissor em casa, apoiado por duas antenas retransmissoras em montes na região. Daí, começou a transmitir filmes para que todos pudessem assistir em casa, sintonizando aquela televisão. E à noite, os filmes eram para maiores de 18.

“Eram filmes eróticos e não pornográficos. Mas a verdade é que as pessoas vinham em excursões para assistir. Juntavam-se todos em cafés que sabiam que iam retransmitir a nossa emissão, e ficavam ali a ver. Havia muita curiosidade na altura sobre este tipo de filmes. Via-se como se ia ao futebol”

José Ávila tem todo o material de uma vida empacotado em estantes. Foto: Luís Ribeiro

Com dois filhos e cinco netos, José Ávila há muito que se retirou das lides dos media, mas continua com o material todo empacotado, com brio, preparado para ficar para os filhos. “Vai ser a minha herança”, finaliza, entre risos.

Para o futuro, José não vai voltar a exibir filmes, mas certamente os irá ver, no YouTube, no monitor do seu Sony Vaio… tudo excepto ir ao cinema… que isso já não é confortável.

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Fernando André Silva

Jornalista