Andreia Santos Opinião

Opinião. “Sem mentir, por favor!”

Andreia Santos
Escrito por Andreia Santos

A semana já entrou e com ela o movimento dos dias cheios. Felizmente, penso. É bom enfrentar desafios, ter uma vida preenchida e realizada, mas sobretudo na maioria das vezes ter aquela que escolhi e vou escolhendo passo a passo. Para que isto seja possível, temos que compreender, cada vez mais creio, que nem sempre estaremos tão conscientes do caminho e que será necessário dar passos atrás. Explico melhor. Há momentos de maior “agitação”, em que as semanas chegam “umas atrás das outras” e em que fazemos, cumprimos e bem, mas em que também será útil parar, ou pelo menos para mim é fundamental parar. Sair da azáfama, sentir e assim escolher melhor, ou seja, mais como nós, mais perto do que somos.

Gosto dos dias em que paro. O tempo em que “o mundo fica em silêncio e a única coisa que ouço é o meu coração” falar. Em que estou sozinha antes de olhar o essencial, as gargalhadas dos meus sobrinhos ou as histórias de quem está em casa e comigo sempre. “Quando estamos demasiado embrenhados no mundo do trabalho, perdemos conexão uns com os outros e connosco mesmos”, por isso, “é importante abrandar, cultivar a Slow Life, mesmo que só por um bocadinho, o meu bocadinho comigo mesmo.” (Jack Kornfield). Confesso que, por mim, viveria permanentemente em Slow Life, mas não dá. Reconhecendo que paro mais que o habitual para sentir, que estruturo a minha rotina para poder ter tempo deste para mim, que sou mais “quieta” que a maioria das pessoas com quem convivo, não dá ainda assim. Por isso, volto atrás. Preciso de voltar atrás frequentemente.

Mesmo quando amamos profundamente o trabalho que fazemos, é bom não esquecer que ele é apenas uma dimensão de nós. E que ele terá tanto mais a nossa cara quanto melhor nos conhecermos. Teremos, como diria a Simone Weil, que tentar combater as nossas faltas pela atenção, não pela vontade. Ou seja, se a aliança com a interioridade, com o que sentimos, coma inspiração e a verdade existir primeiro, então só poderemos ser melhores pessoas a seguir. “A atenção é a mais rara e a mais pura forma de generosidade” e começa por nós. Alguns estarão incorretos, sendo que não o poderão estar para sempre, porque a energia é finita, émais ou menos isto o que o Daniel Pink queria dizer com o que escreveu: “Eu fui sempre alguém que caminhou, acreditando que os amadores faziam intervalos, mas os profissionais não. Mas isto está totalmente errado, são os amadores que não fazem pausas e os profissionais os que o fazem.”

Um conceito prioridade da vida executiva hoje é a ideia de Balance. Um estilo de vida mais enérgico e positivo implica trabalhar igualmente esta dimensão do sentir. Em alguns momentos isto passa por não esquecer aspetos tão simples como a hora de desligar da dimensão profissional para depois voltar, em força, no dia a seguir. Com a motivação certa, alinhados com o que iremos produzir, no nosso melhor. Ninguém será tão feliz se o seu “make it happen” não for sentido, ninguém será bem-sucedido se apenas fizer o “relatório” do seu dia, que pode ser “estrondoso” em ganhos, mas prejudicial se nada disso for edificado na sua identidade também. Se pudesse fazer um apelo, diria: deixemo-nos de superficialidade, já chega de mentiras de sucesso. Sejam quem são e não o que a moda empresarial dita que sejam, isto porque ser feliz e bem-sucedido não passa por nada disso, mas por ser de verdade e diferente. E lembrem-se: o que fazem nos dias condiciona todas as zonas de vida, que puzzle querem montar? (Não é legítima a queixa sobre o que não ousamos mudar).

Deixo-vos com um princípio profissional, aquele que faz com que se desligue o telefone quando preciso e nos faz estar no nosso melhor: “Do your work, then step back”. As pessoas trabalham para viver bem ou por causas. Nada fora disto encontrará lugar na forma humana. Até já, na Primavera!

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Acerca do autor

Andreia Santos

Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional