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Tomás Gavino Coelho. Nome grande da literatura angolana é “neto” de Vila Verde

(c) Tomás Gavino Coelho
Fernando André Silva

Ao começar a escrever este texto, uma coisa é quase certa: Tomás Gavino Coelho é um nome desconhecido em Vila Verde… Mas Vila Verde não lhe é indiferente. Ligado ao mundo das finanças durante grande parte da vida, foi recentemente destaque nos principais jornais brasileiros dedicados à cultura por ser o único a realizar um acervo completo de autores por entre os países de língua portuguesa – no caso, angolano. E tem as raízes em Vila Verde, do lado do pai. Mas, ao Semanário V, confessa nunca ter visitado a “mais bela das vilas entre Douro e Minho”.

“O meu avô paterno tem registo de nascimento em Braga, mas sempre disse aos filhos que nasceu em Vila Verde, como a mãe dele”, começa por explicar Tomás, que começou aos 50 anos a dedicar-se à recolha e indexação de todos os escritores angolanos.

“Não sei se o meu avô dizia que era de Vila Verde por ter alguma quizilia com Braga ou se era mesmo por ter amor à terra, porque ele efetivamente foi registado em São Victor, em Braga”, diz, acrescentando que o bisavô “trabalhava numa paramentaria na Rua do Souto, no número 97 que hoje tem uma loja de vidros e cristais”, refere, contando que o avô vila-verdense “não ficou muito tempo em Portugal”.

(c) Tomás Gavino Coelho

“Aos 19 anos foi viver para Benguela e passou a vida por ali, em Lobito”, diz Tomás, que também lá nasceu e viveu, até vir para Portugal em 1975… para Braga.

“Vivi em Braga durante dois anos quando vim de Angola. É a cidade portuguesa que mais me agrada e agora, com tanta juventude na cidade, é muito mais cativante. Gosto mesmo muito de Braga”, assegura, lamentando que as vezes que cá vem “não sejam tantas ultimamente”. “A última vez que estive em Braga foi precisamente para tentar perceber se a origem do meu avô era Braga ou Vila Verde, e era Braga”, diz, revelando no entanto que a bisavó é de Vila Verde. “A mãe do meu avô, Maria Theresa Pereira Lima, era efetivamente de Vila Verde”.

Thomaz Lima Coelho, avô de Tomás Gavino, com os “serviçais” numa quinta angolana

A viver atualmente na região de Lisboa, perto do Barreiro, o ex-funcionário do banco de Angola começou a recolher os autores angolanos que conhecia, para fazer um acervo, pois, por mais amor a Braga, o país é Angola.

“Comecei já aos 50 anos, um pouco tarde, porque vi que não havia nada sobre o meu país, onde nasci, então comecei a estudar. Estudei muito sobre a história de Angola e publiquei o meu primeiro livro, de fição histórica, chamado o Chão de Kanâmbua”, refere o autor que, a partir daí, começou a procurar outros autores angolanos.

“Vi que em Portugal não conhecem mais do que cinco autores angolanos. Então, nos últimos dez anos, fiz um trabalho diário de pesquisa em jornais, revistas, bibliotecas… Foi assim que surgiu a ideia de juntar todos os autores num só livro, para que haja registo da literatura angolana”, conta.

E este acervo criado por Tomás é exemplo único por entre os países PALOP. “Sim, mas este é um trabalho que não tem fim”, refere ainda, apontando novos autores que vão surgindo e que faz com que o acervo tenha de ser atualizado. Mas Tomás não vai continuar a reunir. “Agora é a vez de passar a bola a outro”, refere, entre risos.

(c) Tomás Gavino Coelho

“Isto ocupa-me o tempo todo, os autores angolanos querem participar mas o trabalho é muito minucioso e trabalhoso. Estou cansado, e assim que sair a próxima edição, acabou-se. Outro que pegue. Mas ainda ninguém se chegou à frente”, lamenta.

Sobre Portugal, Tomás refere que existem alguns acervos mas estão desatualizados e bastante disperssos. “Algum dia alguém deveria pegar nisso. Há escritores portugueses desde o tempo de D. Afonso Henriques”, diz.

Adepto dos clássicos, não conhece muita literatura moderna, embora aprecie a visão africana nos escritos de Lobo Antunes. “Os escritores portugueses que procuro, geralmente são de África, conheço melhor os africanos”, diz. E são mais de 2000 reunidos no livro de acervo, só de Angola. E há mais 400 entretanto descobertos para a nova edição, e última de Tomás.

“Mas com qualidade aceitável serão uns 20 ou 30. O país foi destruído pela guerra e a educação ainda é muito frágil. Tenho esperança que mude, porque amo aquele pais. É o meu chão”, refere, não sabendo se lá vai voltar. “Não sei. Mas gostava de ir a Vila Verde”, diz, entre risos. Se me quiserem receber, seria um gosto..

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista