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Vidas. O mais velho tocador de sino em Vila Verde foi trocado por um gravador

Manuel da Silva Coelho, em Oriz (c) Luís Ribeiro
Fernando André Silva

“Não é uma questão de jeito. É uma questão de força e equilíbrio”. Foi esta a premissa de Manuel da Silva Coelho durante os cerca de 30 anos em que tocou o sino manualmente na igreja paroquial de Oriz São Miguel.

Aos 81 anos ainda tocava com toda a força possível, sempre em espaços compassados, como ditam as regras dos sineiros, mas nos últimos dois anos foi substituído por um gravador e, determinado, afirma que “não há nada como o manual”.

Nascido e crescido na Casa de Coimbra, uma quinta de lavradores situada ao pé da igreja, Manuel começou a tocar o sino da igreja “mais ou menos” aos cinquenta anos, ainda na década de 80, quando o anterior sineiro se reformou.

“Na altura ninguém se queria agarrar ao sino. Tinham todos medo e diziam que era preciso jeito. Eu fui lá e consegui logo e fiquei com o trabalho. Mas o problema deles não era o jeito. Era mesmo a falta de força”, diz o agricultor habituado a trabalho pesado.

“O truque está na força que se utiliza e deixar ir a corda, para que o sino balanceie de forma perfeita, mas é preciso atenção para que o sino não nos atinja”, explica. “Comecei a tocar antes das missas, para os funerais e para os casamentos. A melodia é quase sempre a mesma, mas nos funerais é necessário um ritmo mais lento, mais demorado, para dar aquele ar de pesar”; refere Manuel, explicando que tocava várias vezes por semana. E nunca falhou nenhuma vez.

“Nunca falhei nenhuma vez e nunca levei com o sino, que isso também é importante. Foram centenas ou até milhares de vezes que toquei aquele sino e nunca tive nenhum acidente. Digo mais, passei por momentos de tempestade, especialmente no inverno, em que o vento quase que me atirava da torre abaixo, mas nunca verguei”, diz, explicando que também tinha ajuda da esposa, Adelaide Nogueira, o que nos leva ao eterno debate de igualdade.

“Ela tocava o sino pequeno porque eu não a deixava tocar o grande”, diz Manuel, apontando “falta de jeito para tarefas mais pesadas por parte das mulheres”. Questionado pelo jornalista sobre em que se baseava, Manuel alega que as mulheres têm “tendência a fazer asneira quando as avisámos que o trabalho pode dar asneira”.

Culturas ancestrais e discussões sobre fisionomia à parte, Manuel não adquire a força necessária em vão. Se o sino pesa à volta de 300 quilos, o agricultor conta que trabalhou alguns anos no Brasil a puxar manualmente um carrinho que pesava… 400.

“Fui para o Brasil com 28 anos porque queria ganhar mais um bocado. Trabalhei no comércio, tinha um carrinho onde colocava as compras para entregar nas lojas e mercearias do Rio de Janeiro”; explica, revelando que o carrinho pesava mais de 400 quilos. “Era um monstro, mas era necessário para levar a carga toda para as diferentes lojas espalhadas pela cidade”. E também levava aos comerciantes das favelas, tendo mesmo levado um tiro.

“Uma vez ia levar uma mercadoria a um português num sítio da cidade que até era pacato, mas apareceram dois homens e perguntaram-me o que estava ali a fazer. Um encostou-me uma faca e foi aí que decidi continuar o meu caminho. De repente ouvi um estrondo e quando cheguei mais à frente, uma senhora disse que eu tinha sangue na roupa”, conta. “Dispararam por trás e fugiram”, conta, revelando que ainda tem o chumbo do tiro alojado dentro do corpo.

Finda a aventura de três anos e meio na ‘cidade maravilhosa’, regressou a Vila Verde, mas não parou cá muito tempo. “Fui para França em 1963 e estive lá nove anos, onde trabalhei na construção civil. Fiquei cego de uma vista quando uma viga me caiu em cima”, conta, explicando que não foi isso que o impediu de não ter medo do sino.

Quando voltei de França foi quando me falaram sobre começar a tocar o sino, e aceitei. De lá para cá, nos anos 70, dedicou-se à agricultura, profissão que só abandonou há pouco tempo, com a reforma. “Cheguei e fui logo tratar dos campos. Naquela altura dava dinheiro mas depois entramos na União Europeia e nunca mais deu para sobreviver. Agora gasta-se mais para tratar do milho do que o lucro com as vendas. Só dá lucro as hortaliças e pouco mais, porque o vinho já ninguém o quer”, lamenta.

Reformado, agora com 83 anos, e sem tocar o sino de “14 arrobas”, Manuel não esconde a nostalgia, embora tenha noção que já não terá grande capacidade de o tocar novamente. “Não sei se consigo, se calhar sim, mas já parei há dois anos. Agora é um gravador elétrico. Foi uma questão de modernizar e economizar, porque eu recebia por tocar o sino, era uma atividade paga”, conta.

Quanto ao atual ‘tocador’, um gravador elétrico, Manuel não o vê lá com muitos bons olhos. “Desenrasca, mas não há nada como tocar o sino à mão. Só assim é que era perfeito”, finaliza.

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Fernando André Silva

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Jornalista