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Lage. Depois de dez anos de sofrimento, os Alves vão ter casa nova

Grupos de voluntários trocam todas as semanas para ajudar a construir a habitação da família Alves
Fernando André Silva

Pode acontecer com qualquer um de nós. Comigo, consigo, com o seu primo, com o seu tio. A história de Joaquim Alves assim o atesta. Operário da construção civil, com a vida “orientada”, casado e pai de uma filha ainda criança, começou a construir uma casa quando uma doença lhe toldou os sonhos e as obrigações. Tinha então 39 anos. Hoje, a esperança foi-lhe devolvida com ajuda de empresas e de uma associação – Habitat for Humanity – que desde fevereiro retomou a construção parada há cinco anos.

Ao Semanário V, o homem natural de Moure mas a residir há 21 anos na Lage contou os pormenores que o levaram a precisar de ajuda para terminar a construção da casa. Em 2008, preparava-se para sair para Espanha, para mais uma construção, quando começou a sentir falta de ar. “Durante a noite comecei a sentir falta de ar e acumulava cada vez que tentava respirar, ou seja, quanto mais tentava, mais dificuldade tinha. Liguei para um colega para me substituir e fui direto para o antigo Hospital de Braga, o São Marcos, onde estive internado 15 dias”, conta Joaquim. “De lá saí com melhorias mas oito dias depois, voltei a ter o mesmo problema”, revela o antigo operário agora com 49 anos.

Do São Marcos, foi transferido de urgência para o São João, no Porto, onde fez exames e lhe diagnosticaram insuficiência renal. “Tinha um rim a falhar e disseram-me que ia ter que fazer hemodiálise até conseguir um transplante”, conta. “Foi como se o mundo desaparecesse dos meus pés. Fiquei impossibilitado de fazer esforços e o meu trabalho dependia disso. Mas também digo que se na altura o mundo desabou, ainda não imaginava o que viria depois”, acrescenta.

É que depois do diagnóstico, seguiu-se um “calvário” de hemodiálises que duraram “sete anos, três meses e uma semana”, conta Joaquim, sem esquecer as “três sessões semanais com agulhas para filtrar o sangue”. “Se o rim não trabalhava, tive de recorrer à hemodiálise para filtrar as impurezas. Foi horrível, eram três vezes por semana, várias agulhas espetadas no braço. Foi horrível”, repete, revelando os resquícios do braço, que o repórter teve oportunidade de atestar. De facto, por entre vários buracos e talos provocados por cirurgias para desobstruir as veias, é possível sentir o sangue a correr de forma vertiginosa quando se toca no braço de Joaquim Alves.

“O segredo é nunca desistir”

“O segredo para ultrapassar isto tudo foi nunca desistir. Tinha as obrigações financeiras por causa do carro, tinha a casa a começar a ser construída, e tudo se tornou negro quando percebi a luta que ainda tinha pela frente”, explica, revelando que “foi necessário ter apoio psicológico para ultrapassar essa fase”.

Uma doença grave impediu Joaquim Alves de terminar a construção da habitação

Passados os sete anos de tratamentos, na noite de consoada de 2015, pelas 21 horas, Joaquim recebeu um telefonema do Hospital de Santo António a indicar que havia um dador compatível. “Fui logo para lá, era a melhor prenda que me poderiam dar”, conta, explicando que “fiz a prova de esforço, entrei para o bloco às 9 da manhã e sai às 3h30”.

A operação, inicialmente, foi um sucesso. “Ao fim de quinze dias já estava em casa. Mas o pior veio depois. Tive três derrames internos, fui ‘aberto’ quatro vezes para cirurgias e apodreceu-me por fora a parte onde fui transplantado”, conta, mas satisfeito por nunca “ter sofrido rejeição do rim”. “Esteve mesmo a parar quando apanhei duas bactérias perigosas, mas recuperei”, explica. No Santo António, passou dois meses, mas acabou por regressar a casa com uma boa prespetiva para o rim. O problema agora seria mesmo terminar a construção da casa.

“Tínhamos o esqueleto da casa feito, tínhamos um bocado de dinheiro, o terreno herdado da minha esposa e, já com a impossibilidade de trabalhar, também usamos dinheiro da indemnização para ir completando as obras, mas de há cinco anos para cá que tudo parou”, explica. “Não tínhamos mais dinheiro e era impossível continuar sozinho”, refere, explicando que recorreu a bancos, mas todos lhe viraram as costas. “O único que me ia ajudar era o BANIF, mas entretanto fechou e acabou a minha oportunidade”, diz.

Depois de alguns anos a tentar com os bancos, Joaquim acabou por desistir. “Percebi que nenhum me ia ajudar”, lamenta. Mas Joaquim não perdeu a esperança. “Tinha aqui uma senhora da freguesia que lhe ajudaram a construir a casa e então decidi tentar. Falei com ela, e com um responsável da Habitat for Humanity, que estava a orientar as obras na casa dela e disseram-me para ir à sede da instituição.

Habitat for Humanity ajuda pela segunda vez na Lage

Em Braga, Joaquim encontrou uma nova esperança. A Habitat for Humanity, associação sem fins lucrativos que se dedica a apoiar famílias em dificuldades na construção de casa própria, disse-lhe que sim. E foi já em 2018, no primeiro dia de fevereiro, que a associação deslocou trabalhadores e algum material para concluir o “esqueleto” da casa da Família Alves, na fronteira da Lage com Oleiros.

Um grupo de nacionalidade suíça ajuda na construção

O modus operandi da “Habitat” é, talvez, complexo de entender, mas bastante simples de realizar. Vários voluntários, espalhados por vários países onde esta associação está implementada, unem-se para ajudar com a mão de obra na construção destas casas.

Cada grupo passa uma média de uma semana numa construção, e assim vão se revezando até que as habitações fiquem prontas.

O material, é cedido por empresas, ou então comprado pela associação. Mais tarde, quando a obra é concluída, os proprietários vão dando uma devolução mensal do valor, até 20 anos, para ajudar a suportar os custos do material.

O Semanário V falou com Helena Pina Vaz, presidente da Habitat for Humanity Portugal, que explicou os motivos da ajuda à Família Alves.

“Este é um bom exemplo para que se perceba que a Habitat não ajuda só famílias que sempre estiveram em situação de carência económica. É um caso representativo que de um momento para o outro a vida das pessoas pode mudar repentinamente”, começa por referir Helena Pina Vaz, adiantando que “no caso da Família Alves, está a correr muito bem”.

Voluntários de todos os países trocam todas as semanas para ajudar na construção

“O proprietário tem ajudado e isso faz com que haja uma possibilidade de terminar esta obra brevemente”, refere. “Este é um caso puro de azar. A doença alterou os planos de vida e a família acabou por recorrer à nossa ajuda e nós disponibilizámos prontamente para ajudar, até pelo caso que era”, diz.

“E no meio do azar ele até teve sorte por as obras já terem arrancado, porque havia outras famílias em primeiro mas foi necessário resolver problemas legislativos e acabámos por avançar com esta moradia na Lage, em Vila Verde”, refere ainda a presidente da Habitat, revelando que “há outro caso no concelho de Vila Verde mas ainda está em estudo”.

Helena Pina Vaz aponta mesmo os serviços de Ação Social da Câmara de Vila Verde como um “grande parceiro” da Habitat. “São extremamente preocupados e recorrem a nós sempre que precisam. Fazem um grande trabalho”, apontou a presidente.

Sobre a forma de pagamento, que suscita algumas dúvidas, Helena Pina Vaz é perentória. “Essa é uma das nossas regras. O que a Habitat gastar é um adiantamento e não uma renda. A família vai pagando o valor gasto ao longo do tempo e à medida das capacidades económicas. Se nos oferecem o material, isso não é incluído no preço, mas o que for preciso comprar eles acabam por pagar, sem juros, e em prestações combinadas. É uma devolução de dívida”, clarifica.

Voluntários deslocam-se de vários países

Só nesta obra da Família Alves, que leva dois meses, já participaram grupos de vários pontos do globo terrestre. Canadá, Suíça, Estados Unidos, e ainda dois grupos do norte de Portugal e um de Lisboa. Na obra, não se bebe, para evitar acidentes. Os voluntários acabam por frequentar o comércio local na Lage, o que agrada ao presidente da junta.

Voluntários suíços aprovam comida da Lage

Ao Semanário V, o autarca, Carlos Pedro Castro, explica que esta é “a segunda iniciativa da Habitat na Lage”. Inicialmente havia uma senhora em situação complicada, a dona Sameiro, e nós colaborámos na situação da logística. Segundo o presidente da junta, o direito à habitação própria está na constituição e é a favor deste tipo de iniciativas.

“Nós tentámos ajudar ao contactar empresários e construtores. No caso do Joaquim, na minha prespetiva, é absolutamente necessária a ajuda. Era uma pessoa que tinha uma vida normal, trabalhadora, e de um momento para o outro deparou-se com um problema grave de saúde. E isto não tem nada a ver com questões sociais. É mesmo porque não consegue trabalhar”, refere Carlos Pedro Castro,

O autarca acrescenta que “a junta comunicou aos serviços de ação social e à Habitat que a ajuda era justificada e comprovámos a situação dele. “Tinha um espaço físico a ser construído e teve de interromper. É lógico que tentámos de tudo para que pudesse retomar e tem todo o apoio da junta para o que precisar”, termina Carlos Pedro.

Já Joaquim Alves, deixa um agradecimento profundo a todas as empresas que têm ajudado, aos voluntários que têm sido incansáveis e a toda a estrutura da Habitat for Humanity, por ter sido “uma luz” que lhe apareceu

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista