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Joaquina e Alice mantêm viva a tradição da sopa de ‘burro cansado’ em Cabanelas

Joaquina Silva e Alice Rei (c) FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Bolo de milho, vinho tinto e açúcar é a receita simples para se obter uma boa sopa de ‘burro cansado’, alimento que era utilizado pelos agricultores em tempos idos para dar “força no trabalho”.

Em 2018, durante o festival de caldos de Cabanelas, que conta com a segunda edição, Alice Rei e Joaquina Silva garantiram a continuidade de tradição, por entre as dez sopas disponíveis no festival.

Ao Semanário V, as confecionadoras dizem não haver segredos neste tipo de sopa, mas é aconselhável que o pão seja “bolo de milho”. “Não é só a broa, nós fazemos este bolo com milho aqui nos fornos da paróquia e o sabor é muito melhor”, diz Alice Rei, que, depois de comer uma sopa de pedra, não dispensou provar da própria iguaria.

Joaquina Silva e Alice Rei (c) FAS / Semanário 

“É muita boa. As pessoas ainda não estão a alinhar muito nesta porque já há vinho para beber com o resto das sopas, mas contamos até final do dia ter despachado estes 20 litros que fizemos”, acrescenta Alice.

“Aprendemos com os nossos avós e com os nossos pais, é uma tradição que vai passando de geração em geração”, refere Joaquina, sobre a criação da sopa.

As duas voluntárias fazem parte de uma equipa de 60 elementos que ajudou a organizar o II Festival de Caldos de Cabanelas, que decorre este domingo, no salão paroquial daquela freguesia do concelho de Vila Verde.

Bernardete, Lurdes e Fátima com a “sopa de urtigas” (c) FAS / Semanário V

Na mesa ao lado, uma iguaria para amantes do vegetarianismo. “Sopa surpresa”, diz a placa que guarda Bernardete, Lurdes e Fátima, autoras daquele caldo.

Questionadas sobre a “surpresa” da sopa, a resposta é imediata. “É feita de urtigas”, diz Lurdes, contando que é uma sopa idealizada para um modo mais vegetariano de viver. “A batata é doce, não é da normal e não leva carne nem peixe, apenas legumes”, refere Fátima.

E a “sopa de urtigas” até teve boa saída. “Já vendemos quase tudo e as pessoas gostam”, refere Bernardete, olhando para o pároco da freguesia, Dayakar Thumma, que, de malga na mão, não deixou de experimentar aquela iguaria.

Dayakar Thumma (c) FAS / Semanário V

O pároco, natural da Índia, confessa que gostou muito da sopa de cogumelos e da sopa de urtigas, explicando que na terra natal “não se costuma comer sopa”. “Lá temos mais a tradição de comer sempre arroz e geralmente preparámos a carne com molhos que depois regam o arroz. Aqui as comidas são mais secas e as sopas acabam por sobresair por serem molhadas e são um complemento”, refere o pároco, que ficou satisfeito com a adesão.

“Organizámos este festival para ajudar a acabar de pagar as obras da residência paroquial porque ainda nos falta pagar uma parte”, começa por explicar o pároco, que está à frente da organização do evento.

“Também o fazemos para impedir que Cabanelas seja um local apenas de dormitório. É preciso que as pessoas se juntem em comunidade e que se criem laços de amizade por entre os paroquianos”, refere ainda Dayakar Thumma enquanto recebe mais uma visita vinda de “longe”.

João Sá veio de Famalicão (c) FAS / Semanário V

João Sá veio da freguesia do Louro, em Famalicão, para passar uma tarde por entre os caldos. Habitual frequentador do Campo de Tiro de Cabanelas, foi ‘arrastado’ por colegas na primeira edição do festival, em 2016, e este resolveu voltar.

“Fiz aqui alguns amigos da outra vez e aproveitei para os vir visitar e comer as sopas que são muito boas”, referiu o praticante de tiro prático, não deixando a “ajuda para a paróquia” de lado.

“É importante saber que estamos a contribuir para uma obra de utilidade para a população”, acrescenta o famalicense, que se mostra ansioso para provar a “sopa de pedra”, que, aliás, foi das mais requisitadas por entre os visitantes.

Conceição Silva e Vânia Almeida são as confecionadoras da mítica sopa que, até tem muita coisa, mas pedra nem vê-la. “Tem um pouco de tudo, batatas, carne de vaca, carne de porco, feijões, legumes”, começa por referir Conceição, explicando que “a pedra só esteve um bocadinho mas já tirámos”.

Vânia Almeida e Conceição Silva trouxeram “sopa de pedra” (c) FAS / Semanário V

Questionada sobre se a sopa não estaria demasiado similar a uma feijoada, Conceição refuta, dizendo que “dizem que parece feijoada mas uma panela de 50 litros já foi e esta está quase no fundo”.

Já Vânia Almeida explica que “é assim que tem de ser”. “Antigamente era este o alimento das pessoas, mais na zona do Alentejo, metiam tudo na sopa e era como se fosse uma refeição normal e abastada para depois terem força para os trabalhos mais pesados”, aponta.

E os populares gostam.

(c) FAS / Semanário V

Rosa Rodrigues, de Merelim, aproveitou para provar algumas sopas e foi surpreendida a comer uma sopa de urtigas. A merelinense explica que gosta “porque é picante”. Já o marido, Albertino Rocha, em tom de brincadeira, diz que a mulher gosta daquela porque faz “comichão”, ele que prefere a de cogumelos.

Vieram de Merelim para ajudar com um contributo para as obras da freguesia e porque têm família em Cabanelas. “É uma forma de ajudar também os familiares e amigos que temos cá”, refere Albertino.

Mas nem só de sopas viveu o festival. Vindos também de Merelim, um grupo de amigos – Geração de Ouro – veio animar musicalmente o evento, eles que se costumam juntar em esplanadas e na rua, improvisando música para os que passam.

Geração de Ouro (c) FAS / Semanário V

“Somos um grupo de doze que deviam cantar mas só seis ou sete é que cantam. Os outros aparecem para comer e beber”, diz Nuno, do grupo, entre risos.

Ao Semanário V, o grupo de Merelim explica que é habitual percorrerem vários sítios do norte do país a animar convívios. “Não somos de atuar em placos, embora também o façamos, mas a nossa especialidade é tocar à mesa”, aponta um dos responsáveis do grupo, contando que “às vezes até no comboio tocámos, quando nos juntamos”.

Com sopas e música para todos os gostos, as centenas de populares que passaram pela festa não saíram defraudados, como explicam dois elementos da organização.

Francisco Campos explica que está tudo a correr muito bem. “Melhor do que aquilo que pensámos”. “A parte mais complicada foi conseguir montar tudo mas como somos um total de 60 voluntários, acabámos por nos ajudar uns aos outros a completar as tarefas”, explica o presidente da Fabriqueira de Cabanelas.

Também Cristóvão Martins, da organização, aponta que “são dez sopas à escolha, com pão, sardinhas, pataniscas, bifanas, tudo feito pelos voluntários”.

“Há também gente de outras freguesias a ajudar, como Ucha, Prado, Cervães ou Lama, que deram alguns bolos caseiros e outros de pastelarias”, explica, apontando “400 litros” como número líquido de sopas confecionadas no total.

(Leia a reportagem na edição impressa do Semanário V, próxima quarta-feira, 25 de abril, nas bancas)

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Fernando André Silva

Jornalista