Vila Verde

Folclore. Conhece a história do “Homem-Palha”?

(c) FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Já lhe chamaram o “homem da palha”, o “homem-palha” ou o “fardo ambulante”. Até já lhe quiseram deitar fogo à vestimenta durante uma atuação e houve quem lhe quisesse roubar o fato. No entanto, António Rodrigues, “quase a fazer 75 anos”, ostenta com orgulho a “croça” típica do Rancho Folclórico de Prado São Miguel e não é qualquer um que lhe “chega o lume” ou “a desvia”.

Para quem não sabe, a “croça” é uma vestimenta que era utilizada para o pastoreio, em tempos idos, uma tradição que se foi perdendo nos anos 40 e 50. No entanto, o Rancho de Prado São Miguel apressou-se a recuperar esta tradição depois de uma reunião de direção onde decidiram incorporar as vestes para recuperar tradições, como adiantou ao V o presidente do rancho, Manuel Coelho.

“Esta vestimenta servia para os pastores se protegerem do frio e do calor e resolvemos recuperar a tradição”, refere. E António Rodrigues aproveitou a onda e já há 10 anos que é “o homem da croça”. Ao Semanário V, o agricultor de profissão conta que “gosta muito do fato”. “Não me atrapalha, gosto bem de passear com ela”, diz António, enquanto experimenta a vestimenta que “já está a ficar um pouco gasta”.

De volta ao presidente da rancho, é explicada a origem da primeira “croça”, feita pelo “Sr. Abílio de Marrancos”. “Fomos lá pedir-lhe porque ele sabia tratar o linho. Isto é feito de juncos. É preciso colher em julho e deixar a secar quase um mês para ficar com esta cor e com a resistência para ser usada”, revela o presidente. E António confirma, ou não tivesse sido ele “trabalhador de lavoura”.

Agora, já não há muita gente a fazer “croças”, explicam os elementos do rancho que foi fundado em 1980. “Há uma senhora em Arcos de Valdevez que nos fez outra mas não é fácil de encontrar”, diz Manuel Coelho, revelando que a “croça” inspirou outro rancho do concelho. “O rancho de Turiz uma vez veio cá e ficou encantado com a vestimenta. Acho que também mandaram fazer uma. Mas esta acabou por se tornar a imagem de marca do nosso rancho”, revela.

E a marca tem sido levada a vários cantos do país por António, que ostentou orgulhosamente a farda em Espanha e até em Almada, quando foram convidados para uma atuação na região de Lisboa. “Ficaram todos malucos com isto. Muitos nunca viram e querem tocar e perceber como é feito. Alguns até pedem para experimentar”, revela o portador da “croça”, enquanto mostra o “crucho”. E desengane-se se pensam que há alguma conotação sexual. O “crucho” é mesmo o capuz com que cobre a cabeça nos dias de chuva. “É que isto é bom para abrigar da chuva, até dava para andar no inverno no dia-a-dia”, brinca António, enquanto se movimenta e faz a “croça” perder mais uns “juncos”.

“Esta também já está a ficar muito velhinha”, queixa-se António ao presidente do rancho, que se apressa em dizer que “há um senhor para os lados de Barcelos que acho que ainda faz disto”. E já é a quarta “croça” que o rancho utiliza desde a sua implementação. As outras três estão expostas na sede do rancho, como artefacto museológico, ao lado de outros prémios e distinções que aquele rancho angariou, através dos seus cerca de 60 elementos.

Plácido Mota, tesoureiro, também gosta de brincar com a “croça”. “O António é que anda com ela mas isto é de nós todos”, refere o diretor do rancho que, em breve, vai voltar a abrir uma escola de rancho infantil, como explicou o presidente.

“Temos uma escola para as crianças aprenderem a dançar folclore, e ficam todas encantadas com a vestimenta de palha. Esse até é um dos motivos para que queiram integrar o nosso grupo”, confessa Manuel Coelho, orgulhoso e provando que o marketing, quando bem aplicado, pode ser um aliado para qualquer tipo de música, especialmente a tradicional.

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Jornalista