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Entrevista. “Vila Verde é um dos municípios que mais recicla em Portugal”

Pedro Machado - Diretor Geral da BRAVAL (c) Mariana Gomes / Semanário V
Mariana Gomes
Escrito por Mariana Gomes

A Braval recebeu um voto de louvor, na semana passada, por parte da Assembleia Geral, pelos resultados da recolha seletiva acima da média nacional. Em entrevista exclusiva ao Semanário V, Pedro Machado, de Braga e administrador da Braval, aponta para o aumento da capacidade da empresa na recolha de resíduos e alerta para o aquecimento global.

A Braval foi a segunda empresa no país que mais resíduos enviou para a reciclagem, logo depois da ALGAR, no Algarve. A que se deve este sucesso, tendo em conta que há zonas metropolitanas, como Lisboa e Porto, que ficaram abaixo da atividade da Braval?

Deve-se aos excelentes Presidentes de Câmara que a região de Braga tem e teve. A Braval é dos acionistas: é do Município de Braga, de Vila Verde, da Póvoa de Lanhoso, de Amares, de Vieira do Minho e de Terras de Bouro. A visão estratégica foi colocar infraestruturas para a reciclagem. A Braval tem uma missão com três tarefas: tratar os resíduos, erradicar os focos de lixeiras e a recolha seletiva, a reciclagem. A grande missão é melhorar a qualidade de vida ambiental dos seus munícipes, que fazem parte destes municípios. Sempre houve uma grande preocupação com a recolha seletiva e como colocar uma boa rede de ecopontos. Isso foi e é fundamental. Portanto, é a isto que se deve termos excelentes acionistas, que têm uma visão estratégica e só com uma forte rede de ecopontos é que podemos ter sucesso. A Braval só está atrás da ALGAR, mas a ALGAR tem vicissitudes que nós não temos. Isto é, em junho, julho, agosto e setembro, tem milhões de turistas e isso transforma os resultados, as variáveis ficam alteradas. Por isso nós consideramos que somos líderes de reciclagem per capita. Temos uma média de 30 kg por habitante, quando a média nacional anda à volta de 23 kg, relativamente ao papel. No vidro temos 31 kg, mas a média é 21kg per capita.

A população sabe reciclar? Que ações de sensibilização são usadas para melhorar o contributo das pessoas?

Claro que sim. Já fizemos muito em muito pouco tempo. Mas ainda falta fazer mais. Começámos em 1999/2000 com a implementação da recolha seletiva, a implementação de 300 ecopontos. Hoje temos 1150 ecopontos completos e mais 200 incompletos. Temos uma rede de 1300 ecopontos no total. E depois fizemos uma coisa muito importante, uma campanha que se chama Educação Ambiental, para a sensibilização ambiental nos seis municípios. Nas escolas, com os presidentes de Câmara, vereadores – na altura, ainda do engenheiro José Manuel Fernandes -, do doutor Vilela, fomos às escolas, fizemos inaugurações de campanhas de sensibilização, palestras, visitas de alunos do Município de Vila Verde à Braval, oferecemos ecopontos, oferecemos desdobráveis… Isto no caso concreto de Vila Verde. Desde há 20 anos que fazemos isto. No primeiro ano de recolha, apenas recolhemos 900 toneladas, em 2017 recolhemos 17 mil toneladas. A população faz boa reciclagem. O estudo da Sociedade Ponto Verde concluiu que cerca de 77% dos munícipes da Braval já fazem reciclagem, o que é muito bom, já acima da média nacional, mas faltam 23%. Estamos acima da média nacional, mas queremos mais e para atingir os objetivos da reciclagem é preciso seguir o plano estratégico do PERSU que exige que até 2021 se faça 25 mil toneladas. Isto é, nós temos de desviar de aterro cerca de 40% ainda dos resíduos. Fizemos muito em muito pouco tempo, mas temos de fazer mais. Educar e sensibilizar e, em paralelo trabalhar com os Presidentes de Câmara, para fortalecer a recolha seletiva, colocar mais ecopontos para as pessoas terem mais facilidade de reciclar é o nosso objetivo. É fundamental continuarmos a massificar a rede de ecopontos, a educação e a sensibilização ambiental para que aquilo que já fazem bem, possa ser feito melhor. Aí é que temos de melhorar.

Que diferença encontra na atitude dos munícipes ao longo da última década para com a reciclagem?

Muitas. Nós começamos muito aquém daquilo que era a reciclagem. Em 2000 tínhamos apenas 1000 toneladas de embalagens. Em 2010, tivemos cerca de 11 mil, e em 2017 tivemos cerca de 17 mil. Portanto isto muda muito. O facto fundamental deve-se a três grandes agentes: aos autarcas, que foram magníficos, porque têm esta visão de fortalecer, de querer aumentar a melhoria de qualidade de vida ambiental dos munícipes; deve-se aos professores, porque são excelentes a massificar na educação a Educação Ambiental; e também aos jornalistas, porque estão cada vez mais sensíveis com a questão do meio ambiente e ajudam a massificar, também, o problema. É importante ter este grupo de três gentes fundamentais para que os objetivos sejam atingidos.

Existe uma forma de levar a população a reciclar mais? O que se poderia fazer para tentar mudar a atitude das pessoas, relativamente a reciclagem?

Além da educação, da massificação e de fortalecer a rede de infraestruturas, tem de se criar penalizações, conseguir aferir quem recicla e quem não recicla. O que está a acontecer hoje é que, graças ao esforço de todos nós, estamos a conseguir que as tarifas de lixo não aumentem, que ao reciclar, além da melhoria da qualidade ambiental, fazemos com que a tarifa de resíduo não aumente. Se reciclamos, a empresa vai vender esta reciclagem, vai faturar e logo não vai aumentar a tarifa do lixo. O que temos de fazer é conseguir perceber quem é que não recicla e tentar penalizar quem não cumpre. Ainda há que fazer isso.

Quais são as diferenças entre AGERE, Ecorede e a Braval, muitas vezes, confundidas pelos munícipes?

É o mesmo que perguntar qual é a diferença entre o Município de Vila Verde e a Braval. A AGERE é o acionista maioritário da Braval. A Braval pertence a 6 acionistas: a AGERE, que é a empresa municipal de águas e resíduos de Braga, a CM da Póvoa de Lanhoso, a CM de Vieira do Minho, a CM de Vila Verde, a CM de Amares e a CM de Terras de Bouro. Isto é, a AGERE é a empresa de águas e resíduos de Braga, o acionista da Braval, em representação da Câmara de Braga. É uma empresa municipal que é o acionista principal da Braval. A Ecorede é uma empresa de engenharia e serviços.

Como vê a questão ambiental na região de Braga? Há preocupação dos cidadãos em ajudar a preservar o meio ambiente?

Na nossa região o meio ambiente está excelente, cada vez melhor. Nós temos sorte de que os nossos seis acionistas são extremamente sensíveis às questões do meio ambiente. A água cada vez tem melhor qualidade, cada vez se nota mais preocupação com os resíduos e em que os resíduos sejam melhor tratados, melhor solucionados, melhor valorizados e que haja mais reciclagem, mais reutilização. O meio ambiente é, de facto, uma marca na nossa região e em concreto nos Municípios do sistema Braval.

Qual é a sua visão acerca das questões ambientais a nível global? Acha que o aquecimento global é uma realidade que a população mundial desvaloriza ou a preocupação da população adequa-se ao problema?

As pessoas esquecem-se que isto é mesmo a sério. É uma realidade. Quando se fala do aquecimento global, do degelo e que reciclar é necessário, porque o que acontece é gravíssimo, as pessoas não prestam atenção. Isto não são fundamentalismos. Por cada tonelada de papel que reciclamos, deixam de ser mortas duas árvores. A Braval recicla seis mil toneladas por ano, estamos a falar de 12 mil árvores. A Braval, por ano, evita que sejam mortas 12 mil árvores. É de notar que nós só temos 275 mil habitantes. A população mundial tem de pensar nisto: nós não temos recursos, não temos árvores, não temos minérios, não temos combustíveis, não temos meios naturais inesgotáveis. Tudo isto é esgotável. Há quase 30 anos, houve uma tese de mestrado em que dizia que, com o aquecimento global e com o degelo, as nossas costas iriam recuar cerca de 1 km, em 60 anos. Isto foi há 30 anos. O que é facto é que, se as pessoas se lembrarem de como era a costa das Marinhas, a costa da Apúlia, de Moledo, Ofir, chegavam a ter centenas de metros de areia em maré vaza. Hoje, a maré viva já derrubou casas na Apúlia, em Esposende… só nos últimos dois anos. Isto é de facto preocupante. Nós temos filhos e se olharmos para o lado, estamos a hipotecar o futuro das nossas gerações futuras. Esta situação não é fundamentalismo, é mesmo a sério. Não são dramatizações, são realidades que precisam de atenção, é preciso olhar para elas com grande rigor. As pessoas ainda não atingiram, porque não têm noção e é preciso demonstrar isto a toda a gente. Estas catástrofes naturais que têm acontecido: estar a nevar no início da primavera, em Portugal, e uma semana depois ter temperaturas de 30 graus. Antes não acontecia isto. O nosso planeta está doente. Passámos de neve a temperaturas de 30 graus e isto é preocupante. O que aconteceu no pulmão do mundo, na Amazónia, foi devastador. Nós, o planeta, consumimos o equivalente, em meia dúzia de anos, à Península Ibérica em árvores. É óbvio que isto tem de parar, os nossos recursos são esgotáveis, são escassos, por isso temos de reciclar. Não estamos a dramatizar, é real. É lamentável que tenhamos líderes do mundo, de países líderes mundiais, cujos responsáveis são verdadeiros ignorantes.

Como está desenvolvida a rede de reciclagem no mundo? Onde está mais avançada e como pode ser melhorada?

Está mais avançada na Europa e na américa do Norte. E ainda há muito a fazer no mundo. Isto tem a ver, infelizmente, com a literacia, com a educação. Os cidadãos, se não estiverem bem instruídos, não têm noção destas preocupações. Quanto mais educação e sensibilização houver, mais as pessoas vão estar atentas a esta questão. Cada vez mais existem fenómenos que não existiam, como a falta de água e os javalis da Serra da Arrábida vão ao mar. Isto é algo que, em séculos, nunca se viu. É preciso olhar para isto com rigor e perceber que é necessário educar cada vez mais as pessoas para perceberem que isto é para bem delas. A questão fundamental é o meio ambiente.

Quais são os objetivos em números, da Braval para os próximos anos?

O objetivo é chegar a 2021 com 25 mil toneladas. Temos de fazer mais 8 mil toneladas. É este o grande objetivo, reciclar para cumprir metas, mas acima de tudo, para preservar o meio ambiente. Não há dúvidas que Vila Verde é um dos Municípios que mais recicla em Portugal, porque Vila Verde pertence à Braval. Temos ecopontos e recolha seletiva em todas as freguesias, fazemos um grande esforço para mudar mentalidades. Na última Assembleia Geral, o presidente da Câmara de Vila Verde, além de manifestar um enorme louvor à administração pelos resultados obtidos, solicitou que se fizesse mais sensibilização ambiental e que nos meses de verão, voltássemos a massificar a recolha de ecopontos, porque chegam muitos vila verdenses de férias. É importante que haja uma visão estratégica do meio ambiente e uma preocupação em melhorar a qualidade de vida ambiental dos munícipes da Braval e, neste caso, de Vila Verde.

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