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Internacional. Brasileiros à espera de um milagre para canonizar padre de Braga

Fernando André Silva

À espera de um milagre. Assim se encontra a comunidade de Catanduva, um pequeno município no interior de São Paulo, no Brasil, para poder ver o padre Albino Silva – a figura mais importante da história daquela cidade, nascido em Vieira do Minho e estudante em Braga – ser beatificada e depois canonizada.

“Quando ele chegou, era um vilarejo, com casinhas muito simples, de madeira. Na verdade, ele foi um baluarte, um pilar central de tudo aquilo que a cidade hoje desfruta do ponto de vista estrutural, sobretudo de promoção social e de saúde”, refere o padre brasileiro José Casimiro – um dos elementos que quer ver a canonização do padre Albino ser levada a cabo.

Nascido em 1882, em Vieira do Minho, Albino Alves Silva foi viver para Braga ainda criança onde estudou no seminário, terminando o curso em 1905, com “bastante brilho”, dizem os anuários da altura, apontando ainda o reconhecimento geral de “um padre de valor”. Acabou por ser promovido a “uma grande e rica paróquia”, mas não tomou posse.

Acabou por ser perseguido, como muitos outros jesuítas, durante a revolução republicana de 1910, o que lhe valeu uma fuga. Condenado pelo novo poder ao exílio em África, acabou primeiro por se esconder em Braga, indo depois para Monção, Salvaterra de Magos e finalmente Espanha, em Tuí.

Dizem os mesmos anuários que um dia, quando um navio a vapor brasileiro estava ancorado no porto de Vigo, o padre Albino decidiu rumar ao Brasil, esperando melhores dias para a igreja na política portuguesa.

Com 30 anos chegou ao Rio de Janeiro, em 1912, passando por algumas localidades onde pregou o evangelho.

Mas seria no ano de 1918 (assinala-se este ano o centenário) que padre Albino chegou a Catavanduva, no dia 28 de abril, ficando lá até à morte, em 1973, aos 91 anos.

Mas o padre não foi bem recebido naquela comunidade. Chorava-se a saída de outro pároco popular, o padre Caputo.

“Nunca foi orgulhoso. Quando passava pelas ruas, sempre humilde e recolhido, não era compreendido pelo povo. Quantas vezes, ao passar pelas ruas, recebia insultos. Alguns tossiam propositadamente e escarravam perto de seus pés. Entretanto, ele não se revoltava. Suportava tudo calado e sem perder a calma. Nem sequer fazia cara feia”, dizem relatos escritos daquele tempo, hoje divulgados pela fundação com o seu nome.

“O seu primeiro inimigo gratuito foi o próprio sacristão. Este, acostumado com o primeiro vigário, que tudo deixava em suas mãos um tanto ligeiras…não se conformava com a atitude enérgica do segundo vigário, que sabia governar a Igreja e as…esmolas dadas pelo povo para a construção da Matriz. Procurou mesmo difamar, perante o povo, o sério e piedoso padre. Chegou ao cúmulo de dizer que ele era ladrão de galinhas”, refere o mesmo manuscrito.

Mas no segundo ano em Catanduva tudo mudou. Albino iniciou as obras da Igreja Matriz e em 1926 inaugura a Santa Casa de Misericórdia, hoje Hospital Padre Albino. Ligado à sua preocupação com a assistência aos idosos, o Lar dos Velhos foi a segunda obra apoiada pelo padre em Catanduva, inaugurado em 1929. O hospital cresceu com a construção de um prédio para a maternidade e no início da década de 50 inaugurou o pavilhão infantil.

Em 1969 vem o ciclo das escolas, a partir da Faculdade de Medicina, ideia e sonho do padre para dar destino ao hospital após a sua morte. O Estatuto da Fundação Padre Albino foi registrado em 27/03/1968.

A seguir vieram o Colégio Comercial Catanduva (1971), a Faculdade de Administração de Empresas (1972) e a Faculdade de Educação Física (1973).

Além destas, o padre Albino foi responsável pela criação da Casa da Criança “Sinharinha Netto”, Vila São Vicente de Paulo, Lar Ortega-Josué, Ginásio Dom Lafayette, Seminário “César De Bus” e Santuário Nossa Senhora Aparecida.

No fim de cada ano dava à Fundação Padre Albino uma quantia em dinheiro de um valor que os familiares de Braga lhe remetiam anualmente.

O padre Albino acabou por morrer em 1973, com toda uma obra deixada para o município, sendo sepultado perante 30 mil pessoas.

Agora, e durante a comemoração do centenário da chegada do padre Albino a Catanduva – evento assinalado com pompa e circustância por todos os responsáveis políticos e religiosos da cidade – o objetivo passa pela beatificação do bracarense.

Em 2011, os restos mortais do pároco foram exumados para reconhecimento canónico, tendo-se dado início ao processo de beatificação. Já no final de 2017, foi entregue um conjunto de documentos e depoimentos sobre o pároco à comissão dos teólogos, bispos e cardeais.

“Se os pareceres forem positivos, será emitido o decreto papal de reconhecimento da venerabilidade de padre Albino, ou seja, ele se torna venerável. A previsão para o término dessa fase é 2020. Após isso, é preciso comprovar um milagre para torná-lo beato. O próximo passo é a canonização – que exige mais um milagre”, refere a Fundação Padre Albino.

Enquanto decorrem as celebrações do centenário, com várias atividades que vão decorrer ao longo de todo o ano de 2018, os fiéis religiosos que não querem fazer esquecer a obra do pároco ordenado em Braga, vão continuando à espera de um milagre, para que a partir desse momento possam dizer “santo padre Albino”, de uma vez por todas.

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Jornalista