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Joaquim Costa. O encantador de fanfarras

Joaquim Costa durante encontro de fanfarras em Vila Verde (c) Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Com 40 anos, Joaquim Costa não pode dizer que já tenha vivido tudo o que a vida poderá oferecer, mas de etapa em etapa, a vida do atual coordenador da Fanfarra dos Bombeiros de Vila Verde foi-se preenchendo de lugares, pessoas, instituições e… fanfarras.

Desde ter sido alvo da Malária enquanto trabalhava em Angola ou ter “zarpado” para Lisboa com 14 anos, ou ter sido escuteiro durante 17 anos (onde aprendeu a ‘fanfarrar’, Joaquim Costa é um livro aberto sobre os valores e atitudes que o moldam no dia-a-dia.

Nascido na Portela do Vade, passou a infância com os amigos a desfrutar da natureza e das atividades que a zona norte do concelho de Vila Verde pode oferecer às crianças.

“Tive uma infância muito feliz”, revela Joaquim Costa ao Semanário V, prestes a abrir o ‘livro da vida’. “Cresci e vivi na Portela até que fui para Lisboa com 14 anos, trabalhar como eletricista”. Em Lisboa, Joaquim viveu as “maluqueiras” típicas de um adolescente que se encontra a mais de 300 quilómetros dos pais, numa “cidade grande”.

“Estive lá quatro anos a trabalhar numa empresa que tinha lá sede, vinha a casa de quinze em quinze dias e ia fazendo trabalhos para a EDP”, conta, explicando que quando regressou à terra, casou e foi viver para Prado São Miguel.

“A empresa arranjou contrato aqui na zona de Braga e acabámos por ficar a trabalhar por perto. Entretanto casei e fui para Prado São Miguel, terra da minha mulher”, conta. Perto de casa, acabou por ingressar como voluntário nos Bombeiros de Vila Verde em 1998, onde ainda hoje se mantém.

“Quando entrei para os bombeiros tive de escolher, porque andava nos escuteiros há 17 anos”, conta Costa, que decidiu enveredar pelo “socorro” por achar ser mais útil para a sociedade. “Já trazia a experiência da fanfarra dos escuteiros e quando cheguei ao quartel vi alguns instrumentos parados e pensei em recuperá-los”, explica.

Como bombeiro, Joaquim Costa passa por todas as funções que habitualmente se exercem no quartel, sendo agora condutor de ambulâncias de emergência, mas também integrante dos voluntários que combatem incêndios ou dos operacionais que prestam socorro em caso de doença súbita ou acidente.

“Os bombeiros são a minha casa. A minha família já sabe que este lugar é especial para mim e que deixo tudo para vir acudir a um acidente ou a um incêndio”, confessa Joaquim Costa, admitindo que podia ser “um pai e um marido mais presente”. “As minhas filhas às vezes queixam-se mas a verdade é que quando estamos ao serviço da população nem sempre temos as prioridades esclarecidas”, diz.

E estar ao serviço da população é algo que Joaquim Costa conhece para além dos bombeiros. Foi presidente da Assembleia de Freguesia de Prado São Miguel entre 2013 e 2017, já pertencendo anteriormente a outros executivos daquela freguesia. No ano passado, foi candidato pelo CDS-PP à freguesia, depois de muitas voltas dos dois principais partidos.

“Primeiro recebi um convite por parte do vereador José Morais para ser o candidato do PS mas não aceitei. Entretanto arranjaram um candidato e eu andei porta a porta a anunciá-lo para chegarem ao fim e dizerem-me que não me queriam na lista. Os adversários souberam e o Rui Malheiro, que era candidato do PSD, convidou-me para ser terceiro na lista, mas não aceitei. Depois ligou-me o Paulo Marques, que tinha um projeto diferente dos outros todos, onde pretendia mostrar o lado positivo da política e aliciou-me”, conta.

Passadas as eleições, Joaquim acabou por se retirar temporariamente da política, embora sinta que nas próximas autárquicas vá ser “novamente candidato pelo CDS. “É o lado da política com quem eu mais me identifico, assim como com o PSD”, revela.

Mas Joaquim nem gosta muito de falar de política. “Para mim a política é como o futebol, há adeptos de vários lados e se nos vamos zangar por causa disso, não vale a pena ser adepto de nada”, confessa, preferindo falar de Angola.

“Estive dois anos no total em Angola mas não volto mais”, vinca, contando que apanhou algumas doenças como a Malária, que depois teve de ser tratada lá. “Para eles essas doenças são o prato do dia, sabem bem como as tratar e curar, mas para quem vem de um sítio onde não existe disso, é sempre um choque”, conta, apontando a primeira “visão” da cultura angolana quando lá chegou.

“Ia na estrada e à nossa frente decorria um funeral. Ia o caixão na parte traseira de uma carrinha de caixa aberta, aos tombos, enquanto as pessoas iam a acompanhar ao lado sempre a dançar e a cantar. É diferente. Lá dizem que quando alguém morre vai para um lugar melhor, por isso celebram a morte. Já quando nasce alguém, eles ficam tristes, porque dizem que nasceu para sofrer”, acrescenta, revelando que o caixão… acabou por cair na estrada. “É outra cultura”, vaticina.

Regressado de Angola há dois anos, Joaquim Costa passa agora, aos 40 anos, uma fase na vida que lhe causa bastante “orgulho”. Revitalizou a Fanfarra dos Bombeiros de Vila Verde, que estava adormecida depois “dos tempos do sr. Pousada”. “Ele conseguiu fazer grandes coisas mas desde que saiu que a fanfarra se foi abaixo. Agora conseguimos recuperar muitos instrumentos que estavam desaparecidos em casa de alguns antigos membros, restauramos outros instrumentos e temos mais de 60 membros inscritos”.

No último encontro de fanfarras em Vila Verde, Joaquim Costa foi o maestro que dirigiu a mais de meia centena por entre as restantes seis fanfarras convidadas, tendo o momento alto na atuação frente ao palco central. “Aí não aguentei. Quando olhei para o fundo da rua e vi os elementos da fanfarra a fazerem tudo direitinho, comecei a chorar. Sou uma pessoa muito dura mas para essas coisas não. E quando o segundo-comandante Luís Morais me veio dizer que estava orgulhoso do meu trabalho, então ainda chorei mais”. E é assim Joaquim Costa, um “durão nervoso” que se derrete nos momentos enternecedores da vida.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista