Opinião

Opinião: “A dignidade dos animais pode ser equiparada a uma economia de milhões?”

Elda Fernandes / Braga para Todos
Elda Fernandes
Escrito por Elda Fernandes

Em março, ativistas denunciaram maus tratos no embarque de vacas e ovelhas com destino Israel, afirmando a violação das leis comunitárias de transporte de animais vivos e complementaram a denuncia com vídeos e fotos, agitando os perfis das redes sociais dos defensores da causa animal.

Os ovinos, a maioria dos animais sujeitos a estas viagens (cerca de 5000 mil em cada embarque), além de suportarem viagens em média de 10 dias, são vítimas da latente falta de condições, associadas a maus-tratos, como o uso de bastões elétricos, usados várias vezes em cada animal, arrastões, envio de animais com fraturas oriundas do transporte de camião, a sujeição a um stress extremo e empurrões, face ao desnível por vezes da estrutura do navio

Os produtores, fartos do ativismo e constantes vigílias, que assolam o país de norte a sul, tanto nos portos, como em vários matadouros negam o que as fotos e os vídeos denunciam, afirmam não existir maus-tratos, nem embarque de animais doentes ou feridos e salientam, o único argumento válido: a importância económica da venda de animais, para o exterior para o país.

Os navios de transporte de animais vivos têm, no entanto leis a cumprir, como: certificação por um estado-membro da União Europeia, fiscalização da DGAV e a viagem deverá ter a presença de um veterinário, para proteger os futuros consumidores, porque tal como os produtores afirmam: “não falta comida, nem palha e o objetivo é chegarem vivos e em boa saúde”, não porque tenham algum valo,r como seres vivos, mas porque isso determina o lucro.

A última viagem de milhões de animais, antes da morte, não é apenas confinada aos dias num navio, para lá chegar viajam até ao porto em camiões, mais visíveis para todos nas estradas, onde a maioria de nós vira a cara à verdade, resumindo-se: a um amontado de animais, seres sencientes, com um olhar assustado e cobertos de dejetos, muitas vezes dos animais de um piso superior. Após o traumático embarque, no alto mar, longe dos olhares dos ativistas, os animais têm pela frente viagens demasiado longas, onde mais uma vez, a lei da União Europeia referente à Higiene Segurança no Transporte de Animais Vivos não é cumprida e muitos chegam mortos e doentes ao destino.

As várias denuncias e o apoio da ala esquerda, nomeadamente PCP, Verdes, BE e do PAN surtem efeitos mínimos com projetos de lei reprovados, num país, onde os milhões de euros oriundos deste negócio têm supremacia sobre seres sencientes. Fora da esfera política e dos beneficiados diretos do negócio, somos entrepelados pelo senso-comum “as pessoas têm que comer, claro que está errado, mas é a lei da vida”. Lei criada por humanos, contornada e baseada num lucro de uma fatia mínima. Em pleno século XXI tratamos melhor encomendas referentes a objetos, que seres vivos.

Este problema de saúde pública, se insistirmos no antropocentrismo, volta agora à agenda política, face à entrada de mais uma petição na Assembleia da República, com a confirmação dos estivadores de existir maus-tratos, será que a legislação vai mudar? Será que a dignidade dos animais pode ser equiparada a uma economia de milhões? Ou vamos continuar a lamentar e a por vídeos nas redes sociais, sem fazer nada? Não se pode passar a responsabilidade de todos para alguns, é urgente haver legislação para colmatar as atrocidades e sensibilizar as pessoas, que os paradigmas podem mudar, basta querer.

Comentários

Acerca do autor

Elda Fernandes

Elda Fernandes

Assessora da imprensa