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Vila Verde. Casa onde viveu Sá de Miranda continua em ruínas

FAS / Semanário V
Fernando André Silva

No lugar do Côto, em Ribeira do Neiva, situa-se uma das mais importantes moradias históricas do concelho de Vila Verde e da região de Braga, que albergou, no século XVI, durante várias décadas, o conhecido poeta Sá de Miranda.

O solar, situada no lugar do Côto, na freguesia de Duas Igrejas, encontra-se em estado de ruína com o pátio interior tomado pela vegetação e as divisões existentes com o soalho e cobertura bastante danificados e não há possibilidade de intervenção por parte da junta de freguesia ou da Câmara de Vila Verde por ser propriedade privada.

O Semanário V esteve no local e constatou a degradação do monumento, apesar de ter sido recentemente alvo de desmatação a pedido de um aluno de arquitetura da Universidade do Minho que fez um levantamento exaustivo sobre a casa para uma tese de mestrado.

(c) FAS / Semanário V

Presidente da Junta de Ribeira do Neiva lamenta atual estado de degradação, mas futuro da habitação pode ficar resolvido em agosto

Contactado pelo V, o presidente da Junta de Ribeira do Neiva mostrou-se preocupado com o estado da casa que representa uma herança cultural para aquela união de freguesias. “Não podemos ter qualquer tipo de intervenção porque aquilo é propriedade privada”, explicou Carlos Machado.

Ao V, um dos atuais proprietários da moradia explicou o impasse em que a mesma se encontra. “A moradia pertencia há vários séculos à família Mimosa, de Ponte de Lima, e passou para os meus avós e depois para os meus pais”, disse Estevão Novais.

“Agora foi herdada por mim e pelos meus quatro irmãos que estão emigrados no estrangeiro e ainda não decidimos que rumo dar à habitação”, explica, apontando o mês de agosto como “momento decisivo para decidir o futuro da casa”.

Os irmãos ainda não sabem se um deles ficará com a casa completa, se a restauram em conjunto ou se a vendem a eventuais compradores que possam surgir.

“Vamos mesmo ter que decidir qualquer coisa em definitivo e vamos aproveitar que estamos todos cá para debatermos esse assunto”, apontou ainda Estevão Novais.

Vista da rua (c) FAS / Semanário V

Como referido anteriormente, a casa foi alvo de estudo por parte de um jovem arquiteto natural de Duas Igrejas. Dario Cunha baseou mesmo a sua tese de mestrado na Universidade do Minho naquele solar tendo feito um levantamento exaustivo das características de construção, a distinção dos diferentes períodos em que a casa foi alvo de nova construção e um levantamento de todas as divisões e para que seriam utilizadas.

Tese de mestrado de Dario Cunha é relatório fiel ao atual estado da casa

“Ruína é o termo que carateriza o estado desta casa solarenga. A vegetação cresceu derrubando várias estruturas que faziam a divisão entre o interior e o exterior e atualmente ameaça destruir os envelhecidos paramentos de pedra que a definem e caraterizam”, descreveu Dário em 2014, aplicando-se no entanto a mesma descrição para a atualidade.

“A casa encontra-se abandonada e sem qualquer tipo de manutenção por parte dos proprietários e a sua área agrícola reflete um subaproveitamento com a maioria das partes cobertas de vegetação selvagem que se estende às construções de produção como o moinho, o espigueiro e o sequeiro”, aponta o arquiteto, referindo-se à vasta área que outrora terá albergado vinhas e campos de cultivo que se encontra agora também ela coberta por vegetação.

Pátio interior (c) FAS / Semanário V

 

“São ruínas silenciosas mas ainda cheias de vozes que as habitam, migalhas de tempos arcanos que sussurram fios de histórias, que põem perguntas e nos convidam a saber mais”, refere apontando que a casa [solar] é composto por três volumes que definem um pátio central, vedado para o caminho vicinal por um muro coroado por merlões.

“Reflexo de ocupações mais recentes, a casa possui cobertura apenas na ala norte e metade da ala poente. Nestes espaços cobertos, ainda é possível aceder ao segundo piso,sobrado com uma estrutura muito degradada”, refere apontando a “sala nobre da casa” para a ala norte devido aos nichos existentes nas paredes.

interior de uma das divisões principais (c) FAS / Semanário V

“O piso inferior, pela reduzida altura e tratamento, reflete o que seriam os espaços de armazenamento e de abrigo dos animais. Aqui observamos zonas muito encerradas para o exterior e com pias esculpidas em blocos de alvenaria de granito que se dispõem linearmente num destes espaços”, refere sobre o rés-do-chão da habitação, visível a partir do pátio coberto de ervas.

“As restantes zonas da casa não são cobertas e encontravam-se invadidas por vegetação selvagem que paulatinamente diminuíram a resistência estrutural das empenas, colocando em risco a sua integridade”, alerta ainda o arquiteto que recorda o período de desmatação, em 2014, que possibilitou identificar na ala sul a antiga cozinha.

“Do lado exterior do muro de vedação e voltada ao caminho público, embora com um acesso a partir do interior do solar, encontra-se uma capela. Os seus paramentos apresentam um razoável estado de conservação graças à cobertura construída pela Junta de Freguesia. No entanto, o mesmo não se verifica no interior, onde já não existe o altar e atualmente é utilizado como arrumo do antigo carro de bois entretanto obsoleto”, aponta ainda Dario.

interior da capela (c) FAS / Semanário V

“Do mesmo modo degradado encontram-se os antigos edifícios ligados à produção vinícola da quinta: a casa dos lagares já não possui cobertura e as paredes de pedra da adega foram utilizados como base da casa do atual proprietário, que se eleva em mais dois pisos sobre esta secular construção”, diz.
Arquiteto apresentou proposta para reabilitar a habitação para turismo e produção agrícola

Dario Cunha desenvolveu mesmo uma proposta para um eventual restauro e utilização da moradia que passa por manter em regime de propriedade
privada, sendo gerido como propriedade de uma família que tenha interesse de promover em termos culturais e de utilizar a quinta como exploração agrícola.

Na tese de mestrado, o arquiteto aponta a criação de um lugar para estacionamento e a requalificação do solar, da capela, dos lagares, do moinho e da construção de novos espigueiros, sequeiros, eiras, armazéns e abrigos.

“Com a construção e reabilitação dos elementos arquitetónicos ligados à atividade agrícola espera-se que em toda a área da quinta, definida pelas várias plataformas horizontais, sejam cultivados cereais de sequeiro, árvores de fruto e vinha”, explica, apontando ainda “atividades pedagógicas” a serem desenvolvidas no solar.

O objetivo passa por tornar o espaço como uma referência cultural, não só por ter sido habitada por Sá de Miranda, mas por toda a importância histórica arquitetónica encontrada no espaço. A capela, mandada construir dois séculos depois da morte de Sá de Miranda e onde estão enterrados pelo menos dois proprietários desde o séc. XVII, serviria como um local aberto ao público. A implementação de uma biblioteca para os visitantes poderem passar algum tempo a ler é outra das propostas apresentadas.

Capelo no exterior e muro do pátio interior (c) FAS / Semanário V

Na semana em que se volta a comemorar no concelho do Sarau Cultural Sá de Miranda, poderá ser também este o ano em que o futuro do solar poderá entrar na vida da população de Vila Verde.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista