Andreia Santos Opinião

Opinião. Wonderfulismo

Andreia Santos
Escrito por Andreia Santos

Estava investigado e confirma-se, o Stress Profissional está a aumentar de forma significativa. Neste momento afeta 40 milhões de trabalhadores em toda a União Europeia. Num artigo de 12 de Maio no Jornal Expresso, a Ordem dos Psicólogos é citada e defende um Plano Nacional de Prevenção da Saúde Psicológica nas Organizações. Vários outros organismos defendem a obrigatoriedade da vigilância psicossocial periódica nos locais de trabalho. “Em Portugal dois em cada dez colaboradores sofrem de problemas de saúde psicológica e faltam ao trabalho 1,3 dias por ano devido a isso.” Por causa disto, os profissionais estão abaixo das suas capacidades reais e há perda de produtividade, diz o artigo. Digo eu daqui, há perda de muito mais que a produtividade, não somos máquinas, nem meramente força laboral, há perda de vida, morre-se assim lentamente em vários outros domínios da experiência humana…

Estes indicadores parecem paradoxais numa época em que se fala tanto de Felicidade nas empresas, talvez por isto mesmo se tenha passado a dar importância à alegria dos colaboradores, mas importa falar: de que forma é que isto é feito? Por vezes mal, muito mal feito. Não bastarão as atividades que são oferecidas, não bastarão os encontros de equipas, nem as receções matinais ou fins de semana de empresa… Chega de “WONDERFULISMO” como diria uma amiga minha. Não será nunca correto pedir a um humano que esteja permanentemente feliz e evocar ditos sem sentido para instigar as emoções positivas, mas sem realidade. Confesso, estou cansada: Não, não é verdade que se o podes sonhar, podes fazê-lo”, nem sempre é assim. Não, não é verdade que “temos que fazer limonadas com os limões da vida”, não sem sentir as emoções todas. Todos temos necessidade de estar tristes de vez em quando, de sentir as emoções a que chamam de negativas sem razão. Fazer de conta que só podemos ter emoções do espectro da felicidade é a maior mentira do nosso tempo.

As emoções ditas negativas são vitais à nossa capacidade de adaptação ao mundo. A tirania da positividade e do otimismo desmedido são o caminho mais certo para a depressão. Afasta-nos de nós que sim, também somos tristeza, raiva, aborrecimento, medo e precisamos destas para caminhar para a resolução certa dos problemas. Quando não podemos ser o que somos, gostados pelo que sentimos e valorizados nos nossos contributos deixamos de poder respeitar a própria experiência e entramos na “fachada” de ser “os melhores do mundo”, do “ambiente empresarial fantástico”, da “energia que se respira” sem ser verdade.

Tenho acompanhado paralelamente a ditadura dos Big Goals. É importante ter objetivos grandes? Claro que sim! Sobretudo quando possíveis. Mas não nos podemos esquecer que estes são alcançados através dos pequenos passos e que tudo isto implica falhar e aprender. E que realmente a felicidade se faz a caminhar. Estrangular o processo é criar falsos casos de sucesso, um dia paga-se a fatura. Mas que fatura? Pagam as pessoas, acima de tudo. Que são mais que profissionais. E que desde há muito que se lê nos manuais que é preciso entender isso. Deixo uma sugestão a todos, que isto se compreenda: “O maior objetivo de todos, e o único que realmente importa, é ficar continuamente melhor, mais forte, mais gentil e mais sábio. É permanecer no caminho pessoal. E tudo é tão simples e tão difícil como isto”, (Brad Stulberg). Tornar-se bom profissional continua a ser torna-se a melhor pessoa possível e com stress não dá. Um Junho FELIZ, a respirar!

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Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional