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Rui O. Marques: “Sou do tempo em que vinham camionetas de espanhóis à Bracalândia”

Rui Oliveira Marques é jornalista / DR
Fernando André Silva

Apresenta-te…

Rui Oliveira Marques, 40 anos. Passei pelas escolas Francisco Sanches, Carlos Amarante e Sá de Miranda. Cresci em São Vítor, que é onde vive a maior parte da família da minha mãe. Estudei Comunicação Social na Universidade do Minho (1995-2000). Entre o secundário e a universidade trabalhei na Bracalândia. Ainda sou desse tempo em que vinham camionetas de espanhóis para a Bracalândia ao fim-de-semana. Formação católica. Fui fotógrafo num jornal que teve vida efémera: O Povo Bracarense, colaborei com vários jornais académicos, na Rádio Universitária do Minho fiz parte do Teatro Universitário de Braga e do núcleo de Braga da Amnistia Internacional. Actualmente sou director-adjunto do Meios & Publicidade e jornalista especializado em temas de comunicação e marketing. Sou também presidente da associação Isonomia, responsável pelo conceito do Festival Política, que teve a sua segunda edição em Abril, no Cinema São Jorge, em Lisboa. Sou co-autor dos livros “Má Despesa Pública” e “Má Despesa Pública nas Autarquias” (edições Aletheia).

Estás com um cargo de responsabilidade editorial num dos principais meios de comunicação do país. Quais os critérios pelos quais te costumas guiar para manter um produto de qualidade perante os leitores?

Atualmente todos os meios de comunicação social enfrentam o grande desafio de conseguir convencer os leitores a pagar pelos conteúdos e captar anunciantes para as suas edições em papel. Vivemos uns tempos em que se critica muito os jornalistas e o nosso trabalho através das redes sociais, mas depois as pessoas não estão dispostas a pagar pelos jornais ou em apoiar o bom jornalismo. Isto é um problema transversal a todos os meios, independentemente da área ou da dimensão. Como jornalistas temos esta nova missão de explicar a relevância do nosso trabalho e a importância do escrutínio dos poderes político e económico.

Como tens visto a evolução do Festival Política e qual o teu papel na organização? Quais os objetivos?

Há dois anos estava a passar férias em Veneza numa altura em que estava a decorrer o Festival della Politica, que é um evento que ocupa várias praças da cidade com debates, encontros, filmes, teatro, música e actividades para crianças. Achei a ideia muito interessante e após uma pesquisa constatei que é um modelo de festival muito popular no Norte da Europa e no Reino Unido: coloca a sociedade civil a discutir temas políticos com impacto no nosso dia-a-dia. Apresentámos o conceito à EGEAC, empresa municipal de Lisboa responsável pela área cultural, que decidiu arriscar. A primeira edição do Festival Política teve como tema central a abstenção e agora em Abril tivemos uma segunda edição dedicada ao tema dos direitos humanos. Participaram quatro mil pessoas. Felizmente já não temos de estar a explicar que o festival não tem nenhum partido, lobby ou sindicato por detrás. É genuinamente organizado por e para a sociedade civil.

“Olhando a partir de Lisboa, parece-me que Braga é notícia pelo clube de futebol, pela Semana Santa e pela eterna ideia de ‘cidade mais jovem de Portugal'”

Dava para organizar um Festival Política em Braga? Há interessa por parte dos jovens em discutir política?

Claro que gostava muito de levar o Festival Política para Braga. Após a edição deste ano, fomos abordados por uma autarquia que está interessada em receber uma extensão do festival em 2019. Aliás, na edição deste ano em Lisboa tivemos vários jovens do Minho, que integraram a nossa programação cultural. Tivemos uma performance do estudante de Teatro da Universidade do Minho Zacarias Gomes, e um vídeo-concerto incrível do Nuno Meneses e da Gabriela Almeida. Os jovem querem ter uma voz activa na vida colectiva, encontrando, em vez dos modelos tradicionais dos partidos ou das juventudes partidárias, formas muito criativas, como a arte e a música, para se expressarem. É preciso dar-lhes palco e, principalmente, saber ouvi-los.

Como te lembraste de criar o Má Despesa Pública?

Foi depois de ler uma notícia de que a administração da Carris se preparava para mudar a frota dos carros topo de gama, numa altura em que a empresa estava a cortar nas linhas e nas frequências de carreiras. Com a Bárbara Rosa, criámos um blogue que compila os exemplos de “má despesa” por parte de entidades públicas, resultando da pesquisa de contratos no portal Base, da análise de relatórios do Tribunal de Contas e de documentos financeiros das entidades públicas. Estes sete anos de actividade deram entretanto origem aos livros “Má Despesa Pública” e “Má Despesa Pública nas Autarquias”

Ajuda-te a perceber melhor os meandros da corrupção ou da negligência dos políticos? Viste (ou vês) isso a acontecer em Braga?

Nos livros e no blogue fomos, ao longo destes anos, destacando vários casos preocupantes que decorreram em Braga, como a construção do novo estádio, a PPP dos relvados sintéticos, o caso do convento das Convertidas ou a concessão do estacionamento de superfície. São casos, alguns ainda nas mãos da justiça, que mostram que os cidadãos é que pagam a factura dos negócios danosos ou que visam interesses particulares. Infelizmente, a maioria das pessoas mantém-se alheada em relação à forma como o dinheiro público é gerido.

“Houve uma mudança radical após a reabertura do Theatro Circo e a inauguração do GNRation. Exemplo disso é o Semibreve, que se tornou numa referência internacional”

Como “emigrante”, o que sentes quando te chegam notícias em relação à cidade?

Olhando a partir de Lisboa, parece-me que Braga é notícia pelo clube de futebol, pela Semana Santa e pela eterna ideia de “cidade mais jovem de Portugal”. Há hoje um grande dinamismo económico e de inovação na região que tarda em ser reconhecido a nível nacional. Na origem desse problema está o grande centralismo de Lisboa mas também, a outro nível, de Porto. Ao nível da divulgação turística Braga está a ser muito mal promovida. Parece que se está a remeter para ser um apêndice do Porto com um único motivo de atração: a Semana Santa. Constatei isso na Bolsa de Turismo de Lisboa este ano, que é o principal evento de promoção do turismo nacional, onde dominava a referência ao “Porto e região Norte”. Outro exemplo pode ser a Eurovisão, para a qual pagamos 20 milhões de euros, mas em que a terceira cidade do país não esteve representada nos vídeos de promoção que foram vistos por 200 milhões de pessoas.

E cultura? Que mudanças encontras na cidade?

Houve uma mudança radical após a reabertura do Theatro Circo e a inauguração do GNRation. Exemplo disso é o Semibreve, que se tornou numa referência internacional. Talvez fizesse sentido apostar em mais eventos de menor dimensão mas com um forte envolvimento com a comunidade criativa e artística local, à semelhança do que faz Guimarães. Estou curioso para saber, em termos concretos, o que vai acontecer ao Cinema São Geraldo. Por outro lado, preocupa-me que a Fábrica Confiança continue ao abandono. Não foi essa a promessa da autarquia e é convicção dos bracarense que a Confiança será um espaço para usufruto público. Até porque é preciso criar novos pólos culturais mais afastados do centro da cidade.

Há uma marcha marcada para Braga pelos direitos LGBT. És apoiante. Achas que é possível trilhar um caminho de tolerância numa cidade conservadora como Braga?

Devíamos estar a falar de igualdade e não de tolerância. Parece-me que rótulo de “conservadora” é aplicado a Braga por quem não quer concretizar os seus projectos e fica de braços cruzados a criticar os outros. É uma cidade, até pela sua dimensão, que acolhe pessoas de todas as origens, ideias, convicções e identidades. Felizmente a sociedade é cada vez mais aberta e respeita a diversidade. Exemplo disso é o colectivo Braga Fora do Armário, responsável pela Marcha dos Direitos LGBT, que ao longo do ano organiza e participa em vários eventos para que estes assuntos não sejam falados apenas uma vez por ano.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista