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Rumo ao trabalho ou passear a bebé. Mário defende a bicicleta como transporte em Braga

(c) FAS / Semanário V
Fernando André Silva

“Trabalhar a cidade”. É um dos lemas de Mário Meireles, 29 anos, enquanto mira a cargo bike que comprou de encomenda para satisfazer as necessidades de alguém que acaba de ter uma filha e escolheu poder continuar a deslocar-se de bicicleta na cidade de Braga, como faz regularmente há vários anos, mesmo com todos os obstáculos da urbe.

A trabalhar na sede dos Transportes Urbanos de Braga, sai de casa, ao fundo da Av. da Liberdade, e apanha a via pedonal/ciclável do rio Este em direção ao trabalho, atravessando a cidade em tempo recorde. Faz compras, vai ao shopping, tudo o que faria com um carro, mas sem os inconvenientes das filas de trânsito e do estacionamento. Também faz exercício e garante que não sua, até porque a cargo só anda a 15/20 km/h e o bichinho já vem dos tempos de estudante.

“Quando estudava na Universidade do Minho, de vez em quando ia de bicicleta. Entretanto conheci o Victor Domingos que tinha o blog Braga Ciclável. Comecei a conversar mais com ele, a desmistificar certos contras de andar de bicicleta na cidade. Acabei por pegar numa daquelas bicicletas do supermercado e comecei a andar mais e mais na cidade”. Da bicicleta de supermercado passou para outra mais elaborada. Seguiram-se mais duas até que houve a necessidade de um transporte mais familiar. “Em viagens pela Europa, tinha visto uma bicicleta deste género [cargo bike], e entretanto fui pai e tinha necessidade de transportar a minha filha em alguma viagens que faço durante a semana. Pelo menos 80 kgs garantem à frente e 25 atrás”.

Cargo Bike custou 2.000 euros a Mário Meireles (c) FAS / Semanário V

“Com esta bicicleta nunca tive acidentes. sinto que há um maior respeito, não pelo respeito, mas pela curiosidade. Quando ultrapassam ficam atentos porque querem ver o que se passa aqui em vez de ultrapassarem sem qualquer atenção. As pessoas curiosas, acabam por abrandar. Às vezes até abordam na rua. Por causa do sistema de viragem da roda da frente, perguntam se adaptei, se comprei, quanto custou [cerca de 2.000 euros]. Fui a uma loja, disse a marca e o modelo que queria, para o que queria, e eles montaram tudo, a caixa, a cadeirinha, tudo. Até ando com uma mala de ferramentas na minha mala impermeável”.

E na cargo nunca teve acidentes, ao contrário de “há três bicicletas atrás” quando foi colhido por um automóvel na reta de Gualtar. “Fiquei com uma fratura exposta porque o pé ficou preso no alcatrão. Foi feio. Somos pára-choques quando usamos a bicicleta. A cidade precisa de outro tipo de condições para que as pessoas evitem abusos”.

“Entre a Montalegrense e o E.Leclerc [este – oeste] e entre os dois estádios [norte – sul], a cidade é perfeitamente ciclável”

Pelas vias alternativas ou pelas ciclovias designadas que já vão surgindo, Mário leva sempre consigo uma mala impermeável onde guarda ferramentas, o cadeado reforçado que serve para prender num “bicicletário” ou, à falta deste, a um qualquer “poste ou árvore” na altura de aparcar. E a falta de estacionamento também pode ser um problema para os ciclistas. Mário não gosta dos atuais “empena-rodas” que habitualmente se veem à porta de superfícies comerciais. Aponta mesmo o exemplo da Staples, a quem deixou uma crítica nas redes sociais, tendo depois sido contactado pelos mesmos para que sugerisse outro tipo de bicicletário, que foi implementado.

É presidente da Associação Braga Ciclável, movimento surgido do blog, em 2012, transformado em associação em 2016, para promover o uso da bicicleta na cidade junto dos decisores da mesma. Hoje, a associação conta com mais de uma centena de associados, onze diretores e centenas de simpatizantes, sendo parte ativa e reivindicativa do tecido associativo urbano. Mário reforça a importância da associação e crê que a cidade tem “todas as condições para se poder pedalar”. “Não falo do concelho todo. Entre a Montalegrense e o E.Leclerc, sentido este – oeste, e entre os dois estádios, sentido sul – norte, a cidade é perfeitamente ciclável”, defende. “O que é preciso fazer é redução de velocidades, acalmia de tráfego, redução do numero de vias, sobelevamento de passadeiras. Não falo das de partir molas, mas daquelas bem feitas”.

“Ninguém percebe a Rua Nova de Santa Cruz”

E a Câmara de Braga até pensou na associação durante a intervenção na Rua Nova de Santa Cruz que contemplou uma ciclovia. Mas a mesma não agradou. “Como ciclista a minha opinião é que aquilo não se percebe. Ainda hoje ninguém percebe a rua, supostamente era para mais gente ficar contente e isso não aconteceu. Parece erro de projeto. Naquela rua não há volumes de tráfego elevados. portanto não se justifica uma ciclovia, mas sim uma coexistência pacifica do trânsito. Era necessário sim uma intervenção técnica que levasse a que o trânsito fosse mais calmo. A via subeleva no inicio e depois reduz e acaba por ser pista de automobilismo. A ciclovia já está com marcas de travagens de carros que lá estacionam e que nos obrigam a ir para o meio do trânsito. Há uma série de situações que podem ser resolvidas, outras que precisam de uma intervenção profunda. Mas aquilo ainda não foi inaugurado. A informação que temos é que vão proteger a ciclovia”, adianta.

Rua Nova de Santa Cruz (c) José Castro

“A nível de infraestruturas há algumas que devem ser alteradas. Temos as estradas feitas, e só temos de as adaptar. Temos velocidades excessivas para uma cidade. Temos captações de 150km/h na rodovia, por exemplo e isso não se coaduna com a velocidade de uma cidade. Pontualmente há necessidade de criar novas ciclovias”, vinca, apontando os benefícios para os possíveis futuros utilizadores da bicicleta como meio de transporte na cidade.

“Não falo em ir todos os dias para o trabalho, mas é possível adaptarem-se à vida ciclável no dia-a-dia da cidade.Ir ao cafe ás compras, comprar o jornal, ir ter com um amigo ali abaixo, fazer 500 metros… Até aos 5 kms é preferível ir de bicicleta. Não há problemas de estacionamento, não há filas de trânsito, temos vias mais diretas para chegar ao destino, a nível de saúde estamos a fazer exercício, a nível económico poupo em combustível e estacionamento. Vivemos de outra forma a cidade porque vemos outros pormenores e outro tipo de estabelecimentos que normalmente não vemos quando vamos de carro. E isso leva a que se consuma mais na cidade”, termina.

Aliar bicicleta ao transporte público

Estacionamentos de media e longa duração podem ser de grande utilidade para aliar o uso da bicicleta ao transporte público. Por exemplo, estações de camionagem, escolas, shoppings com cinema, onde as pessoas fiquem mais tempo, ou paragens que sirvam de transbordo. Se aqui [Parque da Ponte] tivesse uma zona fechada e eu com o meu passe de transporte público conseguisse estacionar a bicicleta gratuitamente, isso iria trazer mais gente para o uso da bicicleta e do transporte. Isso já é feito em várias cidades no estrangeiro. Em Cascais julgo que já fazem isso.

Equipamento? Roupa do dia-a-dia e nada de capacete

(c) FAS / Semanário V

Uso a roupa normal do dia a dia, tanto vou de fato como de corsários. Uso as luzes na bicicleta, é obrigatório, refletores obrigatórios nas duas rodas, cadeado, a mala impermeável, quando o tempo está previsão de chuva, levo fato impermeável e não uso mais nada. Não uso capacete porque não é obrigatório porque me sinto bem assim. A nível psicológico, pode ser perigoso. O capacete protege quedas à “Joaquim Agostinho”. Esse tipo de acidentes é muito raro de acontecer a quem usa a bicicleta como meio de transporte. O mais provável é ser uma colisão com um carro, e ao cair caímos de costas. Além disso está provado que a maior parte dos acidentes que resultam em danos cerebrais são vítimas dentro de carros. E não é obrigatório utilizar capacete no carro. Também posso cair a tomar banho mas não o vou fazer de capacete. Temos é de conseguir que o acidente não exista e para isso é preciso rever as infraestruturas. Agora, falando de ciclismo de estrada ou monte claro que deve ser obrigatório. Eu ando a 15, 20 kms/h. Quando caio raramente vou ter alguma lesão na cabeça. Não há justificação para obrigatoriedade. Todo um ‘argumentário’ leva a que não haja necessidade. É preciso trabalhar as cidades. É preciso mais gente a andar de bicicletas nas cidades. Isso diminui a sinistralidade, como casos da Holanda ou Dinamarca, sul de Espanha, parte da França. Cá estamos noutra ponta e ainda pedalamos pouco.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista