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Eduardo Milhão: “O Vilaverdense não tem dinheiro para mandar cantar um cego…”

(c) Salomé Pessoa / Semanário V
Fernando André Silva

Eduardo Milhão deixou a liderança do Vilaverdense FC no final do mês de maio. Em entrevista, o empresário a residir em Oriz São Miguel salienta os recordes batidos pela equipa nos dois últimos anos e deixa alguns conselhos e avisos à futura direção do clube.

Esteve dois anos como presidente da direção do Vilaverdense FC. O saldo é positivo ou negativo?

É óbvio que foi muito positivo para o Vilaverdense. Foram dois anos em que todos os recordes foram batidos e isso ninguém nos pode tirar. Fizemos um trabalho sério e digno. A nível financeiro, e foi este o principal ponto a que a direção se propôs quando foi eleita, conseguimos resolver os problemas graves pelo qual ultrapassava. Devo dizer que liquidamos as contas do clube, por isso o propósito foi atingido e não poderia ser mais positivo. Já a nível de resultados, os mesmos falaram por si. Conseguimos resultados como nunca ninguém conseguiu no clube. Vencemos o Boavista e outros clubes poderosos até chegarmos aos oitavos de final onde caímos contra o Sporting, mas fizemos um jogo digno e reconhecido por toda Vila Verde. Aliás, esse apoio foi visível e contagiou todo o concelho. Querem balanço mais positivo do que esse? E é claro que estes dois anos fizeram com que eu ficasse também com um sentimento muito bom em relação a este clube. Saio mas não estou zangado com o Vilaverdense, muito pelo contrário. Ficarei sempre um adepto do Vilaverdense FC.

Só faltou a subida à segunda liga…

Aquilo que prometemos aos adeptos do Vilaverdense quando fomos eleitos para além de resolver as contas do clube seria lutar para subir à II Liga. A verdade é que também isso foi cumprido, embora não se tenha conseguido subir. A partir do momento em que chegamos à fase de subida ficámos conscientes de que qualquer uma das equipas tinha as mesmas hipóteses de conseguir lá chegar. Na verdade, quem chegou foi o Leiria e o Farense, equipas de peso. Pelo caminho ficou o Vilaverdense mas também o Vilafranquense e outras equipas com menos peso futebolístico.

Sentiu frustração?

Não, de maneira nenhuma. Talvez tristeza seja a palavra certa e esse é um sentimento normal. Repare, o Vilaverdense FC, entre 80 equipas a nível nacional, repare… 80 equipas… esteve sempre nas melhores oito. E na Taça de Portugal chegámos aos oitavos-de-final. Não posso ficar frustrado com estes resultados.

Acha que é possível repetir este percurso num futuro próximo?

Honestamente acho que sim, mas não é fácil fazer o que fizemos porque um clube de futebol sem dinheiro e sem uma boa gestão simplesmente não funciona. Ninguém faz nada sem dinheiro. Os jogadores custam dinheiro, os ordenados dos jogadores custam dinheiro, as deslocações custam dinheiro, tudo custa dinheiro. Para garantir isso, e isto é aquilo que penso, o Vilaverdense precisa de um investidor ou um grande patrocinador com dinheiro suficiente para ajudar a equipa a segurar-se nesses patamares.

A SAD ficou pelo caminho. É por isso que sai?

Como referi aquando do anúncio de não continuar no clube, a minha saída deve-se a motivos pessoais. Não tem nada a ver com SAD ou com outra coisa que não a minha vida pessoal. Tudo na vida tem um fim e, como presidente, tinha a liberdade de sair quando me desse na gana porque ninguém me obriga a lá estar. Mas eu gostava que se lembrassem que, quando fui eleito, ainda não tinha muito jeito para estas coisas de falar a jornalistas mas, tímido, disse que ia liquidar o passivo durante os dois anos seguintes e foi o que fiz precisamente no tempo em que disse. Outra coisa que também disse foi que íamos tentar construir uma equipa para subir à II Liga e foi exatamente o que fizemos nos dois anos que estive lá.

Mas houve eleições pelo meio…

O facto de ter havido a assembleia e novas eleições não alterou em nada os dois anos que eu já tinha definido na minha cabeça. Eu posso dizer que já tinha avisado aos diretores, há coisa de quatro ou cinco meses, que ia sair no final da época. E a saída prende-se apenas por razões pessoais, não tem nada a ver. Se subíssemos tínhamos de constituir uma SAD mas o presidente não é escravo de ninguém, tem uma vida própria. Uma SAD implica outro tipo de disponibilidade do presidente, não é o mesmo que ser presidente do clube. Por isso, posso afirmar que, mesmo que o clube subisse, eu sairia também.

Pensa voltar algum dia?

Voltar ao futebol? Nos últimos anos aconteceram coisas na minha vida que agora me fazem dizer que “desta água não beberei”. Já não digo “não” a nada… (risos)

O que vaticina para o futuro do clube?

Vila Verde tem de cair na realidade que a imagem deste clube é ter uma equipa para tentar não descer dos nacionais. O Vilaverdense não tem dinheiro para mandar cantar um cego… Os patrocínios são pequenos e não há nenhuma hipótese de se conseguir ter com isso aquilo que tivemos nestes últimos dois anos. O Vilaverdense não tem património. O estádio é da Câmara e apenas tem uma carrinha e uma camioneta. A Prozis é uma empresa de palavra e se o clube eleger um presidente em quem a gente confie, a empresa vai continuar a ser o principal patrocinador do Vilaverdense com uma oferta financeira muito generosa e comprar uma ou duas carrinhas para a formação do clube. Mas atenção, todo o incentivo é direcionado para a formação e isto que fique bem ressalvado. É nesse departamento onde achamos que existe maior carência.

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Fernando André Silva

Jornalista