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D-Cifra: “Apontaram-me como falhada mas sou uma vencedora”

Fernando André Silva

Catarina Rodrigues, de 20 anos, é uma estrela em ascensão no mundo do Hip Hop nacional e prepara-se para lançar o disco de estreia “Mundo Livre”. A cantora, natural de Vila Verde, atuou nas últimas festas de Santo António, abrindo o concerto da famosa cantora Áurea e prepara-se para atuar nas festas do São João de Braga. Ao Semanário V, “D-Cifra”, como é conhecida no mundo musical, abriu o livro da carreira e dos planos para o futuro e conta as dificuldades de alguém que não tem “pais ricos” e que precisa de trabalhar numa cadeia de fast-food para prosseguir o sonho musical.

Apresenta-te…

Sou a “D-Cifra”, Catarina Rodrigues, tenho 20 anos e nasci e vivi sempre no centro de Vila Verde. Andei na catequese e joguei futebol no Pico de Regalados. Estudei nas EB de Vila Verde, Secundária de Vila Verde e na Secundária Carlos Amarante, em Braga. Participei no concurso The Voice e atualmente trabalho numa cadeia de fast-food, em Braga, para poder pagar a música que faço. Escrevo desde os 12 anos e toco guitarra desde os 17. Já gravei dois videoclips e várias faixas e vou lançar o primeiro EP – Mundo Livre – que aborda a liberdade e outros temas que me dizem muito, sobre escolhas de vida e sobre ser mulher no rap. É que ainda existe muita discriminação neste mundo…

Por seres mulher?

Sim. Só há uma mulher conhecida no mundo do rap português – Capicua – porque neste mundo parece que não se pode fugir à regra do rapper ser uma figura masculina. Uma mulher não pode cantar sobre temas que fujam à regra da sociedade porque fica logo mal vista. Não podem falar sobre álcool ou droga, não podem falar sobre homosexualidade, porque tudo isso não é comum, embora os tempos já tenham avançado nesse sentido. E aqui em Vila Verde ainda pior. Estamos numa vila pequena onde o preconceito e a ignorância andam de mãos dadas com uma população envelhecida e que influencia as gerações mais novas, incutindo-lhes as mesmas ideias. A própria juventude vive condicionada em Vila Verde.

Como vês o panorama musical em Vila Verde e em Braga?

Na minha opinião, acho que as câmaras de Braga e Vila Verde,dão apoio mas deviam dar mais, permitir que os cantores da própria terra atuem, mostrem o seu trabalho porque o inicio de uma carreira é sempre complicado por falta de apoios. Quando está em alta é o melhor do mundo, mas quando está em baixo, primeiro que tenha abertura para mostrar o trabalho… É necessário mais apoio e iniciativas para ajudar a conhecer, como nas festas populares. Por acaso tenho sorte, este ano atuei no Santo Antonio e agora vou atuar no São João. Mas acho que deviam incentivar mais os jovens, arranjar um estúdio de gravação, por exemplo. Seria importante. Conheço muitos músicos de Vila Verde que vão para Braga ou Porto. O meu estúdio é em Pico de Regalados mas é na casa de um amigo meu. Aqui só se liga às concertinas e ao rancho mas o pessoal precisa de inovar, precisa muito disso, embora cada dia haja mais iniciativas, mas é preciso mais.

Quais as tuas principais influências musicais?

As minhas maiores influências são portugueses. Dillaz, Dengaz, Piruka, Capicua, Sam the Kid… Também gosto muito de um cantor de reggaetone colombiano – Maluma Sei que é oposto do rap mas gosto muito do carisma e do visual dele. Em termos de mulheres, gosto de Capicua, claro mas também de Cardi-B. No entanto, a minha maior influência nas letras é Eminem. Gosto da história de vida e da agressividade com que canta. Revejo algumas letras dele nas minhas e identifico-me com a métrica das rimas.

Descreve o teu trabalho até agora e qual o rumo que pretendes seguir?

O meu trabalho tem sido mesmo isso. Trabalho. Comecei a dar concertos este ano depois de receber muitas mensagens de apoio. Estou a pagar tudo do meu bolso, o material, as deslocações. Também estou a conseguir os concertos todos através dos meus contactos. Pode-se dizer que sou a minha própria Manager. Faço tudo por mim e, ao longo do tempo, tive ainda de ouvir bocas no trabalho por ter participado num programa – The Voice. Isso até deu origem a uma rima que é “ontem bati a porta do chefe / hoje encho batatas para ganhar a vida”. Isto significa que estive com os holofotes virados para mim mas não tinha noção do complicado que é trabalhar no mundo da música, também pela exposição. No trabalho, ficaram com medo que me reconhecessem, e isso acontece, mas não prejudica. Reconhecem e perguntam porque é que estou a trabalhar ali. Respondo sempre que “não tenho pais ricos”. Muitas pessoas dizem que já devia estar a lutar exclusivamente na música, mas há pessoas preconceituosas, maldosas, pessoas a dizer para eu ir com tudo e agora apontam-me como uma falhada. Na verdade sou uma vencedora, porque estou a fazer tudo por mim. De mim só podem esperar muito trabalho, é isso que eu quero é para isso que nasci e não me vejo a fazer outra coisa no futuro. Se não for rapper viverei frustrada a vida toda. Já mereço.

Como é o processo de composição das tuas músicas?

Eu vou para o rio na Malheira e na Ponte Nova, fico la umas horas a pensar na vida. A praia ajuda bastante para que os sentimentos comecem a vir ao de cima. Escrevo e começa a vir tudo dai. Às vezes o meu corpo acorda de noite só para me obrigar a escrever. Já no que toca aos instrumentais, tenho o apoio do meu produtor e agora vou ter uma parceira de palco – Carina Silva – de nome de palco [Exact], que vai cantar comigo no São João. Para além deles, tenho ainda ajuda do guitarrista Rafael Vilaverde, que também participa em algumas atuações.

E as letras?

Escrevo sobretudo sobre injustiças. Injustiças em relação a tudo. Escrevo também sobre os meus amores. Aposto muito nas emoções. Faço musica sobre as minhas próprias emoções e isso permite-me ter muito por onde escrever (risos). Não sou emotiva, mas passei muita coisa. Se quiserem saber o que passei, podem sempre ver os concertos.

O hip-hop ainda está vivo ou foi definitivamente agregado pelos seus derivados?

O puro hip-hop tuga ainda existe. A nova escola, como os Estraca, mostram isso. Eu rimo mas não me considero rapper, considero-me música, porque gosto de vários estilos de música, não gosto de ser restrita. Gosto do hip-hop mas é à minha maneira.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista