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Há uma praga de lombrigas num ribeiro de Braga. E vai desaguar ao Cávado

Limpeza do rio Torto em Panóias, Braga (c) FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Junta de Freguesia e Associação Katavus juntaram-se na manhã deste sábado para uma ação de cariz pedagógico de limpeza na ribeira de Panóias, afluente do rio Torto, junto a um velho moinho na frente da igreja paroquial daquela freguesia bracarense. No local, constataram que ainda persiste a poluição e o cheiro nauseabundo e encontraram o que parece ser uma praga de lombrigas.

Em abril de 2016, a AGERE anunciou investimento de um milhão de euros na remodelação da ETAR de Frossos que visava “reduzir o impacto ambiental da estrutura”, garantindo a empresa que incluía a valorização da ribeira de Panóias. No entanto, as descargas daquela ETAR persistem.

Foi por isso que 15 voluntários removeram ramos partidos que obstruíam a passagem da água e retiraram todo o tipo de lixo orgânico daquela ribeira, mas a ação, meramente pedagógica, nada fez contra a ameaça dos “esgotos a céu aberto disfarçados de ribeira”.

Carmindo Soares, presidente da união de freguesias de Merelim (S.Paio), Panóias e Parada de Tibães, disse ao Semanário V que a poluição naquela ribeira é uma constante há vários anos, fruto de descargas da empresa municipal AGERE.

O autarca aponta uma “praga” de lombrigas que infesta grande parte daquela zona. No local é possível ver a coloração vermelha em alguns pontos do fundo do rio e, quando agitado com uma ferramenta de limpeza, constata-se que são pequenos parasitas avermelhados, chamadas de lombrigas.

Praga forma cor avermelhada no fundo do ribeiro (c) FAS / Semanário V

“As informações que temos sobre estas descargas é que a atual ETAR não tem capacidade para receber todo o saneamento e fez descargas sem qualquer tipo de tratamento, diretas para o rio”, aponta o autarca, revelando que “está tudo à vista de todos” e que a proveniência das lombrigas será mesmo do saneamento que é descarregado para o rio.

“A resposta que nos deram é que para resolver estas descargas é necessária a construção da nova ETAR em Celeirós, ao pé do rio Este”, diz Carmindo, lamentando o “cheiro” e a “poluição” daquela ribeira que tem doze moinhos edificados no seu curso.

“Estas descargas influenciam a população por onde o rio passa. Os vizinhos desta zona não conseguem ter janelas abertas no verão por causa do cheiro e dos mosquitos, inclusive a população de Panóias levantou a questão em Assembleia Municipal e a resposta foi que estão à espera da construção da nova ETAR”, diz.

Autarca local passou a manhã a limpar a ribeira de Panóias (c) FAS / Semanário V

Um relatório de saúde pública datado de outubro de 2013 indicava “água visivelmente conspurcada” e “sem transparência, com coloração castanha e espuma nos locais de maior agitação”, o que ainda se mantém.

O mesmo relatório da Unidade de Saúde Pública da ARS Norte indicava também “acumulação de lamas em algumas zonas, junto às margens do curso de água” e a “presença de um odor nauseabundo e existência junto ao curso de água de uma quantidade considerável de mosquitos, quer em estado adulto, quer no seu estado imaturo (larvas na água)”.

O mesmo relatório indicava que “a situação verificada constitui um risco significativo para o ambiente e para os habitantes das zonas circundantes, considerando a população de mosquitos existentes, bem como a possibilidade de contaminação das águas subterrâneas”.

Associação Katavus sugeriu a ação pedagógica e diz que AGERE vai desviar descargas para o rio Este

De forma a alertar a sociedade para este problema que persiste há anos, a associação de cariz ambiental e cultural Katavus organizou esta limpeza, mas são os primeiros a salientar que “nada disto resolve verdadeiramente o problema”. E o problema são as descargas…

“A água deste rio é tão poluída que o moleiro diz que os mecanismos de moagem ficam completamente destruídos em pouco tempo. As mós que duram 30 anos, passam a durar apenas dois”, disse Manuel Duarte, da Katavus.

Também Etelvina Sá, da direção daquela associação, apontou que a nova ETAR anunciada para Celeirós poderá ser novo perigo para o rio Este. “Vão construir a ETAR em Celeirós para aliviar a de Frossos. Basicamente, aquilo que parece ser dado a entender é que vão desviar as descargas do Cávado para o Este”, aponta.

Visita a ETAR de Frossos a 5 de junho de 2018 (c) Mariana Gomes / Semanário V

Recorde-se que ainda este mês, Ricardo Rio, presidente da Câmara de Braga, apontou como “necessidade premente” para o concelho a construção de uma nova ETAR, salientando que o projeto está à espera de financiamento comunitário.

Em declarações aos jornalistas, à margem de uma visita à ETAR de Frossos, a propósito do Dia Mundial do Ambiente, o edil explicou que o “projeto está pronto”, sendo que o valor estimado do investimento ronda os 20 milhões de euros.

“No quadro da reprogramação dos fundos comunitários, esperamos que a nova ETAR seja contemplada para podermos avançar com este projeto que é absolutamente fundamental para o concelho”, explicou Ricardo Rio.

Quanto à ETAR de Frossos, que afeta diretamente a ribeira de Panóias, que desagua no Cávado, a infraestrutura foi alvo de um investimento de 1,3 milhões de euros, numa intervenção que teve como objetivo a redução do impacto ambiental da estrutura.

“Esta ETAR tem erros de conceção e de montagem originais que temos vindo a corrigir paulatinamente, mas que não são totalmente elimináveis. Ainda assim, fizemos um progresso face às condições de impacto na envolvente para mitigar as consequências para a população”, apontou o autarca.

A intervenção implicou a cobertura das estruturas de tratamento, a criação de novas formas de arejamento e outras intevençoes que tiveram como objetivo “tornar mais rápido e eficiente o processo de tratamento das águas residuais”.

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Jornalista