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“Disparar tiros contra os pneus só resulta nos filmes”

“Disparar tiros para os pneus ou para o bloco do motor pára um carro”. “Abrigar atrás da porta lateral protege das balas”. “Disparar um tiro para o ar em forma de advertência não faz mal a ninguém”. Estes são apenas três dos vários mitos difundidos durante as últimas décadas pela criação cinematográfica que influencia a população sobre o modo de abordagem de disparos contra viaturas. O problema é que essa mesma influência se abate sobre polícias que se alistam na força e, até terem uma situação em contexto real, grande parte assimila que é mesmo assim que funciona, como nos filmes.

A solução para desmistificar estas situações foi apresentada pela Polícia Judiciária (PJ) no início deste século, e, desde há uns anos, é em Cabanelas onde esses mesmos mitos vão caindo, um por um, e ficam registados em estudos que já influenciaram mudança de diretrizes em várias forças policias, inclusive no próprio FBI.

Formação de balística em Cabanelas (c) FAS / Semanário V

Em Cabanelas, a última semana foi de um intenso período de treino de balística por parte de diversas forças policiais que se deslocaram ao complexo de tiro de Cabanelas para receber formação que acabe de vez com estes mitos para os agentes e militares das autoridades.

A cargo da Diretoria do Norte da PJ e da Escola de Polícia Judiciária, que têm, desde 2001, levado a cabo esta formação na área da balística de efeito na perspetiva de disparos contra automóveis, a formação incluiu desde inspetores da própria PJ, agentes da PSP, do SEF e da Polícia Marítima, militares da GNR e, a grande novidade deste ano, magistrados judiciais e do Ministério Público.

Segundo explicou Vítor Teixeira, inspetor e responsável pelos serviços de armamento e tiro da diretoria do norte da PJ, a formação foi “ligeiramente adaptada” para os magistrados, uma vez que estes não necessitam da formação para atuação no terreno, mas sim para terem uma prespetiva real daquilo que muitas vezes têm de avaliar no papel.

Vítor Teixeira é inspetor e responsável pelo departamento de armamento e tiro da diretoria do Norte da PJ (c) FAS / Semanário V

Sobre a formação em balística no contexto de disparo contra automóveis, Vítor Teixeira disso ao V que esta formação, iniciada em 2001, surge porque “há muitos mitos em torno das questões dos carros que resultam dos filmes, em que se vê a dar tiros em carros com ricochetes”. “Mas isso são mesmo isso, mitos”, aponta.

“Criamos uma formação para orgãos de polícia criminal e pessoal militar e desde então temos mostrado que disparar para um pneu não tem eficácia nenhuma e é extremamente perigoso, porque pode atingir o condutor ou outras pessoas que até possam estar a passar na rua, pode fazer ricohete na jante ou no chão”, vinca. “Pensam sempre que os tiros para os pneus resulta mas não”.

Em contexto real, com recurso a vários carros estacionados e prontos a “levar bala” no complexo de tiro, foi provado que o tiro para o pneu não imobiliza o carro no imediato. A bala perfura mas fica um buraco, e não um rasgo, fazendo com que o pneu demore bastante tempo a esvaziar. Nesse mesmo treino, Vítor demonstrou que com recurso a uma ferramenta específica, depois do carro imobilizado, pode-se sim furar o pneu num único golpe, para depois partir o vidro, caso as portas estejam trancadas, abrir a porta e imobilizar o suspeito.

Disparar de dentro de um carro pelo vidro da frente, só com escudo (c) FAS / Semanário V

“Outro dos mitos por entre os polícias é que os tiros contra o bloco do motor alegadamente param o carro. Podemos disparar várias vezes que dá para a pessoa fugir. Não é que não pare, mas só vai parar muitos quilómetros depois”, refere o responsável, nomeando mais mitos “que só resultam nos filmes”.

“Outro é ver os tipos de calibres que conseguem furar as portas. Vê-se no filme o sujeito a abrigar-se atrás do carro, mas é o mesmo que estar atrás de uma chapa porque apanha com os tiros na mesma”, explica. “Não resulta”.

Vítor Teixeira deu ainda um exemplo de um inspetor da PJ, presente na sessão de formação, que disparou um tiro de advertência para o ar, sendo que a bala acabou por cair em cima de uma viatura, a mais de um quilómetro de distância, provocando danos que, segundo o próprio, poderiam ser fatais caso atingisse uma pessoa.

Magistrados judiciais e do MP aprendem in loco o que avaliam nos papeis (c) FAS / Semanário V

“Descobrir a verdade”. É esse o trabalho apontado por Vítor Teixeira, em relação às funções da PJ e do Ministério Público. “E muitas vezes está encoberta pelos mitos dos filmes, então filmámos, mostramos, e estamos a fazer um estudo já mais alargado em relação aos projeteis, de forma científica que vai dar origem a uma publicação”, diz.

“Há situações que testamos aqui que iam contra os manuais do FBI. Eles diziam que zona A, B , C e D do carro ofereciam proteção contra tiros e nós desmistificamos isso. Passado uns anos, saí um novo manual do FBI a dizer o que nós testámos, que tinha a ver com os sítios onde um agente se pode esconder atrás de um carro. Dá para esconder, mas é necessário ficar com o bloco completo do motor entre o atirador e a pessoa, e para isso é preciso sorte. Dentro do carro não há hipótese nenhuma. Os carros são latas”, diz.

Treino de baística com recurso a arma ‘longa’ (c) FAS / Semanário V

O trabalho da PJ e do MP é sempre este. Descobrir a verdade

Pela primeira vez, esta formação da PJ foi adaptada para magistrados, para que se apercebam dos efeitos concretos para cada tipo de arma, e foram cerca de 30 que estiveram presentes. “Estão habituados a ver apenas em autos e não no terreno. Assim ficam com a noção e apercebem-se de como funciona. Esta é a primeira vez que é feito. Não é igual à formação dos polícias, falta técnicas de abordagens aos carros, etc”, revela Vítor Teixeira.

“Esta formação começou na terça-feira com testes científicas feitas pela FEUP e estivemos o dia inteiro com isso, procurar descobrir porque acontecem essas coisas. Ao longo da semana tivemos quatro sessões de formação, com 30 pessoas cada uma”.

“Os objetivos da nossa formação, destinada a OPC,s, e polícias tais como a GNR, PJ Militar, Policia Marítima, serviços prisionais etc, o objetivo fundamental é demonstrar ao pessoal que certas práticas são extraordinariamente perigosas e condenáveis, apesar de paradoxalmente fazerem parte da cultura policial, há anos, porque nunca ninguém as contestou”, revela.

“Há aqui coisas em que alguns não acreditam e vão para casa a pensar se fizemos aqui qualquer truque”, finaliza.

Formação de balística em Cabanelas (c) FAS / Semanário V

Complexo de Tiro de Cabanelas é o melhor do país para estas formações

“Vimos para Cabanelas porque de tudo quanto há disponível, não me lembro no país inteiro, tirando o polígono de tiro de Alcochete no contexto das forças armadas, que tenha tanta segurança para este tipo de demonstrações como este. Há outro aqui perto, em Fervença, que também tem boas condições, mas este é, sem dúvida, o ideal. Aqui temos a certeza que nenhum tiro sai para os lados nem para cima, e é precisamente por isso que nós vimos para aqui”, diz o responsável.

José Gonçalves, presidente da Sociedade de Tiro de Braga e dinamizador do complexo em Cabanelas, mostra-se orgulhoso pelos elogios vindos de Vítor Teixeira.

O inspetor da Polícia Judiciária Militar, natural de Braga mas com raízes familiares em Cabanelas, revela que a escolha pelo campo de Cabanelas tem tudo a ver com a altura dos taludes de proteção. “Por lei é obrigatório ter taludes de três metros mínimos. Aqui temos nas laterais mais de 3 metros e o espaldão frontal anda a bater os 6 metros. Daí a preferência porque nos diversos testes que fazemos, o tiro não sai daqui. Impossível o tiro sair aqui, há-de sempre bater nos espaldões e não há carreira de tiro com espaldões tão altos como os nossos”, garante José Gonçalves, que sente também orgulho por desta forma ajudar a dinamizar a freguesia de Cabanelas e o concelho de Vila Verde.

“Esta é uma tentativa de dinamizarmos o complexo de tiro, o concelho de Vila Verde, tudo o que se faz cá na a região. Ainda no mês passado esteve cá o SEF o mês todo a fazer tiro. A prática de tiro é feita aqui. E um elogio vindo dos formadores é sempre um orgulho”, garante.

Para além da formação para polícias, o campo de tiro recebe habitualmente provas e campeonatos de tiro prático, uma modalidade desportiva onde grande parte dos atletas são também polícias.

José Gonçalves revela que este ano o até agora chamado de Open do Minho realiza-se a 14 e 15 de julho, mas este ano com novo nome. “A competição passa a chamar-se Bracara Augusta devido a algum mau funcionamento que aconteceu com a federação de tiro na época passada. Aconselharam-me a mudar o nome e decidimos por este. A verdade é que as inscrições aumentaram bastante em relação a outros anos mas não sei se fruto da mudança de nome”. São 148 atletas que já garantiram a inscrição, vindos em grande número do estrangeiro, especialmente de Espanha, mas também da Rússia, França, Hungria ou Finlândia. Portugueses são cerca de 30%.

Formação de balística em Cabanelas (c) FAS / Semanário V

Foram usadas armas de diferentes calibres para os testes de balística (c) FAS / Semanário V

Formação de balística em Cabanelas (c) FAS / Semanário V

Inspetor prova que até uma arma de calibre baixo fura uma viatura de um lado ao outro (c) FAS / Semanário V

Magistrados judiciais e do MP aprendem in loco o que avaliam nos papeis (c) FAS / Semanário V

Vítor Teixeira é inspetor e responsável pelo departamento de armamento e tiro da diretoria do Norte da PJ (c) FAS / Semanário V

Magistrados judiciais e do MP aprendem in loco o que avaliam nos papeis (c) FAS / Semanário V

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