Mara Alves Opinião

Opinião de Mara Alves. Porque viver é mais do que “existir, ter vida”

Mara Alves
Escrito por Mara Alves

Hoje quero falar da Eutanásia, um tema eternamente fraturante na sociedade portuguesa e também na classe política, que foi votado, na Assembleia da República no passado mês. Por mais que comentadores, políticos, partidos e tantos outros atores façam uma campanha miserável pelo “sim” ou pelo “não”, a verdade é que a eutanásia não pertence a ninguém, a nenhuma verdade total, a nenhum partido, ou a quaisquer ideologias. A saúde é uma temática que está em constante mutação. Desde os avanços tecnológicos, até novas descobertas de fármacos e tratamentos que podem vir a beneficiar a saúde das pessoas, o sector da saúde é provavelmente um dos maiores empregadores a nível nacional, contribuindo inequivocamente para a qualidade de vida da sociedade em que vivemos.

Atualmente, o foco está voltado para a cura de diversas patologias, principalmente as que são consideradas crónicas (infeções por vírus crónicos, neoplasias, etc.), para a reversão de alterações/deficiências físicas (paralisias, alterações medulares, etc.) e ainda para a prevenção de novas patologias (desde o rastreio pré-natal, até à administração/descoberta de novas vacinas). No entanto, numa população como a nossa que caminha claramente para o envelhecimento, e consequentemente para o surgimento de co-morbilidades associadas a este processo, o tema do fim de vida por vezes, e infelizmente, tem um papel demasiado secundário.

Duas das temáticas fundamentais relacionadas com este assunto sobre as quais não existe uma reflexão profunda e cuidada são a morte clinicamente assistida e os cuidados paliativos. Nos últimos tempos, têm sido tecidas várias (e por vezes erróneas) considerações sobre o tema da morte clinicamente assistida. No entanto, ainda existe um conceito muito promíscuo sobre o verdadeiro significado e amplitude do procedimento. Com o aumento da incidência e prevalência de neoplasias, patologias neurodegenerativas e patologias que são à partida extremamente limitativas e cujo prognóstico é bastante reservado, (infelizmente) existem cada vez mais pessoas que necessitam de cuidados paliativos.

A implementação de cuidados paliativos a partir do momento do diagnóstico de patologias incuráveis, degenerativas ou com prognóstico reservado, devia ser considerada a regra e não a exceção. Após a realização dos estudos que constam, impera a aplicação dos seus resultados após uma análise cuidada, para que seja desenhada uma estratégia que permita o benefício principalmente do paciente, consequentemente poupando recursos ao estado, que poderão ser reconduzidos para o investimento em cuidados paliativos. Fundamentalmente, pelo direito a uma vida e morte dignas. Ambas estão interligadas e são indissociáveis. Quer seja pela aprovação da morte clinicamente assistida ou pela melhoria da rede de cuidados paliativos e cessação de aplicação de tratamentos fúteis, o que é realmente importante ter em conta é o respeito pela autonomia do paciente, e o respeito pela sua vontade. Porque por muito debilitadas que estas pessoas possam estar, continuam a ser pessoas, continuam a ser seres humanos dotados de consciência.

Por estas razões, enquanto cidadã defendo, tal como no aborto, um referendo nacional, onde todos e cada um se possam pronunciar sobre o assunto. A eutanásia não é, na minha opinião, um assunto fique refém apenas do poder político. É uma ação de consciência, de intenção, de vontade, de emoções até, cuja decisão deverá apenas e só estar nas mãos de cada um de nós. Porque viver é mais do que “existir, ter vida”.

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Mara Alves

Mara Alves

Licenciada em Administração Pública