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Entrevista. Ricardo Cunha: “Neste país, doença e desporto não combinam”

Fernando André Silva

Ricardo Cunha, da freguesia de São Mamede de Escariz, concelho de Vila Verde, venceu quatro medalhas no Campeonato da Europa para Dialisados e Transplantados, que decorreu no mês de junho, em Itália. O Semanário V falou com o atleta que lamenta a falta de apoios e enaltece a sensbilização para com doentes na situação de transplantados que continuam a praticar desporto.

Que balanço faz da prestação individual nos Europeus? E do coletivo? O que traz de lá a nível pessoal e desportivo?

O balanço não podia ser mais positivo. Estou muito orgulhoso da minha participação e também da prestação geral de toda a comitiva portuguesa que conseguiu ao todo, 19 medalhas. Abracei esta oportunidade com muita ilusão e motivação, mas com algum receio natural por ser inexperiente neste tipo de competições. Levei comigo muita expectativa face ao desconhecido e o sonho de trazer pelo menos uma medalha. Tendo conseguido quatro medalhas, três delas a nível individual, ouro e prata nas modalidades de marcha e maratona respetivamente, e bronze em ténis de mesa singular, bem como, a medalha de prata em ténis de mesa pares, não poderia estar mais satisfeito.

Alguma vez acho que iria conseguir trazer quatro medalhas?

Sempre alimentei o sonho de as poder trazer, mas tinha a noção das dificuldades que iria encontrar. Eram centenas de atletas em competição de diferentes nacionalidades. A prática desportiva em Portugal ainda tem muito que crescer e desenvolver, e o desporto e competição em pessoas com doenças cronicas e limitações graves como a minha, não é de todo, e lamentavelmente, uma realidade atual. Ou seja, esperava que os outros países levassem atletas com maior preparação física e apoios e maior capacidade competitiva do que nós, que estamos praticamente sozinhos neste processo. Foi de facto o que aconteceu, mas o meu espírito positivo, ambicioso e determinado fez com que eu desse tudo de mim ao longo da competição e os resultados para mim, não poderiam ser melhores.

Que tipo de apoios recebeu para ir a este campeonato?

Os apoios são praticamente inexistentes quando falamos de uma competição desportiva internacional praticamente desconhecida para a grande maioria das pessoas, tendo em conta de que em Portugal não existe grande tradição de apoio para a maior parte das modalidades desportivas em geral, quanto mais, para aquelas que incluem doentes crónicos. Em primeiro lugar, devo mencionar o Grupo Desportivo de Transplantados, promotor e organizador da nossa participação no evento. Devo mencionar igualmente a APIR, associação que apoiou e motivou os atletas para a participação mas que demonstrou indisponibilidade financeira para o suporte dos atletas em competição. Todas as despesas de suporte ficaram por conta dos atletas, o que para mim, implicou um encargo importante. Fui assim motivado por familiares e amigos para conseguir patrocínios e daí começou toda esta exposição mediática na comunicação social e nas redes sociais, nas quais divulguei a minha participação nos jogos europeus e simultaneamente expus, como nunca o havia feito anteriormente, a minha história de vida. Valeu muito a pena pela resposta das pessoas, a energia recebida, a motivação, que foi extraordinária. Aproveito para agradecer as ofertas que individualmente me efetuaram, contaram muito para mim. Não foram conseguidos patrocinadores ou apoios importantes, mas admito que o curto espaço de tempo entre a divulgação do evento e realização de propostas, foi insuficiente. Louvo, no entanto, e sou imensamente grato pela adesão da comunidade em geral à minha participação e à minha causa.

Recebeu dois votos de louvor das autarquias. Está satisfeito com o acompanhamento mediático e institucional?

Quando não se espera nada, tudo é positivo. Estiveram sempre presentes a apoiaram-me, a minha família e amigos, mas confesso que fiquei muito surpreendido e feliz com toda a rede de apoio gerada em torno da minha participação e com toda a energia positiva, motivacional e elogios recebidos, por parte da comunidade em geral e inclusivamente de pessoas desconhecidas para mim. Tem sido incrível o apoio das pessoas e isso é o que realmente importa. Os doentes renais crónicos são no geral, pessoas com um sofrimento enorme, com importantes limitações para uma participação social ativa, e tendem por norma ao isolamento e depressão. Nunca esperei alcançar mediatismo, até porque levei muito tempo a aceitar a minha própria doença, quanto mais divulgá-la ou obter algum tipo de aproveitamento da mesma. Fico muito feliz pelos votos de louvor, mas nunca foram objetivo, apenas espero alcançar a sensibilização da comunidade em geral para a causa dos doentes como eu, que lutam diariamente por melhores condições e qualidade de vida.

Acha que se olha demasiado para o Futebol e esquece-se outros campeões praticantes de outros desportos?

Obviamente que sim. Sou adepto de futebol e vibro como quase todos os portugueses com esta modalidade, mas reconheço que o investimento nas outras modalidades é muito inferior, prejudicando e limitando o seu crescimento. É urgente mudar esta mentalidade para que o desporto em geral possa crescer neste pais. É muito triste verificar a desvalorização dos resultados alcançados pelos atletas portugueses em competições internacionais nas diferentes modalidades e a valorização excessiva dos futebolistas. A comunicação social também tem culpa neste processo, pois teriam um importante poder de influência se promovessem uma maior divulgação. Quando falamos de atletas com doenças crónicas que vão participar em competições desportivas, o esquecimento é ainda maior. Neste país, doença e desporto não combinam, são realidades opostas, porque ainda não percebemos que a prática desportiva nas situações de doença em que esteja indicada é um importante fator promotor de saúde, bem estar, auto-estima e qualidade de vida.

Porquê o atletismo e o ténis de mesa?

O atletismo permite-me o contacto com a natureza, onde busco energia e meditação. Faz-me sentir livre e quando estou a praticá-lo esqueço todas as amarras que me aprisionam, nomeadamente a doença. Faz-me sentir forte não só fisicamente, como espiritualmente. O ténis de mesa é um dos meus desportos de lazer favoritos, que pratico desde a adolescência, com amigos, facultador de bons convívios e competições saudáveis.

Como vê a sua situação relativamente à espera por transplante e como tem acompanhado esse processo e também outros que estejam na sua situação? O SNS funcona nesse sentido?

A espera é sempre longa para quem busca incessantemente o tratamento para a sua doença… Confesso que vivo este momento de espera da minha oportunidade de transplante com muita ansiedade, mas refugio-me na pratica desportiva para não ficar completamente obcecado com isso e não deixar de aproveitar devidamente cada dia que Deus me oferece para viver. Só quem passa por esta situação é que pode avaliar um sentimento difícil de exprimir em palavras e difícil de viver. Considero estar a receber o apoio necessário do SNS, e desde já o meu agradecimento para a equipa de Nefrologia do Hospital de S. João que me acompanha desde o diagnóstico com elevada competência e dedicação. Contudo, para quem que está doente e sofre, a realidade é dura e muito cruel.

O que recomenda a quem esteja em situação de transplantado ou dialisado e que queira continuar a ter uma vida ativa?

A única recomendação que posso dar é que não permitam que a doença, que é tão limitadora e dolorosa, vos retire a vontade de continuar a viver e aproveitar a vida. Não se isolem, procurem associações que possam dar apoio, e permitam o contacto com pessoas em situação idêntica e a partilha de experiências. Aprendemos muito a viver com a experiências dos outros. Reforcem sempre os laços de carinho e amor com a família e amigos que são, sem duvida, o maior suporte e a maior condição para que possamos seguir em frente, e por ultimo, se a condição física o permitir pratiquem desporto para desafiarem o vosso corpo e os vossos limites de força e resistência e vão ver que são muito mais fortes e capazes do que aquilo que imaginam.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista