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Filipe Pinto: “Só somos capa de jornal quando morre alguém”

Fernando André Silva

Não nasceu no Brasil mas desde criança que é conhecido como o “menino do rio”. Filipe Pinto, 39 anos, é um dos nadadores-salvadores da Praia Fluvial do Faial, na Vila de Prado, onde é bastante acarinhado e conhecido por entre os frequentadores daquela praia.

Nascido e criado na Vila de Prado, desde cedo aprendeu o valor de uma vida, quando, ainda criança, em conjunto com cinco amigos, salvou um grupo de quatro adultos que seguiam num barco de borracha que virou, não sabendo nenhum deles nadar.

É com um sorriso na boca e emoção nas palavras que Filipe Pinto recorda esses tempos de criança, onde passava os quatro meses de verão no rio, como era chamada pelos locais a atual praia pradense. Com outros seis irmãos, ajudava a mãe, que vendia batatas fritas e cerveja na praia, começando desde logo a perceber a importância daquele lugar para a economia da, na altura, ainda aldeia de Prado.

Enquanto se divertia nos meses de verão junto ao rio, Filipe foi seguindo os estudos até começar a jogar futebol no SC Braga, onde apresentou qualidades para chegar à II Liga de futebol, tendo exercido essa atividade profissional nas últimas duas décadas.

Apesar de ainda não ter pendurado as chuteiras (é capitão do Saopaiense), Filipe Pinto, desde há dois anos, dedica-se à atividade de nadador-salvador na Vila de Prado, onde faz de tudo um pouco.

“A profissão de nadador-salvador nem sempre é muito reconhecida. Geralmente só somos capa de jornal quando morre alguém, porque quando salvámos ninguém quer saber. Bate-se umas palmas no momento e depois cai em esquecimento”, desabafa Filipe, dizendo que a profissão tornada famosa pela série televisiva “Marés Vivas”, é muito mais que salvar vidas.

“Uma das preocupações que eu tenho, e isso vai de mim porque não nos ensinam no curso, é saber se está tudo bem com as pessoas, ter atenção ao tempo que estão expostos ao sol, perceber o tempo que passam na água, entre tantos outros pormenores”, revela o salvador, enquanto é chamado por uma veraneante que se cortou num pé.

E, de estojo de primeiros socorros na mão, lá foi Filipe fazer o curativo. “Sim, cortes, arranhões, insolações, tudo o que não for muito grave e seja passível de resolver com o estojo de primeiros socorros, eu trato da assistência”, confessa. Mas não é só isso que Filipe faz.

Em tempos mais “mortos”, quando, por exemplo, o sol não espreita ou até a chuva faz uma visita, Filipe Pinto dedica-se a pequenos arranjos para melhor as condições daquela praia, como é o caso da colocação de uma rede no campo de voleibol para evitar que as bolas passem para o parque infantil ou até pinturas de alguns muros que estão degradados.

Outra das atividades às quais Filipe não foge é a resolução de conflitos naquela praia. E não são poucos. Inclusive, já teve de expulsar duas utentes da praia por estarem a praticar atos sexuais em frente de crianças. “Essa história é complicada mas tive mesmo de chamar a GNR porque elas estavam a incomodar as crianças e outras pessoas”; conta, revelando no entanto que “o mesmo casal voltou e agora porta-se em condições”.

Outra das situações mais complicadas pelo qual Filipe passou foi já nesta época balnear e envolveu um caso de racismo. Um dos veraneantes, alterado, não gostou de ver um homem africano estender a toalha ao lado, na praia, e terá proferido insultos racistas ao homem, que não se ficou.

“Gerou-se ali um zumzum e as pessoas estavam todas a tomar partido pelo senhor que iniciou a contenda. Aquilo, de uma pequena confusão, estava já a tornar-se num ato racista”, conta. A situação acabou por ficar resolvida com bom senso e ponderação de ambas as partes, mas a intervenção de Filipe foi primordial para que não tivesse um desfecho pior. É que Filipe não é fã de injustiças, como o próprio diz, ou não tivesse vivido na pele alguma discriminação no mundo dos futebolistas.

“Se tivesse mais dinheiro podia ter chegado mais longe na carreira de jogador de futebol”, desabafa o pradense que, apesar da “humildade” da família, não guarda qualquer mágoa desses tempos.

“A minha família ajudou-me no que foi possível. Quando entrei para o SC Braga, lembro-me que o primeiro treino, fui de autocarro, mas estava a chover e era de noite, então quando cheguei a Braga entrei logo noutro autocarro para voltar para Prado”, confessa, revelando que depois, “não falhava um treino”. “Muitas vezes tinha de vir a pé para Prado porque não tinha dinheiro para o autocarro. Mas isso já lá vai”, adianta Filipe, que chegou a ser internacional pelas seleções jovens de Portugal. “Joguei com o Hugo Viana, com o Simão Sabrosa, com essa geração”, conta.

Apesar de não ter seguido a carreira de jogador profissional, Filipe atuou em vários clubes como semi-profissional, algo que lhe foi dando “para viver”. Chegou mesmo a atuar na II Liga, ao serviço do Felgueiras e do União de Lamas, para além de ter sido um dos co-fundadores do Académico Clube de Prado, equipa de futebol de sete.

Dinamizador de várias atividades na vila, é mesmo na praia (ou no rio) onde Filipe surge com várias iniciativas. Uma delas foi a junção de gerações, idosos e crianças, em atividades lúdicas gratuitas durante um dia no Faial. “A ideia surgiu o ano passado, numa altura em que a praia estava a ser vista pela negativa devido às salmonellas. Era salmonella para aqui, salmonella para ali. Chegou a um ponto que já chamava salmonella à minha mulher quando chegava a casa”, conta, entre risos.

“Este ano vamos ter outra vez a iniciativa de juntar as gerações de Prado num único dia. Vamos ter uma série de atividades para os mais pequenos e outras para os mais velhos, e até criar uma sinergia entre ambos”, aponta, dizendo que “isto não tem nada a ver com política”.

Aliás, política, é algo de que Filipe Pinto “foge”. “Não gosto, acho que se tentam aproveitar de tudo para ganhar votos. Os políticos para mim são como os gelados. Abro um, se gostar, vai, se não gostar, não vai”, finaliza.

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Jornalista