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De Vila Verde para Manila. Rafael vai ser o único padre português nas Filipinas

Pe. Rafael Costa Gomes (c) Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Da aldeia de Covas, em Vila Verde até Manila, capital das Filipinas, são 12.089 km de distância. Este é o percurso que o padre Rafael Costa Gomes vai fazer no primeiro dia de agosto, quando parte em missão para aquele país onde deverá ficar até “ao fim da vida”.

Nascido em Covas, há 27 anos, o vila-verdense prepara-se para a aventura de uma vida, ao serviço da Congregação dos Missionários do Verbo Divino, instituição religiosa que o formou, rumo a um destino com 80.000 milhões de católicos numa viagem que está já marcada há coisa de dois anos, depois de feitos os “votos perpétuos” na congregação.

“Deram-nos três destinos para escolhermos e confesso que nunca pensei que me fosse sair as Filipinas, não era a primeira escolha”, começa por dizer o padre Rafael, apontando a “Sibéria” como destino de eleição. “Sempre gostei do frio mas acho que será este o mais apropriado para mim”, disse ao Semanário V, explicando que os padres desta congregação, fundada em 1875, têm uma missão diferente da que habitualmente associamos à dos padres.

“Aqui estamos habituados a ter padres paroquiais, a ficarem por aqui, mas a minha missão é diferente. É um pouco como os padres missionários de antigamente, que iam em naus, mas neste caso não é para evangelizar”, refere, entre risos. “A minha ida será mais dar uma espécie de rosto internacional da missão”, diz, abrindo um pouco a escotilha para ver o que espera naquele país.

Pe. Rafael Costa Gomes (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“É um país com uma fé imensa e verdadeira. A missionação espanhola, naquele país, foi de um pouco de radicalidade, mas nós parece que fomos mais suaves no trato com os filipinos. É dos países mais católicos do mundo, mas é verdade que estão a nascer movimentos radicais num contexto politicamente desafiante, mas que acaba até por ser interessante. As pessoas a nível de fé, só para dar exemplo, as missas de Natal começam logo às 3h da manhã. Não vou para evangelizar, no sentido antigo da palavra, como um descobridor de uma nova terra, mas sim para mostrar que a igreja não é só europeia”, conta, dizendo que, ao contrário da “piedade popular” de que vive a fé portuguesa, lá é uma fé diferente e mais desafiante.

Sobre as manifestações de fé nas Filipinas, como as crucificações, Rafael espera que não seja a realidade quase turística, como nas procissões da ‘burrinha’ de Braga. “Acredito que vá ver uma manifestação muito grande de fé e de confiança total em Deus. Deus não quer o sofrimento humano. Nós é que mostrámos a nossa fé em Deus através do sacrificio que apresentamos”.

O único padre português nas Filipinas

À conversa com a embaixatriz das Filipinas em Portugal, o padre Rafael soube que vai ser o único padre português naquele país, depois de um padre, de Santarém, ter anunciado recentemente que vai regressar a Portugal. “Esta ida, sairmos do nosso contexto, deixar família, amigos, tudo para trás, também nos obriga a muita humildade. É bom experimentarmos isso, pelo menos uma vez na vida. Claro que tenho uma estrutura que me vai receber, vou ficar num seminário em Manila, ficar ali uns dias, mas provavelmente vou para outra cidade para aprender a língua local, embora se fale inglês. É uma nova realidade”.

“O que vou fazer não sei. Sei que inicialmente abriu um projeto para eu ficar formalmente num cargo numa universidade, já que o meu diploma seria superior ao comum de lá, mas não aceitei, acho que não fazia sentido, muito menos no primeiro ano. Na prática, o que vou querer pedir é trabalho concreto. Sempre gostei de trabalho paroquial, pela proximidade com as pessoas, pelo encontro com realidades diferentes de mim, que me desafiem a pensar, para mim, para os outros, e com os outros”, conta Rafael, dizendo que já pertence às Filipinas.

Pe. Rafael Costa Gomes (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“Eu vou para lá como membro do Verbo Divino. Eu já pertenço às Filipinas. É o destino que me deram há dois anos. Nestes processos de destino missionário, fazemos os votos perpétuos. No fim de três anos com votos temporários, podemos abandonar e não há nenhum processo canónico. A partir do momento em que fazemos os votos perpétuos o nosso destino fica traçado. Nada nos é imposto, porque não vale a pena estar a impor um destino se quem para lá vai não estiver convencido. Esta escolha é minha”, vinca.

Três padres católicos assassinados nas Filipinas nos últimos seis meses

Já foram assassinados 18 sacerdotes católicos durante a ano de 2018 em todo o Mundo. Três deles foram nas Filipinas. O último ocorreu no dia de Portugal, a 10 de junho, na diocese de Cabanatuan, quando pelo menos três tiros foram disparados pela janela de uma pequena igreja na província de Nueva Ecija, no norte do arquipélago. A missa dominical estava prestes a começar, celebrada pelo padre Richmnond Nilo, pároco da igreja de San Vicente Ferrer em Saragoça [Filipinas]. Com 43 anos, o ministro de Deus morreu no local. Os assassinos fugiram imediatamente.

Destino idêntico tiveram Mark Anthony Yuaga Ventura, 37 anos, em abril, e Marcelito Páez, em dezembro passado. Apenas quatro dias antes deste último assassinato, o padre Rey Urmeneneta, um ex-capelão, havia sido ferido em uma tentativa de assassinato na cidade de Calamba, ao sul de Manila.

Os Bispos das Filipinas emitiram uma exortação pastoral intitulada “Alegrai-vos e sejam felizes”, dedicado a dar uma visão cristã às “indignidades” sofridas pela “igreja filipina” nos últimos tempos, com o agravamento da violência no país e as recentes declarações do próprio presidente da nação, Rodrigo Duterte, que diz demitir-se caso alguém consiga provar a existência de Deus.  Segundo a  Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris, as Filipinas têm 85 milhões de católicos, ou seja, 80% da população.

Pe. Rafael Costa Gomes (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Rafael Costa Gomes sabe das estatísticas e da instabilidade naquele país e, embora a violência ainda não tinha atingido diretamente a congregação do Verbo Divino [diferente das dioceses paroquiais onde tem ocorrido a violência] diz que a experiência  “tanto pode correr bem como pode correr mal”. “Posso dizer que não, isto não é para mim, e regresso. Ou tento fazer o esforço e entrar na lógica de que vou, não para ser eu, mas para fazer com que a minha cultura seja uma mais-valia naquela cultura”, conta, revelando um importante ensinamento que aprendeu em Lisboa com um filipino.

“Trabalhei com Filipinos nos EUA e em Lisboa. O padre capelão em Lisboa, que é filipino, disse-me ‘vai para lá à espera do pior. Porque do pior para cima, tudo é melhor’. Pomos muitas expetativas para onde vamos e acabamos por viver tão iludidos que quando chegamos é uma desilusão constante, que pode chegar a depressão. Não penso muito nisso”.

Ajudar o Papa a rezar por quem reza

Rafael Costa Gomes foi notícia a nível nacional em maio de 2017, depois de ter sido assistente na missa que o Papa Francisco celebrou no Santuário de Fátima, que serviu também como processo de canonização de Francisco e Jacinta. Diácono na altura, Rafael foi responsável pelo ofertório, e, ao V, diz que aprendeu uma valiosa lição que pretende que o acompanhe até ao fim da vida.

“O que nos disseram antes dessa Eucaristia, foi que, como diáconos, a nossa maior função é ajudar o santo padre a rezar para que o santo padre, ao rezar, ajude as pessoas que estão na praça a rezar”, conta Rafael, explicando que “isto foi uma novidade que me entrou já depois de toda a teologia que estudei”.

“Acho que este ensinamento atinge muito a necessidade dos dias de hoje. Quando vamos à missa e há aquela sensação que é tudo um corridinho, tudo tão matemático, tudo tão calculado. Aquilo de nos dizerem que a função é ajudar o Papa a rezar pelas pessoas, foi uma lufada de ar fresco. Isso, sem dúvida alguma, é algo que vou levar comigo para as Filipinas. O sentido é esse. Não vale a pena seguir ritualismos”, vaticina.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista