Braga Destaque

Pe. Rafael Gomes: “Pagar para entrar na Sé de Braga é um insulto”

Pe. Rafael Costa Gomes (c) Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Antes de partir em missão para as Filipinas, o padre Rafael Costa Gomes, natural de Vila Verde e que pertence à congregação dos Missionários do Verbo Divino, traçou um pouco do perfil atual da realidade religiosa de Braga, do ponto de vista de alguém que estudou em Lisboa e praticou a liturgia em Fátima, e que nunca pertenceu à Arquidiocese de Braga.

Contra ritualismos sem sentido ou manifestações de fé deixadas pela Igreja Católica a “pessoas de fora da igreja”, o padre é ríspido, dizendo que a riqueza devocionária e de fé desta região está a ser “descuidada” e, sobretudo, “desprezada” conforme a cidade de Braga evolui.

“Temos tanto potencial de fé pura com tanta tradição religiosa mas queremos modernizar tanto que isto, em pouco tempo, vai ficar mais uma metrópole e zona rural tornada num dormitório, como em Lisboa”, diz, pegando no exemplo da Semana Santa de Braga para explicar a diferença entre a chamada “fé devocional” muito cataterística do Minho e o “turismo religioso” que se tem vindo a implementar na região.

“Eu sei que são irmandades, grupos de pessoas de fora do contexto da igreja, mas a procissão da ‘burrinha’, por exemplo ela não mostra a realidade da fé do nosso povo do Norte. Lembro-me quando vinha na autoestrada via ‘Grandiosas Procissões de Braga’ nuns cartazes publicitários e questionava-me: ‘no meio disto onde fica Nosso Senhor?’. Se calhar isto é apenas mais um espetáculo”, alarma.

Rafael deixa ainda críticas à modernização do chamado “turismo religioso”, dando o exemplo do dia em que trouxe alguns amigos de Lisboa para uma visita a Braga e acabou por ter uma experiência negativa à entrada da Sé, quando lhes foi cobrado dinheiro para entrar.

“Lembro-me de querer mostrar a Sé, mãe das igrejas, mas quando cheguei, o porteiro não nos deixou entrar sem pagar. Eu achei aquilo um insulto. Não por eu ser padre, mas por ser simplesmente de Braga e sentir que não posso entrar na mãe das igrejas de Braga. Esta que é a Sé Catedral, obrigar um devoto a pagar para entrar?”, lamenta, deixando um “este é um abuso dos mais reles que há”.

“Não sei quem está por detrás da cobrança, mas esse é o grande problema da igreja do Norte. Eu conheço-te, tu podes entrar. Não te conheço, tu não entras. Fazemos da igreja um templo de comércio, como no tempo de Jesus, em que Jesus entra no templo e devasta os vendilhões do templo. A casa de Deus que seja um lugar de encontro com Deus, mas se preciso de pagar para isso, é claro que depois vem toda uma ideologia utópica que é melhor encontrar com Deus em casa. Deus está em todo o lado, mas é fundamental estar à frente do santíssimo, estar num espaço recolhido onde possa rezar”, aponta, revelando outro episódio.

“Nessa mesma altura, andava em Braga uma espécie de teatro ambulante em que andavam os figurinos por toda a cidade. Fomos à igreja ao lado da Sé, atrás dos claustros, que até costuma estar fechada, e eles estavam a ter dentro da igreja um espetáculo de teatro, de sátira contra a própria igreja. Fiquei muito revoltado ao ver aquilo. Obrigamos os fiéis a pagar para entrar na igreja, mas para que os entendidos das artes possam fazer sátira da igreja, têm as portas abertas para usar espaço litúrgico. Que autoridade estamos a dar? É necessário ter muito cuidado com que se fazem as coisas. Nós somos os grandes causadores desta destruição de fé das pessoas”, vinca.

Sobre as manifestações de fé, tais como as crucificações, nas Filipinas, para onde vai no próximo dia 1 de agosto, Rafael não crê que seja uma realidade desvirtuada como em Braga, comparando-a às peregrinações de joelhos em Fátima.

“Acredito que vá ver uma manifestação genuína de fé e confiança total em Deus. Ele não quer o sofrimento humano, nós é que mostrámos a nossa fé através do sacrifício que apresentamos”.

Saiba mais sobre a ida de Rafael Costa Gomes para as Filipinas

Comentários

Acerca do autor

Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista