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Arte. Visitámos a Bienal de Vila Verde com o Maciel Cardeira

Maciel Cardeira ao lado da obra "Passadeira Vermelha" de José Pedro Trindade (c) FAS / Semanário V
Fernando André Silva

“Isto aqui até eu fazia”. É o que ecoa na mente dos artistas e de todo o público que se depara com uma das obras patentes este ano na X Bienal Internacional de Arte Jovem de Vila Verde. – A passadeira vermelha, longa, dobrada “à Zorro”, sinónimo das mais importantes “red carpets”, pendurada numa das paredes brancas que enquadra a exposição.

“Isto é uma passadeira vermelha de um passeio em calçada do Porto”, atira, feliz, Maciel Cardeira, presidente da associação da região de Braga ligada às artes “D’arte” A obra de João Pedro Trindade, de Aveiro, até nem foi a vencedora desta exposição, que está patente até dia 28 de julho na Biblioteca Prof. Machado Vilela. Mas Cardeira não tem dúvidas sobre a importância desta obra para demonstrar a potencialidade e utilidade de uma mostra destas na busca de novas ideias para conceitos.

Grampo feito de cera (c) FAS / Semanário V

Encontrámos Maciel no hall de entrada do Salão Nobre da Biblioteca, que alberga parte da exposição que, em 1997, ano de estreia, deu a conhecer ao mundo o próprio artista natural de Vila Verde. “Há uma probabilidade enorme de várias figuras internacionais já terem passado por cima dela como o Cristiano Ronaldo ou assim. Escreve isso que vem logo tudo ver a exposição”, atira o sempre sarcástico artista plástico.

Antes de nos guiar pelas galerias, como combinado, Maciel apontou o percurso destes 21 anos de Bienal em Vila Verde como “histórico”. “Mesmo passando pela crise, foi histórico. Na primeira década houve muita escultura de grandes dimensões, depois veio a crise. Os jovens não enviavam trabalhos. Depois foi a fase da instalação de vídeo, porque a própria arte vai evoluindo. Mais recentemente esta mostra tem sido mais dedicada ao conceito, acompanhando tendências internacionais”, conta, enquanto nos guia de volta à “passadeira”, aquela que “até eu fazia”, mas que na realidade, não será bem assim Até porque a arte, como explica Maciel, tem regras.

Maciel Cardeira ao lado da obra “Passadeira Vermelha” de José Pedro Trindade (c) FAS / Semanário V

“Isto pode parecer uma obra de um autodidata qualquer, que viu a passadeira na rua e percebeu que, por pessoas a pisarem constantemente, deixava uma textura das marcas da calçada. Mas não. É importante salvaguardar que a arte tem regras. Tens uma impressão da calçada e tudo o que lá passou, a história da rua e das pessoas que por lá passaram, porque é que passaram, para onde iam, o que iam fazer…. Até nesta cor ocre (limão), em termos artísticos, está tudo aqui. A disposição da peça. O vermelho com o amarelo. A própria mancha, a rugosidade e a textura. Existem várias disciplinas dentro de arte e este responde a todas. Isto é quando um artista consegue aquilo a que gostámos de chamar como uma obra-prima com quatro marteladas numa pedra. É uma ideia genial, é nova e estava mesmo debaixo dos nossos olhos”.

Reciclar litro e meio de tinta… E já agora, a lata também!

“Esta obra, do Castro, mostra a velha máxima de que na natureza nada se perde, tudo se transforma. Ele tirou a tinta desta lata para fazer esta obra. E depois derreteu a lata e fez isto, que também faz parte da obra. O título é ‘litro e meio de tinta’. Não tinha visto nada disto em lado nenhum. A arte acontece e faz o mundo avançar. Este tipo de reciclagem pode ser utilizada por qualquer grande empresa de fast-food em relação aos copos, por exemplo”.

“Litro e meio de tinta” por Castro (c) FAS / Semanário V

Maciel não tem dúvidas quanto ao grande objetivo da arte e destas obras em exposição. “Isto tudo faz-nos pensar. E é isso que deve ser a arte”, diz, enquanto mostra uma obra de joelharia. “Aqui temos um novo conceito que é o código morse passado para joelharia. É daquelas coisas que são fantásticas e que estava debaixo dos olhos de toda a gente. O Código Morse vem antes da primeira guerra mundial, tem um conceito histórico importante e que deve ser preservado. E a arte também serve para repensar. A arte é sentimento. O que nos faz pensar. Aquilo que nos faz questionar, que nos inquieta”, diz, recordando que “destas bienais podem surgir obras geniais”.

Jóias em formato “código morse” (c) FAS / Semanário V

“Acima de tudo, as obras dos últimos anos são extremamente conceptuais. A obra faz-nos sempre pensar. E é isso que deve ser. Este grampo é em cera. E é um grampo, sempre associado a aço e madeira forte. Isto é a fragilidade da força do grampo de uma forma antagónica. É banal, mas dá que pensar”.

Uma sociedade que consiga ver o que agora não vê

Maciel Cardeira concorda que há um desinteresse massificado pela arte. “Acho que o problema é sermos todos comuns mortais”, diz. “Andamos todos atrás do Bruno de Carvalho e ninguém se preocupa com estar a pagar logo ao Estado ao acordar. Se essa inquietude existisse, as pessoas preocupavam-se e seríamos uma sociedade mais sensível e que via o que agora não se vê. E isso prepararia as pessoas para entenderem estes conceitos. Seria uma sociedade mais diversificada, mas assim somos de massas. Também é importante perceber a parte técnica e isso traz outro encanto. Voltando à passadeira, se estiveres dentro do mundo da arte, consegues ver uma palete artística de cores que nem imaginavas que existia numa simples passadeira”.

“Coisas que guardamos em casa”

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista