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“Maria da Gaia”. A lenda minhota do contrabando abre o livro da vida

Fernando André Silva

Maria Rosa Araújo Cerqueira, 81 anos, é uma das maiores lendas do contrabando da região minhota no tempo do fascismo e, pela primeira vez, conta publicamente as histórias de uma vida “muito dura” em exclusivo ao Semanário V

Natural de Aboim da Nóbrega, concelho de Vila Verde, viveu em Mixões da Serra até emigrar para Espanha, nos anos 50, onde foi servente de um padre e plantou eucaliptos. Das visitas a Portugal, feitas a pé, memorizou os caminhos pelas serras, que lhe valeram já depois do regresso à terra de origem um novo emprego. Contrabandista.

Maria Cerqueira (c) FAS / Semanário V

“Ninguém sabe pelo que passei!”. Maria Cerqueira é imperativa ao relembrar o sofrimento das quase dez horas de viagem pelas serras, entre Mixões da Serra e a cidade de Torneiros, em Ourense, num percurso de quase 50 quilómetros de distância, percurso esse feito mais de uma centena de vezes ao longo das cerca de 60 viagens que Maria fez ao longo de quase uma década, numa altura em que Oliveira Salazar começava a dar sinais de debilidade e o regime franquista ia caminhando para um final sossegado.

Conhecida como “Maria da Gaia”, emigrou sozinha para Espanha, ainda na década de 50, deixando para trás a mãe e um filho. O pai do filho, conta, “veio atrás de mim mas não teve sorte”. “Estive lá cinco anos em Espanha. Primeiro fui servir na casa de um padre, em Ponte Pedrinho [Ourense]. Estive lá algum tempo mas um dia decidi levar a minha mãe e o meu filho, que tinham ficado em Mixões da Serra, e pedi algumas pesetas ao padre para vir a Portugal buscá-los. Troquei as pesetas por comida lá numa venda e fiz-me à viagem, sozinha, pelas serras. Trouxe-os comigo para Espanha e quando chegámos tinha dois polícias à porta da casa do padre que me acusou de roubar dinheiro a mais do que aquele que me tinha dado”, conta Maria Cerqueira.

“Eu disse aos polícias que só levei o dinheiro que ele me deu e ainda disse que o padre tinha era de me pagar mais por tudo aquilo que fiz. Nunca roubei nada a ninguém, andei em tantas terras mas nunca ninguém veio atrás da ‘Maria da Gaia’ a dizer que ela deve dinheiro”, conta.

Torneiros era sede de contrabando em Ourense c) DR

Indignada, a mulher disse aos polícias que não ia admitir um roubo que não fez, só para não ir presa, e eles acabaram por ir embora. “Ainda fiquei uns dias na casa do padre, porque tinha acabado de chegar com o menino e com a minha mãe, mas depressa pus-me a caminho”, conta.

Com 25 anos, saiu da alçada do pároco, que “tinha outra criada que era mais uma amiga que outra coisa” e foi para a cidade espanhola de Torneiros, sede do contrabando para a região Norte de Portugal.

“Encontrei lá um compadre meu que estava lá a trabalhar. Ele disse-me para eu não voltar para Portugal, para ficar lá com eles que me arranjava trabalho. Arranjou-me uma casa, ao pé do sítio onde se comprava contrabando. Fiquei lá a trabalhar numa plantação de eucaliptos no monte. Naquela altura ainda não fazia contrabando mas aquilo intrigava-me. A minha mãe ficava com o menino e eu trabalhava na plantação”, diz, revelando que acabou por regressar a Portugal a pedido de “uma cunhada”, isto no início dos anos 60.

“Acabei por voltar para Santo António de Mixões da Serra mas a minha comadre acabou por ir para os Estados Unidos e ficamos outra vez ali, naquela desgraça. Entretanto, à vinda de Espanha, tive outro filho do mesmo homem, mas não fiquei com ele [com o homem] e precisava de dinheiro. Comecei a pensar que já sabia bem o caminho pelo Lindoso, em Santa Madalena, e também outro trilho diferente por Vilarinho das Furnas. e decidi começar a ir lá buscar contrabando para Portugal”, refere.

“Eu já sabia tão bem o caminho para ir e vir e comecei a ir a pé até à zona do contrabando, metia por Santa Madalena, no Lindoso, outras vezes trocava as voltas aos “carabineiros” e ia por Vilarinho das Furnas. Conhecia bem aqueles caminhos. Ainda hoje conheço. Ia pelo monte fora, não havia casas”, conta, revelando que foi uma decisão autónoma.

As duas rotas de Maria Cerqueira c) Google

“Decidi sozinha. Geria a minha vida sozinha. Eu não lidava muito com o pai dos meus dois primeiros filhos, ainda estive junto com ele, mas não dava certo. A primeira vez meti-me à serra, levava as pesetas que eu ainda tinha de lá, para comprar e trazia tecido, pás das enxadas e umas calças de pano que os homens gostavam muito de usar e que aqui não havia”, esclarece.

As pás de enxada, Maria trazia escondida na roupa, “uma à frente e outra atrás”. Já o tecido, era “enrodilhado” pela própria mulher que o vendia, lá em Torneiros, à volta do corpo. “Trazia o tecido enrodilhado à volta de mim, a mulher que vendia o contrabando vestia-me à maneira, eu era magrinha e ficava três vezes mais espaçosa depois com a roupa a tapar o contrabando”, conta Maria, que, embora cautelosa, não evitou alguns encontros com os “carabineiros”, os guardas armados, como chamava a população à guarda fiscal que tentava parar contrabando entre os dois países.

“Eu vinha, encontrava os carabineiros e eles diziam que eu estava muito gorda, eu respondia-lhes que daqui a uns dias passava. Iam a por a mão, mas eu não deixava. Dizia para eles não me tocarem que eu armava um escândalo. Tinham que ir a Lindoso buscar outra mulher para me pôr a mão para revistar. Eles como não queriam ter problemas nem dar-se ao trabalho, diziam para eu ir à minha vida. Eles percebiam o que eu queria dizer com o de o ser gorda passar, mas não me diziam nada”, revela. “Tive sorte, acho eu”.

Barragem de Vilarinho das Furnas c) DR

“Fiz umas 60 vezes contrabando, que dá 120 viagens para cada lado, e já trazia por encomenda. Comecei a ser conhecida e então aqui à volta todos me pediam para trazer o que queriam, e lá me metia eu à serra. Nunca tive nenhum susto nem tive medo de nada. Via lobos mas era ao longe. Saia daqui de manhã cedo, com o sol, chegava lá ao escurecer e dormia lá. Vinha de manhã, com o dia, e chegava cá à noite. Eram dois dias nisto. Entrava em Lindoso e chegava a Mixões. O que eu passei. Nunca me aleijei e nunca ninguém me apareceu. Sabe, as pessoas já me conheciam e tinham-me medo. Dizem que eu sou má. Mas foram tempos e viagens tão duras”, conta.

O historiador António Fernando Guimarães, no livro “Para que a memória não se apague”, conta que os carabineiros disparavam sobre os contrabandistas para matar, caso tentassem fugir. Maria sabia que não podia fugir. O mesmo livro fala de um jovem da freguesia de São Lourenço de Cabril qye foi morto pela Guardia Civil em Torneiros, no ano de 1942, com um tiro nas costas.

Nos depoimentos recolhidos, relatam que as autoridades espanholas se limitavam a colocar uma placa em madeira, junto ao corpo, onde se podia ler “morto pela Guardia Civil ou Carabineiros”. Trazer o cadáver para Portugal era impensável, pela burocracia e despesa. Os que eram presos passavam por várias cadeias espanholas, eram muito maltratados e depois entregues às autoridades portuguesas em Chaves.

Uma das rotas de Maria “da Gaia” passava na aldeia de Lindoso

Apesar de tudo, “Maria da Gaia” nunca teve medo. “Medo, eu? Nunca! E fiz sempre os percursos sozinha”, conta, numa altura em que chegavam a ir aos grupos de 70 contrabandistas pela Serra Amarela (e muitos deles eram presos). “Ia discreta pelo caminho e ninguém dava por mim”, conta. A dureza das rotas do percurso pode imaginar-se pelas cotas de altitude do trilho, mas nem isso impedia Maria de chegar ao destino.

“Foram tempos muito dificeis. Hoje, quem olha para mim, não faz ideia daquilo que já passei na vida. E do difícil que era evitar os carabineiros e fazer estes caminhos pela serra. Era muito duro. Mas valeu a pena. Consegui fazer dinheiro para ajudar a minha mãe e o meu filho e endireitar a minha vida”.

Maria deixou o contrabando quando conheceu um “vendeiro” em Mixões da Serra e o começou a ajudar na cozinha. “Depois trabalhei naquilo, ele fazia contrabando de homens para França e eu fazia a comida e ajudava-o”, conta, deixando de vez a vida de contrabandista quando também deixou o “vendeiro”, com quem teve um filho. “Mas isso é outra história”, diz “da Gaia”, encerrando um capítulo.

Maria regressou a Aboim da Nóbrega nos anos 80 onde sempre trabalhou na agricultura e mais recentemente faz trabalhos de fiação de lã para o conhecido tecelão daquela terra, Fernando Rei, cujos trabalhos estiveram este ano em exposição na Feira Internacional de Artesanato, em Lisboa.
Maria não mais voltou ao contrabando. Mas ainda hoje, garante, “conhecia os caminhos”, se a eles voltasse.

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Jornalista