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Entrevistámos a Dra. Henedina Antunes. “Isto não é um trabalho, é uma vocação”

Henedina Antunes - Gastroenterologista Pediátrica do Hospital de Braga
Fernando André Silva

Henedina Antunes, Gastroenterologista Pediátrica do Hospital de Braga, é a primeira médica portuguesa nomeada pela Sociedade Europeia de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (ESPGHAN) como membro do Grupo de Trabalho Sobre Doença Celíaca.

Nascida na Póvoa de Varzim, por na altura lá os pais morarem por motivos profissionais, sempre foi de Maximinos, berço materno. Estudou na escola da Sé, na Escola André Soares e D. Maria II, ingressando depois na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, onde se doutorou. Voltou a Braga no 1.º ano de médica para o internato geral no Hospital de Braga, concorrendo a pediatria onde entrou com a melhor nota a nível nacional. Escolheu Braga.

No estágio de Pediatria, esteve dois anos no Porto, pedindo ao diretor, Dr. Fernando Sá Meneses, o pediatra que fez história em Braga, que queria ir para gastrenterologia mas não para ter uma consultinha, queria ser especialista. numa altura em que ainda não havia sub-especialidade, só em 2005. Estagiou para a epecialidade em Bruxelas, regressando a 1 de novembro de 1996 para abrir a consulta de Gastrenterologia Pediátrica no Hospital de Braga.

Em 2005 foi uma das primeiras sub-especialistas em gastrenterologia pela Ordem dos Médicos (OM). É responsável pela Unidade de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga ou Unidade de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica tal como no estrangeiro já a designam.

Foi nomeada pela ESPGHAN para um grupo de trabalho sobre a doença celíaca sendo a primeira portuguesa. Porquê o interesse em ajudar a consciencializar para esta doença e seu tratamento?
A doença celíaca está sub-diagnosticada em todos os países, no manifesto sobre esta doença difundido a 16 de maio último, estima-se que 80% das crianças celíacas não são diagnosticadas. Existem anticorpos muito eficazes para o diagnóstico de doença, com mais de 95% de sensibilidade e especificidade, que se obtém com uma colheita de sangue, por isso, PENSAR em DOENCA CELÍACA É DIAGNOSTICÁ-LA.

Coordenou um estudo que indica que, em Braga, por cada criança a quem é diagnosticada esta doença, há outra sem diagnóstico. É uma situação grave?
Sempre que um doente que podia ser diagnosticado, não o é, é grave, contudo comparativamente a outros países europeus, e talvez a outras regiões do país, é um bom resultado. Nas últimas 6 semanas confirmei o diagnóstico a 8 celíacos, confesso que penso há mais 8 (mas a estatística não é assim simplista, claro); todos os meios de divulgar a doença ajudam a aproximar-me destes 8 que ainda não o sabem e não podem beneficiar com o diagnóstico. Divulgar a doença e criar maior consciencialização na população é um dos objetivos do working group da ESPGHAN

Como vê a evolução do tratamento desta doença durante os últimos anos em relação aos pacientes de Braga?
Esta doença trata-se excluindo o glúten da dieta e, desde 1996 até agora, há uma maior oferta de alimentos sem glúten, mas há ainda muito a fazer. Queria em Braga espaços exclusivos com comida sem glúten. A nível global um longo caminho tem de ser feito, mas o manifesto da ESPGHAN vem colocar a doença celíaca na agenda política e da sociedade civil, relembrar aos médicos que “na suspeita peça o anticorpo anti-transglutaminase e a IgA total” e se positivo, referenciar.

Acha que há uma maior sensibilização a nível da produção de produtos sem glúten?
Sim há, mas também pela moda de comer sem glúten para se ser esbelto há um menor comprometimento em termos de contaminações por parte de alguns fornecedores de comida, e os meus doentes queixam-se que os tratam como fans de dietas da moda em vez de celíacos que dependem de alimentos sem glúten para terem saúde.

Quando foi anunciada a sua integração no grupo europeu, as reações foram em massa por parte de utentes e colegas. Estava à espera
Trabalho no Hospital de Braga e tenho uma excelente relação com os utentes que compreendem que ser pediatra e gastrenterologista pediátrica não é o meu trabalho é a minha vocação. Quanto aos colegas, já sabia também que posso contar com eles, sem colaboração era impossível manter toda esta atividade. Faço tudo o que está ao meu alcance para o bem-estar dos doentes. Sou também Presidente da Sociedade de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica, que julgo expressar bem o carinho e aceitação dos meus pares. A nível internacional vou organizar em setembro, em Braga, a 4th ESPGHAN Endoscopy Summer School, organizada pela primeira vez por uma portuguesa e em Portugal. Fui convidada em 2016 pela Sociedade Norte Americana de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (NASPGHAN) para moderar no Congresso Mundial desta área (WCPGHAN); o ano passado para apresentar na reunião da ESPGHAN em Praga e fui convidada para o working group este ano. Como a semana passada me diziam na Escola de Medicina da Universidade do Minho, na qual sou professora de Pediatria, “dou o componente internacional que falta à pediatria”, faço-o com muito gosto…Temos de ser cada vez mais internacionais, às vezes, não se é profeta na sua própria terra.

A equipa de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga foi distinguida com um prémio e uma bolsa em Genebra. Qual a função da equipa e quais os objetivos da mesma?
Criei a gastrenterologia pediátrica no Minho em 1996 porque estes doentes eram transferidos para o Porto e deviam ter cuidados de proximidade. Criei sinergias e apoios com colegas, porque tinha necessidade e quem trabalha comigo, aprende e tem retorno em termos formativos e curriculares. Tenho uma excelente relação com todos os diretores de serviço dos hospitais do Minho e todos os serviços têm uma consulta de patologia de gastrenterologia que segue a maioria dos doentes que diagnostico ou que diagnosticam e que queiram alguma articulação. A articulação é excelente e as burocracias ultrapassáveis pelos doentes. Criei equipa sem equipa, mas agora espero criar equipa e ter equipa. O nosso objetivo é responder ao desafio de diagnosticar e tratar a patologia de gastrenterologia, nutrição e hepatologia e só transferir para Coimbra as crianças que precisarem de ser transplantadas ou em risco de transplante (insuficiência hepática com valores de TP >20’).

Fale-nos um pouco do seu percurso em Braga…
A minha mãe era de Braga, duma família numerosa, o meu pai trabalhava no Tribunal, mudava de comarca, então eu nasci na Póvoa de Varzim que foi sempre o meu destino de férias mas a minha cidade é Braga. Vivi em Maximinos, onde a minha mãe nasceu. Estudei na escola da Sé, na Escola André Soares e D. Maria II, depois fui para a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e lá doutorei-me. Voltei no 1º ano de médica e escolhi o internato geral no Hospital de Braga, concorri a Pediatria, entrei com a melhor nota a nível nacional e escolhi Braga. No estágio de Pediatria, estive 2 anos no Porto e quando entrei no quadro disse ao Diretor, Dr. Fernando Sá Meneses, o pediatra que fez história em Braga, que queria ir para gastrenterologia mas não para ter uma consultinha, queria ser especialista (nessa altura ainda não havia sub-especialidade, só em 2005). Autorizou-me um estágio em Bruxelas. Regressei a 1 de novembro de 1996 e abri a consulta de Gastrenterologia Pediátrica. Em 2005 fui uma das primeiras sub-especialistas em gastrenterologia pela Ordem dos Médicos (OM). Como agora já não é constituída só por uma médica gostava que a designassem por Unidade de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga ou Unidade de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica tal como a OM que lhe deu idoneidade formativa e no estrangeiro já a designam.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista