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Calor. Esperados quatro dias de inferno

Fernando André Silva

Vêm aí quatro dias de “inferno” a nível nacional e a região do Cávado não será exceção. As fortes temperaturas, que na zona montanhosa de Amares e Vila Verde podem ver as máximas ultrapassarem os 40 graus, ativaram mesmo um “aviso vermelho” que vai ser instaurado a partir da noite desta quarta-feira para a região do Cávado.

O calor excessivo pode provocar vários problemas sérios no que respeita aos cuidados da saúde e de prevenção contra incêndios.  Este aumento motivou uma conferência de imprensa “informal” promovida pelo segundo comandante dos Bombeiros de Vila Verde, de forma a consciencializar a população para os quatro dias de “inferno” que se aproximam.

Segundo Luís Morais, nos próximos quatro dias vão existir “várias complicações”. “Vamos ter um aumento bastante elevado da temperatura máxima. Passamos da média de 25º para temperaturas acima dos 40º na sexta e no sábado. A humidade, nos picos, vai ficar abaixo dos 80%, e nos mínimos, durante a tarde, andará à volta dos 30%, o que é significativamente pouco e propícia à propagação de incêndios. Vamos também ter ventos de leste, quentes e secos, com rajadas que podem ir até aos 20 k/h,o que torna tudo ainda mais perigoso”, alerta.

Luís Morais deixa mesmo um “alerta à consciência das pessoas”. “A população tem de ter atenção que a partir do dia 1 para o dia 2 de agosto vamos entrar em aviso vermelho. E estes avisos são para despertar as conciências para alterar a forma de estar nas áreas florestais e áreas rurais”, aponta.

O responsável operacional dos BVVV chama ainda a atenção para “a consciência na utilização de fogo”. Este é um período em que existem muitas festas populares e onde se lançam foguetes e se manobra fogo. Muitas vezes acusa-se os emigrantes de negligência mas são os primeiros a dar o exemplo. As confrarias e a população que trabalha nessas festas tem de ter a consciência que estamos num período crítico e por isso têm de ser moderados na utilização do fogo”, diz o segundo comandante dos BVVV. “Podem contar com os Bombeiros de Vila Verde, mas é preciso consciência”, vinca.

“Tanto ANPC como diversos agentes como GNR, PSP, ICNF e RC6, têm equipas montadas para vigilância e prevenção, mas só resulta se houver uma atitude correta e preventiva da população. Já tivemos o primeiro incêndio no passado sábado que não teve origem em queimada. Não sei a origem, mas não foi queimada. Onde foi, tinha um determinado objetivo e lá no local percebemos isso. As pessoas têm de ter consciência naquilo que andam a fazer e como podem prejudicar as outras pessoas. Esse incêndio só foi facilmente resolvido porque tivemos ajuda das condições climáticas e o tempo estava fresco e húmido. Mas isso vai mudar nestes dias. Custa-me que exista uma época de incêndios em Portugal, mas é a realidade”, vinca o chefe de comando, recordando o passado dia 15 de outubro.

“Até às 17h, não tivemos ocorrências, depois tivemos oito ocorrências em simultâneo, uma delas em perímetro urbano que tinha 6 focos distintos. Houve ali um objetivo claro, e não foi queima descontrolada. Apelo à população que tenha consciência, perceba que só é fácil nós ajudarmos se eles nos ajudarem sendo preventivos e conscientes”, vinca.

Sobre o dispositivo de combate a incêndios

Com duas Equipas de Combate a Incêndios (ECIN) compostas por cinco elementos cada e uma Equipa de Intervenção Permanente (EIP) que cumpre 8 horas diárias no quartel, para além de uma estrutura com perto de uma centena de voluntários, Luís Morais acredita que os bombeiros podem dar a resposta adequada aos meios disponíveis.

“Possivelmente iremos aumentar o nível de alerta a nível nacional e para isso temos um dispositivo dentro do que é a capacidade do quartel. Em permanência temos 10 elementos ligados aos incêndios e entre 4 a 6 ligados à emergência pré-hospitalar.

Em alerta, há um protocolo que tem de ser cumprido. Mais meios disponíveis, mais homens prontos. O IPMA emite avisos, e a ANPC emite uma alerta interna para os meios operacionais. A partir do momento que entra o alerta,  os meios de socorro devem reforçar com meios no terreno, caso haja possibilidade. Luís Morais explica que, para isso e caso surja alguma situação de alerta vermelho para os meios de proteção civil, os BVVV podem contar com uma equipa de emergência sediada em Guimarães [Bombeiros canarinhos] para além de um reforço triangulado com os concelhos vizinhos [Braga, Terras de Bouro e Amares]. “Podemos ter também reforço vindo de fora do distrito, caso haja alerta”, aponta Luís Morais.

Envolvidos nesta estrutura estão várias equipas para além dos bombeiros. Na estrutura municipal de Vila Verde, por exemplo, existem uma equipa EMIF, de sapadores florestais, ao serviço da Câmara de Vila Verde que, em conjunto com outras duas equipas de sapadores pertencentes à Associação Florestal do Cávado, garantem vigilância e primeira intervenção nos incêndios. Também os GIPS da GNR têm uma estrutura pré-definida para o distrito, atuando por meio terrestre e aéreo na primeira intervenção do incêndio. “Os helicópteros estão a fazer um raio de 40 quilómetros à volta do local onde estão sediados. Aqui vem o de Palmeira e o de Arcos de Valdevez, ou até mesmo de Baltar e Faro. Este ano ainda só houve uma intervenção aérea e foi muito importante no primeiro ataque ao incêndio”, conta Luís Morais.

Dou os parabéns à população pela limpeza dos terrenos

Questionado pelo Semanário V se acha que houve uma maior consciencialização por parte da população depois das tragédias de 2017, Luís Morais acredita que sim. “A nível de limpezas houve, sem dúvida, um grande esforço da população. Isso nota-se, e gostava de dar os parabéns porque perceberam que para salvaguardar os seus bens era importante ter essa consciência. Mas há mais a fazer. H um problema de base que tem a ver com, depois da limpeza dos terrenos, deixarem os sobrantes no local. É importante que, perto das habitações, as pessoas tenham consciencia que as suas manchas florestais têm de estar limpas. Vejo muitas vezes manchas limpas, mas ao lado não estão. E isso muitas vezes é impeditivo que consigamos salvar aquela mancha florestal que foi limpa. Quanto aos sobrantes, o incêndio chega lá e é combustível. É preciso ter atenção a isso”, alerta.

Idosos e crianças em risco

As crianças e os idosos são os grupos etários com maior fator de risco durante estes dias de calor, sendo necessário o cuidado redobrado por parte dos familiares, sobretudo no que toca às crianças e a idosos que não tenham autonomia.

Em artigo de opinião publicado na edição desta semana [pag 11], Paula Ferreira, médica especialista em MGF, deixa o alerta que as temperaturas altas “submetem o nosso organismo a um grande stress devido à perda de água e sais minerais pelo suor”. Segundo a especialista, é imprescindível a ingestão diária de água entre 1 litro e meio e 2 litros por dia, num adulto saudável.

“Se aliado ao calor, vier a frequência de praias e piscinas, além de uma hidratação adequada, é importante não esquecer de colocar protetor solar (FP 50+, preferencialmente) e evitar a exposição solar nas horas de maior calor. A utilização de roupa fresca (cores claras, de preferência), de óculos escuros e o uso de guarda-sol são também imprescindíveis para tornar a experiência mais segura e prazerosa. Desta forma evitam-se as queimaduras solares e o aparecimento consequente de lesões cutâneas, de entre as quais se salienta o cancro da pele”, refere.

Também o segundo comandante dos BVVV deixa o alerta para a importância da vigilância de crianças e idosos durante este período, aconselhando a que procurem “locais minimamente frescos” e que “bebam bastantes líquidos”. “É necessária uma atitude pedagógica e consciente também por parte dos familiares. Quando se aperceberem de alguma coisa, entrem logo em contacto com o 112 ou diretamente com os bombeiros para podermos resolver as questões de forma rápida”, aponta.

Temperaturas voltam a baixar na segunda-feira

Segundo Luís Morais, este período de alerta deverá constar apenas em quatro dias, devendo baixar a temperatura no final de segunda-feira. Segundo dados fornecidos por algumas estações meteorológicas da Corunha, mais fiáveis que o próprio IPMA, há um baixar no final de segunda-feira, de seis graus, que pode ser considerada “brusca”. Essas ferramentas acabam por ser úteis aos comandos de bombeiros para analisar o que pode ser feito. “Os grandes incêndios, resolvemos de noite, porque percebemos quando a temperatura baixa e a humidade sobe. Nestes dias a temperatura mínima sentida vai andar nos 30º e depois já na próxima segunda-feira vai baixar para próximo dos 20º”, refere.

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Fernando André Silva

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Jornalista