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João do Rei: “A juventude só quer chupar gelados e beber sumos”

Fernando André Silva

Há mais de 30 anos que João Gonçalves, de Vila Verde, vende produtos hortícolas à face da Estrada Nacional 101, em Soutelo, junto ao Mosteiro do Alívio. E não faltam os tradicionais melões de Coucieiro, de onde é natural o agricultor de 72 anos. Ao Semanário V, confessa que só vende no Alívio, e tudo começou com uma brincadeira.

“Já o meu sogro vendia, o meu pai também, e um dia comecei eu a semear os meus, quase como uma brincadeira, para depois vir para aqui vender”, conta o também conhecido como “João do Rei”, por ter nascido numa casa cujos donos eram assim apelidados.

A viver com a mãe na Casa dos Reis, João dedicou-se à agricultura, com especial foco nos melões, mas suspendeu a atividade para emigrar.

“Acabei por ir para a França trabalhar numa fábrica de madeira, estive lá quase 20 anos e quando voltei decidi voltar a vender melão e desde então não falho nenhum ano”, explica.

Sobre a colheita de melões deste ano, João Gonçalves está contente com a qualidade, mas não com o número. “Este ano há pouco fruto. E aquele que há, o calor estraga tudo”, lamenta, culpando “as chuvas de junho” como a causa de grande parte do meloal estar estragado, resultando em “poucos melões”.

“Apesar de tudo o melão deste ano é razoável, até melhor que em anos anteriores, mas são muito poucos e este calor estraga-os rápido”, queixou-se durante a vaga de calor.

“Ainda tenho uns quantos guardados porque este ano semeei mais tarde, e é capaz de me dar até fim de agosto, mas são poucos” aponta, lamentando também uma aparente quebra nas vendas.

“Há dias bons, em feriados ou ao domingo, mas a maior parte dos dias vendemos muito poucos, algumas vezes conta-se pelos dedos da mão o que se vende”, diz João, argumentando que “a juventude só quer chupar gelados e beber sumos”.

“Já não ligam à fruta, só querem outras coisas. Enquanto a juventude for esquecendo o melão e a melancia, vão ajudar a que isto se perca. A tendência é para estes melões de Coucieiro e de Soutelo acabarem em poucos anos”, diz, apontando que o problema até nem é tanto a falta de clientela.

“O pior é semear, que dá muito trabalho. A juventude não quer nada com isto. Eu ainda vou tendo o meu filho que me ajuda durante a manhã, mas tem o trabalho dele durante a tarde”, explica, enquanto “despacha” uma melancia a um cliente habitual.

Diariamente, são cada vez menos os que param para ‘apalpar’ o melão a ver se é bom, mas ainda vai dando para os gastos dos pequenos produtores, a grande maioria do concelho de Vila Verde.

Ainda abrigado do calor da tarde, António Fernandes, residente em Soutelo, não deixou de parar junto ao ‘stand’ de João Gonçalves. O soutelense leva o fruto mais pesado porque “se adequa a este calor”. “Amanhã vou a um passeio e levo melancia que tem mais água e é mais fresca para este calor. Mas também compro um melão para casa”, confessa, defendendo a venda ambulante deste produto.

“Eu compro aqui porque conheço o produtor e sei que o melão é de qualidade. Ter aqui estes vendedores é muito importante e é uma tradição que já é muito velha nesta terra e que tem é de ser preservada”, refere António, na ânsia de que a tradição nunca acabe. “Espero que não a deixem acabar. É muito característico aqui desta terra e é sempre bom passar e sentir o cheiro do melão casca de carvalho porque sem dúvida que é das coisas melhores que temos no país”, atira.

Durante todo o mês de agosto, perto de meia dúzia de vendedores ambulantes oferecem diferentes qualidades de melão casca de carvalho e outros frutos relacionados, grande maioria plantados em Coucieiro e Soutelo.

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Jornalista