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Património. Quem salva a memória do antigo Castelo de Braga?

Ricardo Sant´Anna e Manuel Morais c) FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Ricardo Luis Martin Sant’Anna e Manuel de Morais Pinho têm dedicado os últimos anos à preservação da memória do castelo que, outrora, serviu para defender os interesses da cidade medieval de Braga, uma construção destruída depois de, ao longo de séculos, ver suas muralhas como suporte para construção de outros edifícios, que hoje albergam conhecidos comércios nas costas da Arcada, e que, hoje são a prova viva de que ali existiu mesmo um castelo.

Situado nas costas da Arcada, junto à Praça da República, ombreando com a Avenida da Liberdade e encarando a Avenida Central, o antigo castelo cicratizado e dado à indiferença, foi, nos últimos anos em que esteve de pé, conhecido por servir como um presídio na cidade. A higiene falou mais alto e foi destruído com conivência das autoridades políticas em 1906, para não mais voltar a ter destaque na agora apelidada de “cidade encantadora”.

À conversa com o Semanário V, Ricardo Sant’Anna, fundador do grupo de Facebook “O Castelo de Braga e a sua história” revelou que tudo começou há alguns anos, quando veio viver para Braga. O interesse pelo tempo medieval e a procura em reconstruir uma maqueta de madeira do antigo castelo fez com que procurasse saber cada vez mais.

Desse tempo até hoje, o carpinteiro entrou numa viagem frenética, no espaço e no tempo, à qual convidou o sociólogo Manuel Morais que não hesitou em entrar na ‘máquina do tempo’ do amigo, e a mais recente [embora também já antiga] luta é pela classificação do Castelo de Braga e suas ruínas como Património Nacional.

Ricardo Sant´Anna no “interior” do castelo c) FAS / Semanario V

“Temos dedicado grande parte do nosso tempo à procura de informação sobre o que foi e o que é hoje o Castelo de Braga assim como na investigação”, afirmam ao Semanário V, na esplanada do café “A Brasileira”, com vista para a torre de menagem remanescente, o vísivel ao público do que sobra do castelo.

“Hoje, para as pessoas da cidade e para os turistas, o que sobra do castelo é esta torre de menagem, mas a verdade é que existem outros elementos e ruínas do castelo espalhados em edifícios à volta da torre, nomeadamente pedaços da muralha do castelo”, conta Ricardo, secundado por Manuel.

O sociólogo, quando embarcou na viagem do carpinteiro, tratou de arranjar e colocar à disposição centenas de diferentes fontes que foram ajudando a que a investigação e o estudo fosse mais longe. Manuel de Morais Pinho revela mesmo que, não poucas vezes, foram até convidados a visitar alguns pontos da muralha pelos atuais proprietários dos edifícios.

“O proprietário do restaurante Silvas [o mais próximo da torre] convidou-nos a entrar no armazém para registarmos as muralhas que lá se encontram. Mas também existem em diversos sítios, como no Café Viana, no Astória e até na Igreja da Lapa”, conta. Todos esses edifícios foram construídos “apoiados” nas muralhas do castelo. Esses edifícios, hoje, são o castelo.

Fotografia durante o processo de demolição em 1906 que manteve porta e parte muralha de pé

O Semanário V fez uma visita com os dois estudiosos a alguns dos edifícios e confirmou exemplares da muralha. Dentro de um desses edifícios, agora a ser recuperado para albergar um espaço de restauração, foi possível constatar a porta de entrada no antigo castelo, ainda intacta e com marcas dos fornecedores de pedra de outros séculos. As obras estão a deixar intactas algumas partes da muralha, embora outras estejam a ser cobertas, à semelhança do que aconteceu em outros edifícios, como no café Astória, onde apenas estão visíveis ao público em locais mais privados.

Algumas paredes da nova “pizaria” são muralha do antigo castelo c) FAS / Semanário V

Porta do castelo não foi demolida e hoje está dentro de um edifício que vai albergar um restaurante italiano

A dupla acaba por demonstrar mágoa ao ver estas ruínas desaproveitadas pelo comércio do centro histórico da cidade e até pela igreja. “Os comerciantes tapam estas muralhas, parece que não querem que sejam vistas. Até a Igreja da Lapa, onde está um bom pedaço da muralha situado por detrás do altar, a mesma está tapada. Podia fazer visitas guiadas, certamente haveria interesse”, aponta Manuel de Morais Pinho.

E interessados não faltam. O Semanário V falou com alguns turistas e até cidadãos do centro de Braga que desconhecem que ali existiu em tempos um castelo. A maior parte dos residentes sabia que existiu uma cadeia e alguns até pensam que a torre de menagem foi construída para esse efeito, julgando-a muito mais recente do que realmente é.

Torre de Menagem ao centro e os edifícios construídos a partir das muralhas do antigo castelo c) FAS / Semanário V

Falámos também com técnicos no Posto de Turismo de Braga, que se situa em frente ao antigo castelo, e o desconhecimento também foi muito, ao ponto de confundirem a muralha do castelo [situadas apenas nos edifícios da Arcada] com as muralhas que protegiam a cidade [que vão da Arcada até à Porta Nova]. A verdade é que, da parte do Município de Braga, não existe grande preparação para receber pessoas que queiram informação sobre esse tempo medieval.

Ricardo e Manuel não perdoam essa atitude aos responsáveis pela Cultura e pela História da cidade. “É imperdoável que não se tenha os conhecimentos para poder sequer dar uma pequena informação ou um vislumbre do que foi o castelo de Braga”, alude a dupla que não desistirá tão cedo da luta da classificação das ruínas como Património Nacional.

O Castelo de Braga

Segundo a Direção Geral de Património, no local, sempre existiram ruínas de edificações de cariz militar, desde os tempos dos romanos, já que data do século III os primeiros registos de uma muralha. Ao longo dos séculos seguintes, foram construídas e destruídas algumas edificações, até que, durante o período medieval, o antigo castelo foi mandado construir por D. Dinis.

A torre de menagem, com três pisos e de cerca de 30 metros de altura ainda se impõe no centro da cidadela com edifícios posteriores construídos ao redor. Segundo a Direção Geral de Patromónio, a sua construção “revela um projeto claramente gótico, com ameias e matacães nos vértices, uma janela geminada no topo, bem como as pedras de armas de D. Dinis”.

Torre de Menagem permanece visivel ao públco

Depois do castelo, as atenções reais concentraram-se nas muralhas, e é nesse contexto que surgem “numerosas torres, de planta quadrangular, destinadas a afirmar o poder urbano e régio”. No entanto, as novas disposições da guerra determinaram a progressiva perda de função deste sistema e no século XVI, eram já muitos os edifícios adossados à muralha, pelo lado exterior, sinal claro da ineficácia e abandono do dispositivo.

Modificações no castelo e construção de alfândega, mercado [Arcada] e Igreja da Lapa

Como descreve Luís Costa, no Braga Monumental, no Início do século XVI Braga vive num aglomerado de ruelas, insalubres e apertadas, verdadeira cidade medieval, cercada por um cintura de muralhas que a não deixava respirar livremente e o renascimento ia surgindo pelas várias capitais europeias.

Terá sido nessa altura que Dom Diogo de Sousa, estabeleceu junto à porta do Souto, encostada ao castelo, uma alfândega, ou “hospícios para recolher os negociantes (almocreves), que de fora vinham abastecer a cidade de géneros e mercadorias”, e foram criado novos aspetos ao redor do castelo.

Segundo a mesma publicação de Luís Costa, foram construídos “caramanchões que teriam a finalidade de ser um complemento à defesa do castelo, pois nada mais eram que baluartes, por certo ameados, e ligados entre si por um galeria abobadada ogival, colocada junto à parte exterior da muralha de defesa do castelo”. Aquelas casas redondas foram construídas, um no ângulo da porta do Souto (hoje Largo Barão São Martinho) e o outro no ângulo do largo do Eirado (largo São Francisco), com a Alameda de Santa Ana. Ainda oje são visíveis traços nas duas extremidades da Arcada.

Silhueta do antigo Castelo de Braga com a Torre de Menagem ao centro e um dos caramanchões, agora a ser restaurado para um hostel c) FAS / Semanário V

Sobre a construção da Arcada a cobrir toda a fachada da entrada do castelo, Luís Costa conta que, já sob a administração arcebispal de Dom Rodrigo de Moura Telles (1704/1728), se principiou a estabelecer um mercado, com os mercadorias e mercadores sujeitos às inclemências do tempo, resolveu dar a este sítio um aspecto mais condigno e mais consentâneo para o que estava a ser utilizado. Assim, cerca de 1715, mais ou menos, mandou construir uma arcaria entre as casas redondas e mandou-as telhar, sendo hoje o que resta das Arcadas.

Já a Igreja da Lapa terá sido mandada construir por devotos da santa, depois da vinda de um missionário brasileiro que pregava junto à imagem da Senhora da Lapa, situada na Alfândega do Souto.

A última alteração significativa e, talvez, derradeira, foi em 1906, quando as autoridades políticas mandaram destruir aquilo a que chamavam de presídio, não se importando que outrora foi um castelo. No entanto, as muralhas que já serviam de apoio aos novos edifícios tiveram de ficar de pé, sendo esse o traço de vida que o castelo ainda dispõe.

Com tantas modificações ao longo dos séculos, o Castelo de Braga consegue manter uma identidade através dos registos históricos e, sobretudo, do ADN “muralhado” e dividido com todos os edifícios que, apoiados nela, foram sendo construídos, destruídos e, agora, restaurados, tirando qualquer imponência que, outrora, tiveram ao dar segurança às gentes de Braga mas, ao mesmo tempo e face à destruição do século passado, foram também esses edifícios que salvaram a memória deste castelo, e hoje dão a Ricardo e Manuel um lema pelo qual prosseguir e registrar História.

Nota de redação: Por lapso, no texto da edição impressa do Semanário V, foi erradamente atribuída a profissão de arqueólogo a Ricardo Sant’Anna, Ao visado, as nossas desculpas.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista