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Políticos revoltados com descarga no Este. Mas Panóias está pior e descargas são da ETAR

Limpeza do rio Torto em Panóias, Braga (c) FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Uma onda de indignação está a invadir a classe política de Braga depois de um alegado ato de vandalismo junto de um intercetor de saneamento, em São Mamede de Este, que “tingiu” o rio Este de cor acastanhada, chegando mesmo a matar centenas de peixes no local.

Em publicação nas redes sociais, Francisco Mota, líder da Juventude Popular de Braga e assessor do vereador do Ambiente da Câmara de Braga, diz estar “de luto” com esta situação.

O jovem político diz estar “com um sentimento de revolta pelo que fizeram à nossa cidade”, classificando o vandalismo como um “ato deliberado e criminoso de quem não tem consciência do impacto da sua irresponsabilidade para com o Ambiente”.

“Chego a casa com o coração apertado, mas na certeza que demos o nosso melhor para mitigar no imediato esta calamidade”, referiu ainda o jovem centrista, dizendo ainda que “gostaria de acordar e pensar que tudo isto não passaria de um sonho, mas infelizmente este é um pesadelo que condiciona o rio Este e as futuras gerações na sua qualidade de vida”.

Recorde-se que, após denúncias no local, a AGERE, empresa responsável pelo saneamento em Braga, solicitou a intervenção de vários agentes de proteção civil, incluíndo as duas companhias de bombeiros do concelho, para limparem, dentro do possível, o resultado das descargas.

Segundo aquela empresa, esta descarga foi motivada por sacos de areia colocados propositadamente numa das condutas de saneamento, o que levou a que houvesse retorno do efluente acabando por transbordar para o rio Este, ainda perto da sua nascente.

Descargas e fugas para a ribeira de Panóias provêm da própria ETAR

O problema das descargas de saneamento que poluem rios não é recente. A ribeira de Panóias, também conhecido como rio Torto, que deságua no rio Cávado, mantém um cherio nauseabundo, uma coloração escura da água e vários focos de parasitas, como lombrigas, provenientes de descargas de saneamento da própria ETAR situada em Frossos.

Recentemente, a associação ligada ao ambiente, KATAVUS, e a junta de freguesia local, fizeram uma ação pedagógica de limpeza daquele rio para despertar interesse da classe política neste problema que, para além de durar há anos, tem-se vindo a agravar e sem solução à vista. A limpeza foi acompanhada pelo Semanário V nesta reportagem.

Segundo Carmindo Soares, presidente da Junta de Merelim S. Paio, Panóias e Parada de Tibães, em abril de 2016, a AGERE anunciou investimento de um milhão de euros na remodelação da ETAR de Frossos que visava “reduzir o impacto ambiental da estrutura”, garantindo a empresa que incluía a valorização da ribeira de Panóias.

No entanto, as descargas daquela ETAR persistem e a ribeira continua a ter um pouco de tudo mas longe de ser valorizada.

“As informações que temos sobre estas descargas é que a atual ETAR não tem capacidade para receber todo o saneamento e fez descargas sem qualquer tipo de tratamento, diretas para o rio”, aponta o autarca, revelando que “está tudo à vista de todos” e que a proveniência das lombrigas será mesmo do saneamento que é descarregado para o rio.

“A resposta que nos deram é que para resolver estas descargas é necessária a construção da nova ETAR em Celeirós, ao pé do rio Este”, diz Carmindo, lamentando o “cheiro” e a “poluição” daquela ribeira que tem doze moinhos edificados no seu curso.

“Estas descargas influenciam a população por onde o rio passa. Os vizinhos desta zona não conseguem ter janelas abertas no verão por causa do cheiro e dos mosquitos, inclusive a população de Panóias levantou a questão em Assembleia Municipal e a resposta foi que estão à espera da construção da nova ETAR”, diz.

Um relatório de saúde pública datado de outubro de 2013 indicava “água visivelmente conspurcada” e “sem transparência, com coloração castanha e espuma nos locais de maior agitação”, o que ainda se mantém.

O mesmo relatório da Unidade de Saúde Pública da ARS Norte indicava também “acumulação de lamas em algumas zonas, junto às margens do curso de água” e a “presença de um odor nauseabundo e existência junto ao curso de água de uma quantidade considerável de mosquitos, quer em estado adulto, quer no seu estado imaturo (larvas na água)”.

O mesmo relatório indicava que “a situação verificada constitui um risco significativo para o ambiente e para os habitantes das zonas circundantes, considerando a população de mosquitos existentes, bem como a possibilidade de contaminação das águas subterrâneas”.

Problema “familiar” e antigo

O problema da poluição da ribeira de Panóias é antigo e remonta à construção da ETAR de Frossos e de algumas empresas em parques industriais perto daquele rio.

Em 2007, um grupo de moradores ameaçou com uma “marcha mal-cheirosa” no centro da cidade de Braga, o que levou a questão à opinião pública e aos políticos da altura.

Ricardo Rio, na altura vereador da oposição, exigia à Câmara de Braga, comandada por Mesquita Machado, que tomasse “medidas concretas que levem à despoluição desta ribeira e ao fim do tormento porque passam as populações que residem naquela zona”. Em declarações ao Correio da Manhã, em 2007, o atual edil referiu ainda que “a população tem mais do que razões para protestar, já que os maus cheiros são, por vezes, insuportáveis”.

Na altura, Mesquita Machado referiu que a ribeira era um curso de água da responsabilidade da Direcção Geral do Ambiente, mas que a autarquia estaria aberta à colaboração “com todas as entidades” para a elaboração de um “projeto” que resolvesse os problemas que, 11 anos depois, ainda não foram resolvidos.

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Jornalista