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Israelitas encantados com Vila Verde: “Este é o lugar mais bonito de Portugal”

Amit e Shir assistem ao pôr do sol em Aboim (c) Armando Carriça
Fernando André Silva

A região norte do concelho de Vila Verde atrai cada vez mais turistas estrangeiros que buscam o típico turismo de montanha com campismo, sombra e água cristalina que acalma a subida da temperatura nesta altura do ano.

O Amit e a Shir não são exceção. Vindos de uma pequena comunidade em Israel, entre Haifa e Telavive, para uma “espécie de lua-de-mel” que começou no Alentejo e passou por Porto e Algarve, acabaram por dar de caras com o Parque de Campismo de Aboim da Nóbrega quando rumavam à Galiza para os “últimos dias de férias”. Depressa esqueceram a ida a norte e do parque já só saem rumo a Israel, via Madrid.

À conversa com o V, numa mesa do também campista professor vianense Luís Ferreira, do IPCA, e do zelador do parque Domingos Costa, o tema variou por tudo o que encantasse o casal.

Amit elogia Domingos pela forma prestável com que se apresenta diariamente, garantindo que “é o melhor parque em que estivemos até hoje”. “Amazing!”, refere. Shir acrescenta: “Este é o melhor de todos. É como estar em casa mas com a natureza à nossa volta. Este rio que aqui passa. Estivemos lá ontem e hoje queremos voltar. É melhor que ter uma piscina”, diz.

Amit, Shir, Luís Ferreira e Domingos Costa (c) FAS / Semanário V

Amit mostra-se maravilhado com o aproveitamento de ar, sol e água para gerar a energia do parque, que é a única infraestrutura do país que utiliza as três fontes. “É fantástico ver como usam a tecnologia, usam as três fontes ambientais. É inspirador”, diz Amit, referindo que “nem me lembro dos nomes dos outros parques e este sei que nunca vou esquecer.

Sobre a região de Vila Verde, Shir tem uma palavra: “Encantadora”. “Talvez a mais bonita de Portugal, dos sítios em que estivemos”.

Ao “porquê?” do jornalista, Shir responde. “É que aqui é mesmo verde. Há montanhas e vales com água, muita água. Não sabem a sorte que têm”, atira.

O que parecia um elogio fácil no início de uma conversa que se antevia curta acabou por se tornar uma certeza num diálogo de partilha onde se falou não só de Vila Verde mas de outros temas como o conflito israelo-palestino, de agricultura, de lobos e das célebres plantas tóxicas “mata-sogra”.

Mas a primeira questão é mesmo como é que um casal de isrealitas descobre Aboim da Nóbrega. Amit revela que casou com Shir há três meses e planearam uma viagem por Portugal e Espanha que incluía uma passagem pelo Boom, festival que incluí alguns dos melhores produtores musicais vindos também de Israel. “Do Boom viemos até ao Porto passar uns dias e depois fomos ver as praias do Algarve. Ao regressar ao norte encontrámos este parque e ficamos uma noite mas isto é tão maravilhoso que tivemos de cá ficar”.

Amit, Shir, Luís Ferreira e Domingos Costa (c) FAS / Semanário V

“É um misto de Israel e Europa. Temos as mesmas árvores, como as oliveiras e carvalhos, as mesmas flores, mas aqui há um mix com a Europa por isso é muito mais verde e azul. Aqui quase que nos sentimos em casa, as pessoas tratam-nos quase como se fôssemos família. Fomos a Braga, à Decathlon, e o funcionário parou o que estava a fazer para nos ajudar numa situação que nem tinha nada a ver com a compra”, refere Amit, elogiando aindo o zelador do parque, Domingos Costa, a quem, com um sorriso, chama de “homie”. (amigável/familiar).

Shir consegue resumir em poucas palavras a diferença entre Portugal e o resto da Europa. “Aqui ajudam-te até resolveres o teu problema. Por vezes não descansam enquanto não te ajudarem. São como uma família a ajudar um familiar e isso é único. Em Espanha são parecidos, mas no resto da Europa, do que conhecemos, não é que sejam más pessoas, mas não nos sentimos em casa”, garante.

Amit concorda. Mais viajado, viveu um sexto da vida fora de Israel. “Morei em Los Angeles, Tailândia, Costa Rica, Nicarágua, Brasil, Argentina, Chile e em vários países da Europa”, revela o antigo militar e agora artista circense. “Estive há dois meses na Ucrânia e também gostei porque lá dão valor à minha profissão, ao contrário de Israel”.

Um dos motivos desta viagem é também um reencontro de Amit com a sua profissão e com outros estilos de vida que não consegue encontrar no país natal. “Vocês aqui têm uma sorte que eu não tenho. Em Israel, não há apoio do Governo para as artes, acham desnecessário, e para sobreviver eu tenho de atuar em outros países. O problema é que não o posso fazer nos países vizinhos, em muitos nem posso sequer entrar. Aqui, vocês pegam no carro e atravessam uma série de países. Podem trabalhar no que quiserem e onde quiserem”, diz Amit.

O Estado de Israel, no oriente-médio, vive em sobressalto devido a um conflito entre povos que dura há mais de mil anos e estas viagens acabam por ser um “escape” para o casal que acredita que novos tempos estão a chegar para aqueles países.

Shir diz mesmo que quer acreditar que o conflito pode ser resolvido sem mais violência, mas confessa que é uma situação muito complicada. “São milhares de anos em conflito, mas nota-se uma nova energia nos jovens, de todos os lados, que basicamente estão fartos de guerra e querem amor”, diz.

Amit pensa um pouco diferente. “Acho que há muito dinheiro canalizado para a segurança para que se resolva aquele conflito sem violência. Por vezes a guerra é inevitável mas temos visto alguns protestos da juventude nos últimos tempos, contra o oleoduto que querem construir na nossa costa e isso dá-nos outra esperança que os tempos estão a mudar. Que os jovens já questionam e protestam contra a corrupção”, afirma.

Por entre mais um café e uma visita ao apiário situado junto ao parque, o professor Luís Ferreira dá uma pequena aula de apicultura aos viajantes oferecendo ainda um pouco de mel, que aceitaram de bom grado. Israel é, também, um bom fabricante de mel, mas os viajantes desconheciam a vespa-asiática. “A picada pode ser fatal?”, questiona Amit, alarmado. “Isso já não é preciso em Israel”, brinca.

Luís Ferreira mostra algum do mel ao casal isrealita (c) FAS / Semanário V

No entanto, o jovem artista não deixou de mostrar curiosidade sobre uma espécie de planta que muito viu em Portugal, a chamada popularmente de “mata-sogra” ou “trepadeira”. “Essa planta é tóxica. Em Israel começaram a colocar em vários locais porque tem muitas cores e é muito viva, mas as folhas são veneno e tivemos que retirar. Vocês deviam fazer o mesmo”, conta. Mas nem só a “mata-sogras”, ou “mata-palestinos”, como anuímos em brincadeira, são um inconveniente para o casal em terra lusa. Shir é vegan e teve de comer carne por duas vezes, por não haver opção.

“Se formos nós a cozinhar, podemos fazer refeições vegans porque encontramos produtos nos hipermercados mas quando vamos comer fora quase que não existem opções”, lamenta, indicando apenas um local, “no centro de Vila Verde” que serve este tipo de refeições. “É que nem as saladas são de qualidade. Metem um tomate e algumas alfaces e chamam a isso salada. Em Israel temos as saladas cheias de cores com vários ingredientes que realmente são uma refeição”, diz.

Por entre o último café e uma breve lição sobre a fundação de Portugal [Amit delirou ao saber que Afonso Henriques aprisionou a mãe para fundar o país], e a visualização de um vídeo de uma cria de lobo captada pelo professor Luís Ferreira, o casal recordou o melhor momento que passou nesta viagem de várias semanas, e foi em Aboim da Nóbrega.

O batismo do casal nas terras da Nóbrega não poderia ter sido mais “assombroso”. “Fomos numa caminhada até aquele monte alto [castelo de Aboim] e conseguimos ver uma das coisas mais incríveis de sempre. Um pôr do sol e um nascer de lua cheia em simultâneo”, diz Amit, com a mesma alegria de quem viu o mar pela primeira vez. E Shir concorda. “Foi do mais lindo que já vivi”, acrescenta, encantada com essa particularidade dos montes do norte do concelho.

Participantes da II Caminhada ao Luar em Aboim da Nóbrega (c) Armando Carriça

A caminhada de que falam, organizada pelo zelador do parque Domingos Costa e pelo guia Armando Carriça, realizou-se no passado sábado e juntou perto de meia centena de pessoas que caminharam pelos trilhos naturais rumo ao mais alto dos montes de Aboim para ver o pôr do sol e o nascer da lua.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista