Destaque Vila Verde

Glória Oliveira é costureira dos bilionários de Londres

Glória Oliveira (c) Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Glória Oliveira nasceu há 52 anos e viveu grande parte da vida em Atães, concelho de Vila Verde, e desde 2014 que trabalha para alguns dos maiores bilionários da zona rica de Londres, primeiro como “nanny”, e agora como técnica de acabamentos têxteis da prestigiada marca Pristine, depois de ter trabalhado com o famoso costureiro Noah.

Nos bancos de jardim no centro de Vila Verde, Glória acedeu dar uma rara entrevista onde conta alguns pormenores da sua vida em Londres, para onde emigrou já adulta, depois de ter sido empresária têxtil e costureira em Vila Verde durante três décadas.

Glória Oliveira (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Com trabalhos feitos para Madonna, Elton John, Robbie Williams e, mais recentemente, para a Princesa Meghan, Glória puxa a fita atrás, até aos 15 anos de idade, quando começou a aprender costura com a dona Jacinta, mãe do atual presidente da junta de Prado S. Miguel.

“Aos onze anos já partia as agulhas todas da maquina manual da minha mãe, que até acabou numa exposição de material antigo em Vila Verde”, recorda nostálgica, revelando que só começou “a trabalhar a sério” aos 17. “Aí já juntei dinheiro para uma máquina elétrica e nunca mais parei”, conta. Depois de casar tornou-se empresária.

“Em 1991, foi o ano mais marcante, onde mais investi e posso dizer que comecei a ganhar mais dinheiro. Em 1994 ganhava quanto queria. Eu num ano fiquei com nove empregadas, e em dois anos já tinha 15. Fiz um pavilhão, que ainda é meu, em Atães onde tive uma confeção, mas com a crise acabei por alugar o espaço”, explica, mudança essa que a levou para Londres.

“Cheguei lá em 2007 para trabalhar numa loja de decorações – Magenta – e foi lá que fiz as cortinas para a Madonna. Era a maior empresa de decorações de interior na Europa e só trabalhava com clientes de luxo, especialmente nos cortinados”, conta.

Glória visita as instalações da Tecidos Jesus, em Vila Verde (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“Na altura estava a fazer umas cortinas e nem sabia para quem. Lembro-me que eram aos quadradinhos 20 por 20 mas em bordado inglês, com cores de salmão, branco pérola e azul bebé. Foi aí que a gerente veio ter comigo e disse que estava a trabalhar para a Rainho do Pop. Pensei que era brincadeira mas era mesmo a sério”, avança, revelando que mais tarde percebeu que não foi só para Madona. “Robbie Williams, Elton John, vários atores que lá são famosos mas que nem conheço”, conta, revelando que as cortinas da Madonna custaram 40 mil euros.

Embora estivesse adaptada, acabou por regressar a Portugal passados cinco meses, ainda em 2007, para voltar a trabalhar na área têxtil.

“Só regressei a tempo inteiro a Londres em 2014 onde comecei a trabalhar primeiro no costureiro Noah, que engraçou comigo e deu-me emprego e depois como ‘nanny’ de um rapaz que era filho do CEO da AXA, e mais tarde regressei ao têxtil, na Pristina, onde ainda estou”, revela.

E se, no emprego como “nanny” de um dos homens mais ricos de Londres teve oportunidade de viver na antiga casa da Margaret Tachter [pagavam cerca de 5.000 euros por semana de renda], numa das mais icónicas lugares da capital [Chelsea], foi com essa família que Glória acabou por conhecer o Dubai, onde passava dois meses por ano, e Itália, onde a família passava várias temporadas.

Glória Oliveira (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“Acabei por correr mundo com a família. Confesso que no Dubai foi onde gostei mais de estar, porque acho que de outra forma nunca lá teria ido. Aquilo é tudo muito futurista e os portugueses ainda têm medo de andar na rua mas ninguém nos faz mal. É espetacular, os meus patrões tinham um apartamento numa das torres Al Fatah e passávamos lá um mês numa altura do ano e outro noutra”, conta.

Apesar das viagens e de ter cozinhado para várias personalidades do mundo empresarial e político internacional [quando o patrão estava em casa recebia embaixadores de vários países como Rússia e EUA], Glória estava fora da área que sempre trabalhou e, embora a elogiassem, acabou por regressar ao têxtil, à prestigiada empresa Pristina que trata da lavagem e arranjos da roupa dos bilionários de Londres e da própria Família Real Inglesa.

“Acabei por substituir um costureiro que não sabia nada de arranjos de senhora que é a minha especialidade. A loja chama-se Prestine Clothing e está numa das mais importantes ruas de Londres. Todos os nossos arranjos eram de luxo. Aqui não se imagina os bilionários que existem em Inglaterra. Já limpei casas para muita gente rica. Há um contraste muito grande na sociedade em Londres”, afiança.

Sobre o local de trabalho, revela que tem uma lavandaria a seco, que é a utilizada para limpar a roupa da família real. “No outro dia disseram-me que estava a trabalhar para a princesa. mas como trabalho para tanta gente rica, nem liguei muito, só mais tarde quando vi nas revistas e na televisão é que percebi que era um casaco que ela usava mesmo muitas vezes”, conta.

O trabalho consistiu em pequenos arranjos nos bolsos, para que não danificassem. “A minha patroa chamou-me porque era um trabalho delicado, o casaco pesava dois quilos e meio, era de fazenda com uma cor bege. É um dos favoritos dela. Reconstruí os bolsos enquanto limpavam. A lavandaria é muito boa, só vão lá lordes, os bilionários, e as ladies, as mulheres deles. Nós tratamos toda a gente por tu, mas quando são muito ricos temos de tratar ‘lorde’ ou ‘lady’ é algo que nos dizem nas entrevistas de emprego”, confessa.

“Ainda no outro dia arranjei um fato que custava 2.000 euros. Calças de senhora que custam 6.000 euros . Nunca me aconteceu nenhum azar, mas toda a roupa que entra tem seguro. Quando estou a trabalhar coisas muito caras, aviso e peço se posso modificar isto ou aquilo, porque pode acontecer algum erro. Eu dou erros como toda a gente, mas quando é muito caro, eu sou mais cautelosa, especialmente quando são sedas naturais mas as senhoras quando sabem que sou portuguesa acabam por ficar mais descansadas. Eles confiam mais em nós, dizem que temos o dom do trabalho. Se me dissessem que eu trabalhava mal, a auto-estima descia e se calhar já nem queria mexer nessas roupas”, explica, revelando que a proximidade a Westminster atrai todo o tipo de cliente de luxo.”No outro dia uma modelo estava em sessão fotográfica na rua para a revista Vogue e vieram pedir para fazer um arranjo porque lhe rebentou um vestido que estava todo mal acabado, Até disse à patroa que eu trabalho melhor que a assistente dela. “Ainda estive para me oferecer como empregada”, diz Glória, entre risos.

Glória Oliveira (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Embora esteja adaptada ao atual trabalho e até tenha várias ofertas de emprego em carteira, Glória Oliveira não esconde que quer regressar a Vila Verde. “Há alturas em que acho que ir para o estrangeiro foi uma asneira. A minha ideia em 2014 era sair para ficar quatro anos para ajudar os meus dois rapazes que estavam a entrar para a universidade. Agora que passaram os quatro anos quero regressar e talvez abrir uma confeção perto de casa, ou na Portela do Vade ou em Vila Verde”, confessa, revelando que pode regressar ainda antes do Natal deste ano ou na Páscoa do próximo, que são “alturas fortes” para uma costureira.

“É triste ser emigrante. Mesmo os que estão há muitos anos e acham que não dá em Portugal, só não vêm para cá porque está lá a família. Todos adoram isto. Eu vejo nas festas de 10 de junho em Londres é uma alegria com a música pimba, até eu que não gostava, as saudades fazem-me gostar. É uma tristeza profunda que sentimos quando lá estamos. Eu tenho um emprego bom, ganho mais que os enfermeiros e cá nem metade vou ganhar, mas aqui está a minha família e os gastos são menores. Os meus filhos vão lá passar algum tempo mas nenhum deles quer ficar lá a trabalhar. Vou sempre a pensar que regresso. Encaro estes anos como se fosse um estágio para aprender novas técnicas para o meu trabalho que quero exercer em Portugal”, finaliza.

Comentários

Acerca do autor

Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista