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Lojas de Braga fecham serviços para vender recordações turísticas

Fernando André Silva

“Isto deu-se durante a noite. Foi uma ideia que me fez levantar, vir à loja e virar isto tudo de pernas para o ar”. Quem o afirma é Abel Pimenta, proprietário da “Tabacaria do Arco”, pequeno comércio que dá as boas vindas a quem entra pelo Arco da Porta Nova para o centro da outrora cidade medieval de Braga.

O recente fluxo de turismo não deixou o comerciante indiferente que há vários anos ocupa aquele espaço onde habitualmente vendia jornais, tabaco e dispunha de serviços para os moradores como pagamentos de correios ou eletricidade.

“Acabei com isso tudo. Cheguei aqui durante a noite e a primeira coisa foi a banca dos jornais. Não se vendem e estão aqui a ocupar espaço para além de darem imenso trabalho todos os dias”, começa por apontar Abel, revelando que acabou também com os “CTT e com a luz”.

“Olhe, apostar nestas lembranças foi a melhor coisa que fiz. A cidade está cheia de turistas e ficam encantados com algum material que agora tenho aqui à venda”, conta ainda.

Abel decidiu investir numa panóplia de produtos têxtil e de artesanato direcionados aos turistas como é o caso de vários modelos inspirados em sardinhas e outras até com os motivos de Lenços de Namorados, provenientes de Vila Verde.

Embora se estime que os valores no turismo tenham crescido durante o ano de 2018, Abel Pimenta alerta no entanto para uma diminuição em relação ao ano passado, onde terá existido um “boom”.

Tabacaria do Arco é chamariz para turistas (c) FAS / Semanário V

“O que vale é que este ano investi também nestes galos de Barcelos”, refere Abel, enquanto demonstra como faz para vender “perto de 80 por dia” aos turistas.

“O turista entra e eu puxo-o aqui para a beira destes galos. Pego num e começo a dizer que tem esta caraterística e aquela e, quando menos esperam, espeto com o galo no chão”, diz, exemplificando perante a reportagem.

E o galo não quebra. “É feito de outro material que não parte tão facilmente”, revela Abel, insistindo com outros “galos”, de diferente porte, e nenhum quebrou.

“Os turistas adoram isto e só por eu lhes proporcionar a experiência de o atirar para o chão quando não estão à espera deixa-os surpreendidos e querem comprar, nem que seja para fazer o mesmo quando voltarem ao país deles”, explica um confiante Abel que já nem sente a falta de vender jornais.

“Isto acaba por ser uma forma de nos adaptarmos. Quando decidi alterar o modelo da loja, não falei com ninguém. Agi por impulso mas foi porque percebi que algo teria de ser feito e esta é a mudança mais óbvia que me permite ter rentabilidade”, diz Abel, que até está a pensar em outros negócios.

“Podia abrir qualquer coisa mas sempre que aparece uma loja desocupada, passado algumas horas já tem quem a alugue. É um frenesim”, garante, apontando uma loja de frutas que está prestes a fechar.

“Acho que era uma boa ideia investir em fruta da época e diária ali, onde saem os autocarros de turistas, que assim podiam comer logo fruta fresca… é uma ideia de adaptação”, diz, altruísta.

Na Tabacaria do Arco, e fruto das mudanças de Abel Pimenta, o frenesim aumenta quando entram turistas brasileiros, que são os “favoritos” de Abel. “Já quase que só falo brasileiro”, alude, entre risos, revelando que faz alguns jogos com os turistas e por vezes até dá algumas borlas.

“Eu faço uma espécie de jogo interativo com os clientes para que tentem adivinhar alguns enigmas que coloco, e se conseguirem adivinhar, ofereço ou uma toalha ou a segunda peça de um conjunto. Eles adoram e eu passo a constar das recomendações turísticas”, diz, entre risos.

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“Uma vez tive uma turista brasileira que entrou aqui com o marido, olhou para uma toalha muito bonita que aqui tenho, e pediu-lhe para comprar uma para oferecer à mãe dele”, conta Abel, explicando uma de muitas histórias intramuros da tabacaria que considera “caricatas”.

“Depois de ele aceitar ela convenceu-o a comprar uma igual para a mãe dela, porque também iam fazer refeições a casa dela, e ele lá aceitou. Antes de irem embora ela ainda conseguiu convencer o marido a comprar uma terceira toalha, para usarem na própria casa, já que parecia mal as mães terem e eles, que ofereceram, não terem nenhuma”, conta, enquanto recebe um casal de turistas espanhóis, na despedida da reportagem.

“Estão a ver aqui este galo? Vocês podem levar dois ou três e pôr à beira das crianças que às vezes até pegam neles [diz, pegando no galo arremessando-o com violência contra o mosaico do chão] e os atiram assim…”.

Os espanhóis compraram três galos, de diferentes tamanhos, duas toalhas, uma cigarreira feita de sardinha e uma estátua de Santo António com motivos de Lenços de Namorados… e prometeram voltar.

Já no tempo em que estivemos na tabacaria, não apareceu ninguém para comprar um jornal ou pagar a fatura da eletricidade.

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Jornalista