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Vespa asiática está mais agressiva e apicultores começam a sair de Vila Verde

Vespa asiática ronda colmeia protegida por muro de abelhas
Fernando André Silva

Desde meados de agosto que a vespa asiática saiu do ninho em busca de alimento, tendo como alvo preferencial as abelhas, às quais cortam a cabeça e comem o abdómen ainda carregado com néctar.

O problema causado por este tipo de vespa, que chegou a Portugal em 2012 e desde então tem matado um número incontável de abelhas, destruído colmeias e forçado muitos apicultores a abandonarem a profissão.

O Semanário V assistiu à invasão de uma colmeia por parte de dezenas de vespas que, dessa forma, conseguiram invadir o território das abelhas e, por dentro matá-las uma a uma até tomarem conta da ‘caixa’.

A entrada em colmeias por parte das vespas tem vindo a aumentar de ano para ano, havendo ainda quem defenda que as mesmas não conseguiriam entrar.

Como defesa as abelhas criam “cortinas” ou “muros” amontoando-se nas entradas para bloquear a vespa. Este ano, fruto de maior esforço durante o período de recolha de néctar devido à oscilação climática, estão mais enfraquecidas e não conseguem defender as “habitações”.

Veja imagens de vespas a entrar e a sair livremente de uma colmeia tomada.

Apicultores desanimados

Carlos Peixoto, um dos apicultores do concelho com mais colmeias – perto de uma centena – a residir em Gondomar [concelho de Vila Verde], explicou ao Semanário V que este ano as vespas parecem estar mais agressivas e mais desenvolvidas nestes ataques “iniciais”.

“As vespas sairam dos ninhos em fim de agosto e já têm uma dimensão considerável, parecem adultas, quando nos outros anos, por esta altura, ainda eram mais pequenas”, conta, apontando que já matou “mais de 100” nos últimos dias com recurso a armadilhas.

“Vou fazendo estas armadilhas com groselha, vinho, cerveja preta, entre outros compostos, que coloco numa garrafa de água cortada a meio e elas acabam por cair lá”, explica.

Este tipo de vespa, que de há cinco anos para trás não existia em Portugal, constrói os seus ninhos num raio de um quilómetro das colmeias, em árvores de grande porte ou até em apartamentos e postes de eletricidade, e a principal dieta das mesmas consiste em abelhas mas são também canibais, como documentamos em imagem esta tarde, no Norte de Vila Verde.

Vespas ficam à entrada das colmeias à espera das “operárias”

O modus operandi desta vespa consiste em esperar pelas abelhas à entrada da colmeia, de costas para a entrada, fazendo uma posição similar à de um guarda-redes, num jogo desportivo, esperando que alguma abelha regresse carregada de néctar ao ninho.

Quando a abelha se aproxima, a vespa, aproveitando o abdómen mais pesado da abelha por causa do néctar, consegue ser mais ágil e começa por cortar a cabeça com as mandíbulas, removendo depois o abdómen do qual se alimenta, deixando apenas a carcaça.

Todas as colmeias acabam por ter abertura para as abelhas circularem para o exterior, sendo essas aberturas o local mais apetecido pelas vespas. Uma vez que uma vespa entra, apanha uma abelha, e sai, para a comer.

Apesar das abelhas criarem uma “cortina” nessas aberturas, as sucessivas tentativas de entrada por parte das vespas acaba por debilitar as pequenas “guerreiras”, que acabam por sucumbir. Uma vez que a vespa entra, chama outras, que acabam por fazer um verdadeiro “festim”.

Apicultores com quebras de 70% na recolha de mel

“As nossas abelhas ainda não sabem lidar com estas vespas. Quando as pressentem na zona, ficam nervosas e mal querem sair das colmeias, o que faz com que produzam menos”, conta Carlos Peixoto, explicando que reduz as entradas na colmeia ao mínimo porque as abelhas, devido ao medo, estão permanentemente em “modo cortina”.

O apicultor profissional revela que este ano teve um rombo de 70% na produção de mel, assim como outros apicultores da região.

“Estava estimado tirar perto de uma tonelada de mel este ano mas só consegui fazer perto de 400 quilos. Falei com outros apicultores e sentiram a mesma percentagem na quebra”, diz, apontando “o clima e a vespa” como principal motivo para esta quebra.

“Esta quebra foi em grande parte motivada pelas chuvas que atrasaram o desenvolvimento das plantas e as abelhas acabaram por não recolher tanto néctar”, explica, apontando, no entanto, as vespas asiáticas como principal motivo para que já não queira continuar a produzir mel em Vila Verde.

“É complicado. Este ano já me destruíram várias colmeias e ainda só andam à luz do dia há cerca de um mês. Daqui até janeiro, que é quando hibernam, sei lá quantas mais me vão destruir”, explica o apicultor que no próximo ano vai levar algumas colmeias para a região do Douro.

“Vou lá recolher o mel a alguns apicultores e lá não há vespa asiática, pelo menos para já. Estou a pensar levar já umas 20 colmeias no próximo ano e depois vê-se como corre”, adianta Peixoto.

Outro dos problemas causados pelas vespas incide no apodrecimento da fruta. “As vespas têm mandíbulas e conseguem picar a fruta, apodrecendo-a. Estão cada vez em maior número e cada vez atacam mais as fruteiras. Isso acaba por prejudicar os produtores de fruta também”, explica.

Solução passa pelas autarquias locais e pelas próprias abelhas

Segundo Peixoto, a única solução viável de momento passa pelas autarquias locais. Ele que também já foi presidente da extinta freguesia de Gondomar, do concelho de Vila Verde, acredita que se cada junta de freguesia tiver alguém encarregado de identificar e destruir os ninhos, as abelhas podem ser salvas.

“O ano passado dois voluntários acabaram com nove ninhos de vespa asiática e os resultados notaram-se em larga escala. Mas este ano elas já estão aí em força novamente”, refere.

Destruição de ninho de Vespa Asiática em Aboim da Nóbrega, Vila Verde 2017

No Japão, onde esta praga existe há décadas, as abelhas conseguiram adaptar-se e criar uma defesa contra as vespas que entram nas colmeias, que será, até agora, a única forma que elas encontram de conseguir matar uma vespa, que tem o triplo do tamanho, mandíbulas, e um ferrão que dura toda a vida.

As abelhas conseguem subir ou descer a temperatura de uma colmeia de forma natural com o bater de asas e toleram temperaturas até 44º enquanto a vespa morre aos 43º. As abelhas janopenasa aumentam a temperatura da colmeia até que as vespas morram.

“Precisámos que as nossas abelhas aprendam a lidar com as vespas e evoluam até encontrar uma defesa eficaz. Mas quanto tempo será preciso até conseguirem isso?”, questiona Peixoto.

Inserir predadores da vespa-asiática no habitat

São poucos os predadores da vespa asiática na nossa região, o que leva a que não haja nenhum tipo de ameaça para as mesmas. Segundo os apicultores, o Falcão-Vespeiro é um desses predadores e alguns já foram avistados no Gerês.

Estas aves de rapina de asa com 130 centímetros alimenta as crias sobretudo com ninhos, larvas e adultos de vespas e abelhas e migram para o nosso país durante o tempo quente, regressando a África no final do verão.

“Eles comem vespas e se calhar era uma boa ideia introduzir mais dessa espécie, mas com isto da natureza nunca se sabe muito bem o que pode acontecer porque eles também comem abelhas”, finaliza Carlos Peixoto.

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Fernando André Silva

Jornalista