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Braga, Vila Verde e Amares. Quando o socorro não tem fronteiras

Fernando André Silva

Juntámos elementos de comando dos bombeiros de Braga, Vila Verde e Amares, para questionar sobre as emergências levadas a cabo entre os três concelhos.

No aeródromo de Palmeira, após vários pedidos de autorização de diversas entidades, conseguimos perceber o que leva a que uma ambulância tenha de entrar no concelho vizinho para prestar socorro, até mesmo quando esse concelho tem lá uma ambulância parada.

João Felgueiras, comandante da Companhia de Bombeiros Sapadores de Braga, é perentório ao afirmar que “não há nenhum país no mundo que tenha uma ambulância ou um bombeiro para cada habitante”.

Segundo o comandante da única companhia de bombeiros da região que é investimento total de um município [Câmara de Braga] a emergência não tem fronteiras e o socorro é gerido pelo sistema integrado de emergência médica o que leva a que todas as corporações com ambulâncias do INEM estejam sujeitas àquela gestão externa.

“Não temos, de momento, hipótese de ter mais meios e essas situações são geridas exteriormente. Quando há um concelho sem meios disponíveis, avançam outros corpos de bombeiros”

Se Braga tem meios suficientes para assegurar o socorro no concelho, o comandante responde com um pedido de elaboração de um estudo sobre o crescimento da população de Braga durante alguns períodos do ano.

“Devia ser feito um estudo porque o concelho de Braga tem quase 200 mil habitantes e apenas 7 ambulâncias de emergência pré-hospitalar, duas em cada corporação e mais três do INEM, que não chegam. Há várias situações em que estão todas empenhadas e os concelhos limitrófes vêm cá. Devia ser feito um estudo para perceber se os meios que temos são suficientes”, vinca.

Domingos Ferreira, Luís Morais, António Cerqueira e João Felgueiras

Já António Cerqueira, comandante dos Bombeiros Voluntários de Braga, explica que, sempre que solicitado pelo Comando Distrital de Operações e Socorro (CODU), o corpo de voluntários sai do concelho, mas revela que existe uma comunicação “informal” com os outros comandantes para que não exista um mal entendido.

“Quando há outras situações ligamos ao comandante, perguntamos se precisa de mais meios, há sempre esta cordialidade no sentido de não entrarmos no território que não é nosso”, explica, mostrando também algum “desconforto” por alguns “erros” do INEM quando “despacham” serviços.

“Vamos várias vezes a Amares e Vila Verde como eles vêm cá, muitas vezes por necessidade mas também por erro do próprio INEM, porque não conseguem localizar os respetivos meios de uma forma assertiva”, explica, contando que “algumas vezes” existem acidentes perto do quartel dos BVB e passam os Sapadores ou Vila Verde. “Nós não sabemos quando isso acontece porque é ativiado pelo CODU e se nos perguntam, por vezes não temos uma resposta”, explica.

Luís Morais, segundo-comandante dos Bombeiros de Vila Verde (BVVV) recorda até um episódio onde os Bombeiros de Vila Verde foram ativados para uma emergência no Centro de Saúde de Braga, em frente ao quartel dos BVB.

“A minha malta prestou uma emergência em frente aos BVB enquanto lá estavam elementos daquela corporação, de quem são amigos, a olhar. Isso prova que há uma descoordenação do CODU no que toca ao mapa”, diz Morais.

“Eles tinham ambulâncias disponíveis, não falaram com eles e mandaram-nos a nós, ali, a poucos metros do quartel deles. Eu sei que a decisão tem de ser rápida, mas se não está a resultar, há que reavaliar”.

“Nenhum de nós quer mal aos outros, há respeito, mas é inexplicável como uma ambulância nossa vai lá e eles à porta a olhar para nós. Isso não pode acontecer”, reforça.

Já Domingos Ferreira, comandante-adjunto dos Bombeiros Voluntários de Amares, fala ainda de outra questão que “prejudica” a imagem dos bombeiros.

“Nem sempre temos meios disponíveis e quando recusamos um serviço por esse motivo, o INEM começa a fazer ronda por vários corpos para encontrar alguém. Acontece que muitas vezes não conseguem e entram novamente em contacto connosco numa altura em que já se encontra um meio disponível. Ativamos para o local e quando lá chegamos somos insultados por demorarmos mais tempo do que o pretendido”, diz o adjunto, pedindo compreensão às pessoas.

“As pessoas descarregam em cima da equipa que está na ambulância quando lá chega, mas essa equipa saiu quando teve informação para sair. Sei que no desespero a paciência não é a melhor, mas para salvar é preciso chegar”.

“Temos 30% do socorro nos concelhos vizinhos, nada mais nem menos mas compreendemos a realidade disso. Somos visitados, somos visitantes e há uma coisa que gostava de falar. O socorro não parte de nós, parte de quem nos coordena, o INEM, e há uma falta de respeito pelos corpos de bombeiros. Se a nível de incêndios, o CDOS avisa, no socorro isso não existe. Quantas vezes vou a Braga e estão lá os carros deles parados. É revoltante chegar ao quartel e o bombeiro dizer ‘fui para Braga e estavam lá os carros deles’, e o comandante de Braga nem sabe, diz Domingos Ferreira.

Segundo aquele comandante-adjunto, embora as corporações de Braga também o sintam, Amares e Vila Verde estão numa realidade diferente, “porque se dissermos que não temos meio, julgam-nos por tudo e por nada enquanto noutras realidades as pessoas admitem que se pode socorrer noutros concelhos”.

Domingos Ferreira fala ainda de uma situação que aconteceu com um dos decisores do INEM que decidiu “castigar” um comandante de quem não gostava. “Certos telefonistas, se não gostassem do comandante, chamavam outras corporações. Isto era assim, mas agora já não acontece, porque uma das pessoas que lá estava foi avisada e deixou de o fazer”, aponta o adjunto.

Domingos Ferreira, Luís Morais, António Cerqueira e João Felgueiras

Caos em Braga às segundas-feiras

Uma das constatações a que o Semanário V chegou após anos a acompanhar as corporações de bombeiros da região foi a de que Braga, à hora de almoço, tem menos meios disponíveis. João Felgueiras [Sapadores] explica que isso acontece mais à segunda-feira e durante todo o dia, que habitualmente é “o pico da emergência pré-hospitalar em Braga”.

Domingos Ferreira [BVA] aponta responsabilidades à gestão do CODU e do Hospital de Braga. “Não estou muito de acordo como somos solicitados a nível de CODU, porque as ambulâncias estão paradas nos hospitais e isso retira-nos meios. Assisto a isso todos os dias quando lá vou. Os bombeiros não podem jantar ou almoçar. Os do INEM [duas ambulâncias localizadas no Hospital de Braga] param uma ou duas horas para almoçar. Os nossos operacionais ficam lá, estão à espera até final da hora de almoço e é menos um condutor e menos uma viatura para socorro no nosso concelho. Somos um parente pobre do INEM”, atira.

Também Luís Morais [BVVV] aponta críticas à gestão das ambulâncias quando chegam às urgências do hospital. “Sentimos desespero do CODU quando roda as corporações à procura de uma ambulância disponível mas o Hospital de Braga também tem responsabilidades. Nem sempre tem o bom senso de libertar ambulâncias mesmo quando temos noção de que os doentes que lá estão não carecem que fiquemos lá. Quando lá estão 8 ambulâncias, são 8 que não circulam porque ficam à espera nas urgências. Isto acontece no pico da gripe e acontece no verão porque não há uma resposta tão rápida no hospital.

“Acho que o próprio hospital devia perceber que há demasiadas ambulâncias paradas no parque, e que geralmente são as destes três concelhos, e deviam libertar”.

“Percebo a angústia das pessoas mas a partir do momento em que não há disponibilidade de meios, seja do INEM ou os das próprias corporações, é importante que a população perceba que há investimento das associações e do município para prestar serviços mas há dias em que se tivéssemos 20 ambulâncias no conjunto, não chegariam”, explica Luís Morais.

“A deslocação de meios para outros concelhos vai sempre no sentido de colaborar, ajudar e resolver uma questão que momentaneamente a area local não consegue. Em Vila Verde temos menos habitantes, mas temos 40% de idosos, ainda para mais numa zona díspar e com cada emergência a demorar no mínimo uma hora, a correr muito bem”, explica ainda o comandante de Vila Verde.

Socorro nas autoestradas

Já no que diz respeito ao socorro em autoestrada, sendo frequento ver Braga fora do concelho, há um plano prévio, em função das entradas das autoestradas, onde cada corpo de bombeiros tem atuação. “Braga atua na A3 até à saída de Anais, em Ponte de Lima. Se fosse o corpo de bombeiros de lá teria de ir a Braga primeiro dar a volta”, explica o comandante dos Sapadores de Braga, revelando que “depende do sentido”. “Famalicão vem até Braga na A3, por exemplo”, revela.

“Por exemplo, tivemos uma emergência em Ponte de Lima que foi necessário levar para o Hospital de Viana e ficamos sem os meios durante duas horas com esta situação”, diz João Felgueiras.

Já Luís Morais [BVVV] recorda que o último grande acidente na A3, em Guimarães, “ninguém se preocupou que fosse Braga e Vila Verde socorrer”. “Queriam era ser socorridos. Ninguém questionou porque foi Amares, Braga e Vila Verde? Não, esse era o plano para ir ao acidente e assim foi e as pessoas foram assistidas”, diz, explicando que “todos os bombeiros depois de entrar num veiculo para prestar socorro,seja onde for, vão dar o seu melhor e isso que fique ciente pela população. Eles saem quando são solicitados. Se nos pediram mais tarde, a culpa não é nossa”, aponta Luís Morais.

Reparações passaram a ser feitas em oficinas do INEM

Outra das preocupações dos elementos de comando passa pelas reparações das ambulâncias do INEM, que estão agora sujeitas a deslocações ao Porto e por vezes até Coimbra, caso não haja disponibilidade, o que leva a que se percam meios para o socorro.

Domingos Ferreira [BVA] é o mais crítico a esta situação. “É uma única empresa que agora gere a reparação de 700 veículos do INEM. Ou somos sérios ou não somos. Se confiam nos bombeiros para combater incêndios também deviam confiar para reparar as ambulâncias. É que se precisar de mudar uma lâmpada na ambulância INEM temos de levar para a oficina delineada por essa empresa. É de loucos”, atira.

“Se um veiculo ficar inoperacional, ainda vão pensar para onde enviar. Uma vez mandaram para Gaia. Perdi um homem e um veiculo durante um dia. E depois querem meios? Antigamente reparávamos nas oficinas locais, nós até levávamos à marca Mercedes. Agora é menos um veículo todo o dia no quartel. Mas não se admite perder um dia no Porto, combustível, que ninguém o paga e um veículo que não o temos. Pensava-se antes de fazer as coisas. Se for em Amares, poupa-se em tudo”, atira.

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Fernando André Silva

Jornalista