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Vila Verde. “Nunca fui à escola e perdi tudo por não saber ler”

Laurinda de Araújo e Sousa, na Ermida, Vila Verde c) FAS / Semanário V
Fernando André Silva

Lugar da Ermida, Freguesia de Rio Mau, União de Freguesias de Ribeira do Neiva, concelho de Vila Verde quem vai para Ponte de Lima pelo Ângulo 40. Chegar lá não é fácil, e que o digam os Bombeiro de Vila Verde, embora os caminhos estreitos e sinuosos estejam devidamente pavimentados.

Junto à Capela de São Bento da Ermida, local de romaria em altura de festas religiosas, Laurinda de Araújo e Sousa e Joaquim da Costa Araújo trocam impressões.

Largo do São Bento da Ermida

Como Joaquim, pelo menos dez outros residentes no lugar da Ermida, com perto de 50 habitantes, nunca foi à escola ou teve aulas em casa. Todos têm mais de 70 anos.

“Eu podia ter ido à escola, só não fui porque tive de sair de casa aos 13 meses para viver com os meus avós” – Joaquim

“Uns saíam aos 13 anos e eu saí aos 13 meses, está a ouvir? Depois na idade da escola podia ter ido, mas ninguém me meteu e entretanto tive muitos irmãos. Já não valia a pena”, desabafa, atrás do cajado e de um sorriso humilde.

“Mas olhe que isso para mim nunca foi problema. A minha escola foi levar as ovelhas a pastar no monte. Isso é que foram cá umas aulas”, acrescenta com uma gargalhada, enquanto abandona o local por insistência do rebanho que anseia por pasto. “Não sei ler mas tenho quatro casas e a minha neta está a construir outra em Ponte de Lima”, atira, já em modo pastoreio e a alguns metros de distância.

Perto de 50 pessoas vivem na Ermida

“A minha escola foi roçar mato e cortar paus no monte”

Laurinda, por outro lado, não encara o analfabetismo da mesma forma “ligeira” de Joaquim. “A minha escola foi roçar mato e cortar paus no monte. Construir muros em valados. Essa foi a minha escola”, diz a mulher de 83 anos. “E meio. 83 anos e meio que essa metade é importante”, salienta uma meticulosa Laurinda, que pelos números deixa escapar a mágoa de quem nunca aprendeu a escrever ou a ler.

Laurinda de Araújo e Sousa, na Ermida, Vila Verde c) FAS / Semanário V

“Os meus pais nunca me mandaram à escola. Nem a mim nem às minhas duas irmãs, que ainda aqui vivem. Também tive outro irmão que nunca aprendeu, mas esse já morreu” – Laurinda

Laurinda sempre residiu na Ermida onde, enquanto o corpo quis, viveu do que o monte lhe deu “toda a vida”. Local agreste, com mais pasto selvagem do que cultivado, o gado acabou por ser a companhia de uma ainda jovem Laurinda com sonhos e vivências que nunca saíram de junto dos montes perto da capelinha branca que dá nome aquele lugar.

“A maior parte das pessoas da minha idade não foram à escola. Mas não são só as daqui. Ali em Gondinho também tem muita gente que não sabe ler. E na Ribeira do Neiva”, diz.

Questionada se “perdeu muito” por não saber ler, Laurinda emite um som de espanto enquanto leva as mãos à cabeça. “Jesus… Isso nem se discute. Perdi tudo! Tomara eu saber ler… Era o que eu mais queria na vida. Perdi tudo por não saber ler”, diz, não no sentido material do “tudo”, mas de alguém que nunca teve liberdade e independência em plenitude fruto da não-escolaridade.

“Estou no meu juízo mas as outras pessoas é que me têm de dizer as coisas porque senão eu não sei” – Laurinda

“A minha filha é que me vale, ela é que me trata dos remédios e é quem vai comigo a Vila Verde ou a Braga porque eu não sei ler as placas e perco-me”, diz Laurinda, lamentando que, agora na reforma, não tenha ninguém que ajude a ler.

“Agora já não estou nova mas também nunca ninguém se interessou. Aqui não vem ninguém, nem a Câmara nem a Junta, ninguém nos ajuda em nada”, diz Laurinda, enquanto aponta para o vale do Neiva. “Aqui nem se pode viver. Se não fosse a reforma como é que eu ia conseguir viver aqui?”, questiona, lamentando o isolamento daquele local.

Antes de regressar a casa, Laurinda garante “estar com o juízo todo” e “por perceber que fazia falta” é que, há 50 anos, mandou as duas filhas para a escola, que hoje são “os olhos” que lhe valem.

Nota – Alguns exemplares da edição impressa do Semanário V, devidamente ensacados, estão disponíveis junto à capela da Ermida para os 90 % de residentes que sabem ler. Caso alguém possa ler para os restantes 10%, nós agradecemos.

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Jornalista