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66 anos depois, o soldado 310 regressa ao antigo quartel de artilharia

Ano de 1952. A Europa ergue-se dos destroços da II Guerra Mundial enquanto Portugal acaba de aderir à NATO.

Em Montalegre, um jovem aspirante a carpinteiro é chamado para cumprir o serviço militar obrigatório. Destino? Forte de Santiago da Barra, em Viana do Castelo, que alojava na altura o Regimento de Artilharia N.º 5 do Exército Português.

Durante 19 meses Manuel Afonso conduziu mulas para levar boca de fogo de artilharia [obus] ao alto do monte de Santa Luzia, missão dos soldados que viviam na ânsia de um eminente ataque das forças rebeldes, durante a Guerra Civil Espanhola. Sem ânimo, sem comer e sem vontade nenhuma de continuar no exército, regressou à aldeia transmontana de Paradela do Rio em 1952, e não mais voltou ao antigo quartel.

Manuel Afonso no Forte de Santiago, em Viana c) FAS / Semanário V

Este sábado, e depois de uma primeira tentativa gorada no mês de agosto, um dos filhos cumpriu uma vontade que foi crescendo recentemente no antigo soldado 310, que, agora com 88 anos e já “à rasca para andar”, achou que seria a altura ideal para recordar os tempos em que comia pão com bolor que nem as mulas que carregavam os canhões para o monte os conseguiam comer.

“Está tudo mudado!”, exclama enquanto entra pela grande arcada do forte que outrora foi um castelo medieval. Dos anos 50, mantém-se a muralha, intacta com as guaritas de vigia, os baluartes. De resto, aponta que a maior parte dos edifícios são novos e não estavam lá naquele tempo. “Este terraço onde assentávamos praça era todo em terra. Todo o local era em terra, mas agora tem estas pedras antigas que parece que estiveram sempre aqui”, refere Manuel Afonso.

Com algum custo, mas sempre com vontade de percorrer todo o forte, o antigo soldado conta como as águas do Atlântico que invadiam a foz do Lima batiam com estrondo contras as muralhas do forte durante as duas horas de vigia. “Ficávamos aqui duas horas seguidas cada um e ninguém queria vir para cá quando estava tempestade no mar. As águas batiam aqui com uma força e entravam pela guarita adentro, ficávamos gelados. Era uma miséria”, aponta.

Manuel conta que a guarita ao lado dos estaleiros era a pior devido ao barulho e à força do mar c) FAS / Semanário V

“Fome e trabalho”

Manuel Afonso confessa que não tem saudades desses tempos, aos quais apelida de “tempo de fome e trabalho”. Mas confessa que gostava de visitar o local, não tanto pelas recordações, mas para cumprir mais um marco na vida, o de regressar a um local que não lhe traz boas recordações.

“Só estive com dois ou três antigos colegas militares desde que saí do exército. Nós éramos obrigados a estar ali e no nosso tempo não se criou aquela camaradagem como os da I Guerra Mundial ou os do Ultramar”, explica, contando que, embora tenha cumprido o serviço militar numa altura em que o país entrou numa década de paz, os treinos a levar as mulas para o monte conseguiam ser bastante duros.

A visita foi preparada por um filho de Manuel Afonso c) FAS / Semanário V

“Passávamos tanta fome por aqueles montes acima. Agora há estas estradas que levam lá acima mas naquele tempo tínhamos de abrir pelo mato, por isso é que tínhamos de levar os obus puxados pelas mulas”, conta.

Manuel Afonso regressou a Montalegre onde sempre trabalhou nas artes manuais, com especial incidência na arte da carpintaria. Já em fins da década de 1960, o Regimento de Artilharia Ligeira n.º 5 foi transferido para Penafiel, que terá sido das últimas vezes que o antigo soldado 310 voltou a ouvir falar do antigo quartel.

Atualmente as dependências do Forte de Santiago da Barra abrigam a sede da Região de Turismo do Alto Minho, compreendendo um centro de congressos. “É a modernidade”, vinca um nostálgico soldado enquanto troca impressões com um grupo de perto de 50 turistas, vindos de Oeiras. “Agora, que não se respira à guerra e à fome, é mais fácil estar aqui”, termina.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista