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Mestre argentino arrebatou Braga no Dia Mundial da Música. Crítica de Artur Caldeira

Redação
Escrito por Redação

Celebra-se a 1 de outubro, o Dia Mundial da Música, tendo o evento sido instaurado em 1975 pelo International Music Council, uma instituição integrante da UNESCO que incorpora diversos organismos e personalidades do universo musical. Através da universalidade da linguagem musical, pretende-se incrementar ideais intrínsecos à missão da própria UNESCO como a paz e a amizade entre os povos numa perspectiva de evolução cultural; é igualmente objectivo difundir a diversidade musical nas várias esferas da sociedade, mas sempre numa vertente de Música enquanto comunicação e Arte, enquanto Cultura. Meditar sobre isto é extremamente importante porquanto na actualidade se confunde constantemente Cultura com mero entretenimento, onde a embalagem é continuamente mais apreciada do que o conteúdo…

Comemorar esta importante data com um recital de guitarra é um acto corajoso. Não obstante ser este instrumento um dos mais universais e transversal a imensas linguagens musicais, é amiúde conotado com salas e públicos de menor dimensão do que os pretendidos numa celebração desta natureza. A edilidade bracarense está de parabéns nesta aposta pois o recital de Eduardo Isaac veio claramente provar o contrário.

Nos últimos tempos, Braga tem construído e cativado um público interessado nos concertos e recitais de guitarra, não sendo esta constatação alheia ao trabalho desenvolvido pelo director artístico do Festival Internacional de Guitarra que se realiza anualmente nesta cidade. Interessante seria procurar desenvolver o evento, dando-lhe a dimensão com que a terceira cidade do país obstinadamente se pretende mostrar e agregando esforços de quem pretende contribuir com experiência antes adquirida, que mais não seria do que colocar em prática os valores preconizados na criação do Dia Mundial da Música.

Passado este preâmbulo, importa de imediato salientar a enorme afluência de público que lotou o auditório do Espaço Vita. O facto de terem sido recusadas entradas a largas dezenas de interessados (os bilhetes adquiriam-se por reserva antecipada tendo esgotado alguns dias antes) leva a pensar que teria sido possível optar pela sala mais nobre da cidade, o Theatro Circo, até pelas mais adequadas condições acústicas e estéticas deste espaço.

Eduardo Isaac é um Músico (não apenas um guitarrista) reconhecido. Influenciado por uma estética técnico-artística que tem Andrés Segóvia como principal referência, é dono de uma sonoridade pujante e “colorida” que ultrapassa o conceito mono-tímbrico hoje mais normalizado e adoptado por largo número de guitarristas. A emotividade que entrega a cada nota salienta a personalidade de quem, tendo escolhido a guitarra para se expressar, sugere momentos orquestrais, como o canto violoncelístico nas cordas mais graves, a acutilância de uma secção de metais em notas mais agudas ou as manifestas acentuações rítmicas mais percussivas.

Evidentemente não se pode esperar que um intérprete com esta personalidade musical realize o que apelidamos de execução “isenta” ou “limpa”. Refiro-me a ruídos mecânicos de execução que são mais naturais em quem procura sem receio o melhor resultado dinâmico e expressivo não se contentando com as fronteiras físicas da guitarra. Note-se que, pelo facto de este auditório não estar dotado com as adequadas condições acústicas que um recital de guitarra merece, a amplificação impunha-se. No meu entender, a equipa técnica do auditório esteve bem, conseguindo colocar “cá fora” a sonoridade deste belo instrumento catalão construído no Taller Santiago de Cecília, em Barcelona e recriando alguma da atmosfera reverberante de que a guitarra tanto gosta. Todavia, passámos a ouvir o instrumento através de um sistema de som que transmite o que um microfone capta a 30 centímetros da guitarra, ou seja, como se os nossos ouvidos se posicionassem a essa distância do instrumento…

Andrés Segóvia teve, entre outros desígnios, o mérito de atrair à guitarra importantes compositores não guitarristas, aumentando o espectro de repertório deste instrumento. Isaac salientou isso mesmo ao dedicar a primeira parte deste recital ao repertório segoviano. A energia do guitarrista argentino deu-se a conhecer de imediato nas obras de Torroba, sobretudo em Madroños, onde todo o nacionalismo do compositor madrileno é declarado, numa escrita enérgica e virtuosa que elogia a guitarra.

Mário Castelnuovo-Tedesco, nascido em Florença em 1895, foi um profícuo compositor cuja obra inclui música para cinema composta em Hollywood, tendo-se radicado em Los Angeles, fugido de uma guerra que perseguia a sua origem judaica. Compôs imensas obras para guitarra (solo e com diversas outras formações), grande parte delas dedicadas a Segóvia. Eduardo Isaac continuou a homenagear o Marquês de Salobreña com o Rondó op. 129 e La Primavera (fragmento extraído da obra Platero Y Yo, baseada no livro homónimo do nobel Juan Ramón Jiménez), sabendo apresentar-nos o lirismo da linguagem de Tedesco ao explorar as capacidades tímbricas do cordofone.

Em Elogio de La Guitarra de Joaquín Rodrigo, assistimos de novo a um entusiasmante intérprete que, após utilizar no andamento lento toda a capacidade de legato que a guitarra permite, irrompe com uma energia esfuziante num Allegro pleno de vivacidade e energia rítmica.

Penso ser óbvia a relevância da opção programática de Eduardo Isaac para este recital, sobretudo em função dos objectivos inerentes à data celebrada. E sendo o Mestre natural da Argentina, vivendo numa região que partilha com o Brasil o imenso rio Paraná, adivinhava-se a inclusão de obras inspiradas em linguagens autóctones destas regiões, nas quais se mostrou profundamente conhecedor nomeadamente dos inevitáveis “sabores” rítmicos. Assim, a segunda parte, preenchida pelas Paisajes de Carlos Aguirre, Duas Peças Brasileiras de Marco Pereira e Valsas e Tangos e Milongas de Piazzolla, Gardel, Binelli e Plaza, deu ao público a possibilidade de conhecer um concertista multifacetado, emotivo, intuitivo, criativo, bastante à frente do conceito tradicionalista de “guitarrista clássico”, antes um verdadeiro Músico do Mundo. Saliente-se também a forma afável com que sempre se dirigiu ao público, descrevendo de forma clara e sucinta as obras apresentadas.

Finalizou-se esta comemoração com a entrega de diplomas referentes às participações na Classe Magistral ministrada por Isaac durante os dias que antecederam o recital. O Mestre referiu com agrado o excelente nível dos jovens participantes tecendo elogios aos mesmos e aos seus docentes. Agradeceu ainda ao promotor (Câmara Municipal de Braga) e à organização e direcção artística (respectivamente KLAV e Litó Godinho) do evento (já o havia feito num intervalo entre duas obras).

Em resumo, tratou-se de um evento de qualidades artística e cultural elevadas, bem organizado e com enorme afluência de público.

Artur Caldeira (Músico – Professor)

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