Destaque Vila Verde

Vila Verde. Milho voltou a ser o rei da festa em Oriz São Miguel

Oriz S. Miguel voltou a fazer uma desfolhada e malhada de milho como manda a tradição. Pelo meio, juntou-se o habitual Festival de Broa de Milho confecionada pelas mulheres da terra que não esconderam, por um segundo, o gosto pela cozinha tradicional. A iniciativa decorreu no passado sábado (20 de outubro), nas imediações da Escola Primária de Oriz S. Miguel, por volta das 15h, com várias pessoas cheias de vontade de mostrara que a tradição ainda está bem viva e sem medo de usar a força dos braços para tirar da planta do milho a espiga com o tão desejado cereal.

O presidente ACRD de Oriz S. Miguel, Mário Fernandes, revelou-se bastante satisfeito com o evento, apesar de o programa ter sofrido algumas alterações por motivos de força maior. Prossegue frisando a importância de preservar estas práticas, que além de promoverem a cultura popular também têm contribuído para a divulgação das freguesias e do concelho. “Vamos continuar a manter as tradições aqui da nossa zona, como faziam os nossos pais. Nós aqui no Vale do Homem penso que estamos bem inseridos, bem projetados. Sabariz com o Caldo do Pote, Lanhas com os Carrinhos de Rolamentos, Coucieiro tem as papas de sarrabulho e nós temos desfolhada/malhada e a broa e, depois, o S. Martinho de Valbom tem a sardinhada. A nossa zona é paisagisticamente muito bonita, por isso vamos sempre tentar desenvolvê-la”, afirma Mário de forma orgulhosa e com um brilho nos olhos.

Milho, o rei da festa em Oriz S. Miguel!

O tempo é de outono, mas o sol quente e o céu limpo que se fizeram sentir na tarde de sábado, em Oriz, ajudaram os participantes da desfolhada e malhada de milho a viver os tempos antigos com o mesmo ânimo. O ciclo do trabalho começou com o corte das canas de milho e várias pessoas de foucinha na mão, enquanto outros apanhavam as canas para o carrinho de bois. As mulheres, vestidas com adereços alusivos ao mundo rural, estavam empenhadas e foi num abrir e fechar de olhos que terminaram a tarefa. Os homens acabaram por fazer o trabalho mais duro e carregar o material para o carro de madeira puxado por uma junta de bois até à eira improvisada onde se realizaria a desfolhada. A recriação agrícola ancestral atraiu praticamente toda a gente que estava pelo recinto e, aos poucos e poucos, apareciam mais pessoas para participar. Nem as crianças ficaram de fora. A tradição cumpriu-se nos moldes de antigamente e não faltou o vinho tinto verde chegou em malgas para repor as energias daqueles que estavam a trabalhar e não só. O convívio alegre estava à vista e os cestos de palha não paravam de ganhar peso com as espigas douradas.

Manuel Silva é natural de Oriz e todos os anos faz questão de ir à iniciativa. O participante fez o corte do milho e a desfolhada de milho com boa disposição e chega a dizer que é um trabalho que não se desaprende, “é como andar de bicicleta, fica sempre!”. Manuel Silva recorda com saudade os tempos idos, mas garante que em Oriz a tradição ainda é o que era. “Sou dos tempos antigos. Desde os meus 16 anos que a minha vida passa por isto. Temos aqui as nossas raízes e as nossas boas lembranças, muito boas lembranças. Tudo foi feito como antigamente, trouxemos as vacas com o milho no carrinho e hoje já não se faz isso. Mas nós queremos mesmo manter a tradição. Não podemos deixar morrer”, remata o trabalhador. Entretanto, outros homens davam forma à corpulenta meda de palha e as mulheres estavam na cozinha improvisada a fazer uma merenda farta. O caldo à lavrador fazia-se num pote de ferro colocado diretamente sobre o lume de uma fogueira, as pataniscas e os tacos de bacalhau fritavam no óleo quente e o forno de lenha preparava-se para cozer onze broas de milho caseiras.

Confecionar uma broa caseira ‘passo a passo’

Maria Ferreira era uma das senhoras que estava de volta da massa da broa de milho e sempre com um sorriso de orelha a orelha. “Desde que isto acontece, vim sempre! Comecei a cozer o pão com onze anos. A minha mãe ficou doente e eu aprendi com ela. Fui na maré…também havia a necessidade. Mas gosto muito!”, conta a cozinheira, recordando como surgiu o gosto pela atividade. Depois, Maria Ferreira explica como se faz o pão à moda antiga e deixa claro que é praticamente tudo caseiro: “Eu meto farinha milha, farinha centeia e farinha triga. Fermento na noite anterior, fica a levedar e no outro dia, junto as farinhas todas e depois meto o fermento e amasso. Fica a levedar mais um bocado e depois vai para o forno de lenha. É quase tudo caseiro e as pessoas cá da terra dizem que gostam muito”. Mais para o final, deu-se início à tradicional malhada com a presença dos malhos e os engaços de madeira. Depois, tempo para a degustação das iguarias regionais. As mesas estavam repletas de sabores gastronómicos de excelência, a que se juntaram as broas de milho quentinhas e o bom vinho regional a acompanhar.

A Desfolhada/Malhada do Milho com Festival da Broa de Milho é uma iniciativa consolidada na agenda cultural da freguesia e, mais uma vez, foi organizada pela ACRD de Oriz S. Miguel. É também uma das atividades que faz parte da programação turístico-cultural Na Rota das Colheitas, do Município de Vila Verde, que procura promover e divulgar a tradição minhota e preservar os valores do mundo rural. A Rota continua no próximo fim de semana, de 26 a 28 de outubro, com as Feiras Novas do Pico de Regalados.

Comentários

Acerca do autor

Redação

Redação