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Juntámos Tiago Sá e Pe. Sandro em Vila Verde para falar do Braga

Tiago Sá e Pe. Sandro (c) Luís Ribeiro / Semanário V
Fernando André Silva

Tiago Sá, de 23 anos, vive um “pico” na carreira como futebolista, ao ter assumido a titularidade da baliza do Sporting Clube (SC) de Braga nos jogos do campeonato nacional da I Liga. Ao Semanário V, o jovem guardião de Moure, Vila Verde, que entrou para a formação do clube aos 10 anos, revela que passou 4 anos a preparar-se para este momento, ainda na equipa B e que contou com a ajuda de muitas pessoas para conseguir chegar aonde se encontra agora. Uma dessas pessoas foi o seu pároco em Moure, Sandro Vasconcelos, que também participou nesta entrevista.

Encontramo-nos com Tiago Sá no centro de Vila Verde, a pedido do próprio. Chegado à Praça da República, escolhemos um dos muitos bancos disponíveis onde Tiago também costumava sentar em criança. E foi dessa perspetiva que partimos para uma conversa de uma hora onde fiámos a saber mais do único jogador da região de Braga que atua no plantel principal do clube. “Quis dar aqui a entrevista porque é a minha terra. Cresci em Moure e nunca vivi noutro sítio, estive sempre em casa dos meus pais. Vila Verde também me diz muito porque sou daqui. Fiz os estudos em Braga mas nunca perdi a ligação aqui. Frequento muito a vila, passo muitas horas em Braga porque trabalho e treino lá, mas sempre que posso estou algum tempo em Vila Verde”, confessa, revelando um pouco do percurso futebolístico.

Tiago Sá e Pe. Sandro (c) Luís Ribeiro / Semanário V

“Estou no Braga desde os 10 anos. Joguei no Prado alguns meses mas acabei por entrar para as escolinhas. No início era avançado, mas o nosso guarda-redes deixou de aparecer e começamos a ir um de cada vez à baliza. Comecei a aguentar-me, e logo ao fim de dois meses de lá estar, pedi para ir para guarda-redes e nunca mais mudei. Acho que ganhou-se um guarda-redes porque se eu continuasse como avançado não estava a dar esta entrevista, de certeza”, brinca Tiago, explicando que a proximidade entre Braga e Vila Verde ajudou a que vingasse no clube.

“A proximidade entre Braga e Vila Verde ajuda muito, até porque antigamente não tínhamos nenhum clube aqui perto com a mesma dimensão, só mesmo no Porto, e agora, com a Academia, as condições estão a 10 minutos de Vila Verde onde temos um centro de treinos ao nível dos melhores do país e até da Europa. Está uma obra brutal a academia do Braga”, refere o craque que mantém o registo e quatro jogos e apenas um golo sofrido na corrente temporada.

Questionado se o objetivo foi sempre ser jogador, Tiago confessa que “não”. “Quando comecei nas escolinhas não pensava em nada disso. É um sonho de todos os miúdos que gostam de futebol, mas na altura era algo que eu nem sequer pensava porque era muito difícil. Quando passei para os Iniciados A, com 15 anos, o campeonato já era nacional e eu evolui muito e foi ai que percebi que podia ser profissional”, refere.

“Nessa época passei dos inicados B para os A, evolui, deixei de jogar na região e passei a jogar nacional. Assinei o primeiro contrato de formação e percebi que podia se tornar sério. Comecei a ser chamado à seleção nos juvenis, e comecei a treinar com plantel principal do Braga, também nos juvenis”, vinca.

Tiago Sá (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Não aconteceu tudo “tão depressa”

No início desta época, após a lesão do guarda-redes titular Matheus, Tiago Sá soube pouco tempo antes que iria jogar a titular frente ao Chaves. A partir desse jogo, agarrou a titularidade nos jogos do campeonato, ficando os jogos da Taça entregues ao colega Marafona. “Agora fala-se mais de mim, estou com mais exposição nos últimos dois meses, mas já estou a preparar isto há quatro anos, que foi o tempo que estive na Equipa B como sénior para chegar à A e afirmar-me como titular.”, revela, confessando que era “o objetivo de há pelo menos quatro anos”. “Quem está de fora pode achar que é tudo muito rápido, por causa da lesão do Matheus, mas só a oportunidade de jogar é que foi rápida, porque a preparação foi contínua nos últimos anos”, confessa, revelando que teve de ser forte psicologicamente para aguentar 4 anos numa equipa B.

“Alguns atletas desistem nessa fase de preparação mas sempre achei que sou forte psicologicamente e é nessas alturas que os jogadores têm de perceber o que é bom para a equipa e não só a prespetiva do jogador. Acreditei sempre que jogar na equipa B era uma mais valia para mim, porque eu tinha qualidade. Tinha a certeza disso. Alguns amigos diziam-me para sair mas eu sempre disse que se isso tivesse que acontecer, acontecia, mas acreditava que ia chegar onde estou hoje. Confesso que tive dúvidas mas agora consigo perceber a importância de não ter parado de competir numa liga nacional competitiva, que prepara bem os jogadores para a liga principal. Na verdade, só agora é que vejo a importância desses anos, e tudo o que aprendi”, vinca Tiago.

É importante ter força psicológica”, diz o guardião, confessando que “sentia isso quando era mais novo, em comparação aos colegas na escola”. “Sempre fui um miudo responsável, sem grandes problemas durante a infância, e sempre senti que um miúdo que tenha regras, horários, planos de treino, tudo aquilo que acarreta jogar num cllube como o Braga, atinge maturidade mais rapidamente que os colegas de escola, sobretudo pela responsabilidade”, explica Tiago.

Pe. Sandro (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Sou pároco do Tiago há 18 anos

“Sou pároco do Tiago há 18 anos”, começa por revelar o adepto braguista Sandro Vasconcelos. “Estava com ele todos os dias porque ele comia na cantina do centro social e já nessa altura notava a diferença na educação, no respeito, pois sempre foi um miúdo que atravessava a estrada para cumprimentar o padre, mesmo no meio dos amigos”, diz Sandro, apontando uma mistura de ambientes propícios a uma boa educação. “Quando se junta um bom jogador, com uma boa pessoa que vem de uma boa família tem tudo para vingar na vida. E o Tiago tem isso tudo. O apoio da família é importante porque não é fácil levar um filho ao treino todos os dias, organizar a vida. Os pais conversavam comigo e eu percebia que eles estavam sempre preocupados com os horários do Tiago. É preciso coragem para fazer isto sem ter a certeza que vão ser jogadores. Mas faz-lhes bem, crescem, aprendem a ter regras, saber perder, respeitar o outro, que até é um adversário, e isso tudo é importante na vida”, diz padre Sandro, destacando a “humildade” do guardião.

“Há uma virtude que reconheço no Tiago que é a humildade e o facto dele ter escolhido Vila Verde para dar esta entrevista prova isso mesmo. O Tiago nunca se quis evidenciar com os amigos, mesmo na freguesia, em festas, foi sempre a humildade que pautou a vida do Tiago”; assegura o pároco, lembrando que “enquanto outros vestem uma camisola do Braga e já se julgam o Cristiano Ronaldo ou o Buffon, o Tiago, se for preciso, entra num torneio de futebol da freguesia. Sabe estar no desporto e na sociedade. Muitas vezes, estávamos juntos, em festas, e o Tiago tinha muitas vezes de sair às 23h. E ele sabia que tinha essa regra a cumprir, que só seria para o bem dele. Cresceu a saber estar em todos os lugares”, elogia o padre Sandro, que lhe deu toda a formação catequética.

Sonho de representar a seleção

Internacional nas camadas jovens, Tiago Sá mantém o sonho de representar a seleção nacional A, apelidando-o como “um sonho legítimo de qualquer jogador profissional de futebol”.

“Fui internacional desde os sub-18 até aos sub-20 e acho que qualquer um de nós pode sonhar com isso, ainda para mais a jogar num clube com a dimensão do Braga, onde estou a jogar regularmente na I Liga. É um sonho que tenho, já o disse antes, mas não é uma obsessão, nem penso nisso como objetivo a curto prazo. Tenho é de trabalhar para as coisas acontecerem”, afirma.

“Neste momento acho que temos um dos melhores guarda-redes da Europa, que é o Rui Patrício, mesmo que seja criticado. Nem podia estar aqui a fazer juízo da qualidade do Rui, porque ele é campeão da Europa com dezenas de internacionalizações, excelentes épocas no Sporting, excelente época inicial em Inglaterra. As críticas que apareciam fazem parte. É assim a vida de guarda-redes. E se ele, com tantas críticas, conseguiu atingir sucesso, é porque estava bem preparado para isso”, atira Tiago, falando de outros guarda-redes.

“Temos bons guarda-redes. O Beto, que já trabalhei com ele, ensinou-me muito nos seis meses que esteve no Braga. O Cláudio Ramos, do Tondela, fez três épocas brutais na I Liga. E temos muitos outros jovens como eu, o Varela, o José Sá, tudo jovens com muita qualidade que são opções válidas para a seleção”, atira, revelando que, a nivel internacional, tem um ídolo. “Buffon, claro. Para mim é dos melhores de sempre porque conseguiu estar ao mais alto nível desde os 18 anos até aos 41, e isso são poucos que o conseguem. É um exemplo”.

Tiago Sá (c) Joaquim Lima

Tiago é adepto do Braga desde 2002

Tiago revelou ao V que é adepto do Braga desde 2002, altura em que começou a ter as primeiras memórias de futebol, após uma tia [Sofia] o ter começado a levar os jogos no velhinho 1.º de Maio. “As primeiras memórias de futebol foi em 2002, quando comecei a ir ao Primeiro de Maio. Depois trocaram para o Estádio AXA e eu continuei a ir ver os jogos. Sou adepto do Braga desde criança. As primeiras memórias são de ver o Braga no estádio e a partir daí sempre acompanhei. Vi quase todos os jogos do Braga em casa, com a minha tia Sofia. Foi com ela que aprendi a gostar de futebol e do clube. E como aos 10 anos comecei a jogar no clube, isso também me tornou braguista”, atira, revelando que é a massa adepta que pode fazer a diferença na grandeza de um clube.

“É importante para o clube ter cada vez mais adeptos. É um dos pontos principais para um clube ser considerado grande. Títulos e massa associativa. E o Braga tem crescido nos últimos anos mas sei que ainda vai crescer mais. Mais gente no estádio, mais braguistas na cidade. Antigamente eram de outro clube mas gostavam do Braga por serem da cidade, mas isso cada vê-se cada vez menos. Cada vez mais os adeptos são braguistas, especialmente os jovens, e isso é um trabalho que tem sido feito pelo Braga que vai às escolas e não só. É um trabalho que tem dado frutos. Os jovens vivem cada vez mais o clube e estão mais unidos com o clube e isso pode ajudar a ter resultados, que têm aparecido. As coisas só têm que andar em frente”, atira.

Tiago Sá e Pe. Sandro no Turismo Vila Verde (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Braga lutar pelo título?

“Acho que nos últimos anos o Braga tem crescido e aproximado dos clubes que lutam pelo título. Nós não assumimos essa luta mas é um sonho do presidente e do treinador. Mas não é uma obsessão. O treinador disse que a única comparação entre o nosso clube e os outros três grandes é a ambição. O primeiro lugar que repartimos com o Benfica neste momento é o espelho da ambição do nosso plantel. Queremos fazer melhor que o ano passado. Não sabemos onde isso nos vai levar, mas sabemos que queremos fazer melhor. Não podemos definir uma meta igual aos três grandes, mas não nos achámos inferiores a ninguém. Vamos pensar jogo a jogo e o próximo é já com o Guimarães [risos]”.

Caso jogue com o Guimarães, será o primeiro dérbi minhoto como senior

Se a aposta de Abel Ferreira continuar no jovem Tiago, o guardião vai jogar um dérbi especial, frente o Vit. de Guimarães. “Já joguei muitos dérbis na formação, e este encontro é especial. Sente-se uma mística e um ambiente diferente por serem dois clubes rivais desde sempre. É um jogo naturalmente especial. Já joguei na formação e na II LIga, mas é mais especial para mim porque sou braguista e vivo com mais intensidade. Este vai ser o primeiro na liga principal e encaro com normalidade”,

Trabalho de Abel Ferreira

“Só tenho elogios ao treinador. Sou suspeito porque ele apostou em mim, já trabalho com ele desde a equipa B, há mais de 4 anos, e ele sempre me acompanhou. Vi o que ele trabalhou e fico contente pelo sucesso que está a conseguir no clube. Temos uma relação especial porque são muitos anos juntos. É um treinador ambicioso, jovem, com trabalho muito positivo que está à vista de toda a gente”, refere Tiago Sá.

Tiago Sá (c) Luís Ribeiro / Semanário V

Quatro jogos, um golo sofrido

Questionado sobre um momento especial nos últimos quatro jogos que disputou, Tiago admite que um jogo contra o Sporting é sempre especial, “por ser um dos grandes de Portugal e por querermos discutir o jogo pelo jogo”. “Mas o mais importante terá sido o primeiro com o Chaves, porque foi tudo muito rápido, disseram-me no dia antes que ia jogar e isso fez com que o jogo fosse marcante para mim. Passou-me todos os treinadores, colegas, toda a gente que trabalhou comigo desde os 10 anos pela cabeça nesse momento. Também senti que foi um jogo que me correu bem. Sentia que estava pronto desde a época passada e sabia que tinha uma posição no plantel de alguém que é opção válida. Já senti isso na época passada e sabia que estava pronto. Os resultados também apareceram à equipa e não ter sofrido golos nos três primeiros jogos também é mérito da equipa, não só do guarda-redes. No jogo com o Sporting para mim foi mais um jogo, como os 130 que tinha na II Liga, e fui tranquilo. Foi um bom jogo da nossa parte, conquistámos os três pontos, a nível individual correu-me muito bem. Agora é continuar com o trabalho, com o querer e ambição. Será esse trabalho que me pode levar a conquistar outras coisas”, finaliza Tiago.

Tiago Sá é um jogador da casa

Tiago é o único jogador da equipa A que é da região. A constatação é do padre Sandro, apontando ainda que “uma das coisas que as equipas devem apostar é em jogadores do clube”. “Vemos sempre o jogador da casa e o Braga teve sempre jogadores da casa, como o Artur Jorge, o Paulo Jorge, o Hugo, e até o Alan, que mesmo sendo brasileiro, passou a ser de Braga. Em qualquer plantel é importante a mística do jogador da terra. Enquanto adepto e sócio do Braga desde os quatro anos de idade, é muito bom voltar a ver no Braga um jogador da terra, independentemente de ser ou não meu paroquiano. Não digo que sinta a camisola mais que os outros, mas dentro do coração há sempre algo mais, porque se cresceu cá, vai olhar para os resultados de outra forma. Fico ainda mais contente porque o campeão nacional Braga nos juniores tinha de ter um jogador no plantel principal. E fico feliz de ver que o caminho que foi feito resultou, sem saltar etapas, soube esperar sem desistir. Agora ver um jogador formado na casa, com tantos anos, a titular, é muito bom para um associado como eu”, finaliza o padre Sandro.

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Jornalista