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Brasileiros radicados há décadas em Braga “lavam mãos” da eleição presidencial

F: Reuters
Fernando André Silva

É este domingo que os cidadãos brasileiros vão às urnas para eleger o vencedor do segundo turno das eleições presidenciais do Brasil. Últimos estudos de Ibope e Datafolha, publicados na véspera da eleição, confirmam tendência de vitória para Jair Bolsonaro, da direita, mas mostram recuperação da esquerda de Haddad.

O Semanário V falou com cidadãos brasileiros a residir em Portugal há mais de 10 anos e também com turistas, que, com pontos de vista diferente dada a vivência em países diferentes, não se ensaiaram muito em culpar a promoção da violência e do negativismo nas televisões brasileiras durante os últimos anos para que se chegasse a um duelo como o vivido hoje entre as duas ideologias.

Aline Brito, 40, vive na região de Braga há 20 anos e passa muito tempo em Braga ora por motivos profissionais ou de lazer. Durante uma visita a Braga com a família, abordada pelo Semanário V confessa que “não acha que um brasileiro que quer ficar em Portugal deva decidir sobre a política no Brasil”.

“Já não vou ao Brasil há muitos anos. Os meus familiares estão todos cá, moram aqui por isso não gosto de opinar sobre a política atual porque decidi que o meu futuro ia ser fora do Brasil. Só quem está lá é que tem poder decisão para o futuro”, conta a administrativa, achando mesmo que “quem tenha saído há mais de 10 anos e não pense em construir lá vida” não deva votar.

“Dou o meu exemplo. Vim para cá muito nova em busca de um futuro no Brasil. Mas depois as coisas tomaram outra proporção, tenho filhos que já nasceram cá, estão a estudar, e devo dizer que gosto muito de como se vive aqui”, explica Aline.

Sobre a ascenção da ala mais conservadora de direita, personificada no presidenciável Jair Bolsonaro, Aline Brito acha que só acontece porque se cria uma imagem “muito violenta” do Brasil que, segundo a própria, não corresponde à realidade.

“Criou-se lá uma proporção em tudo, nas coisas boas e nas coisas más, e agora o que passa para fora do Brasil é forte e geralmente são sempre as coisas más. Ao passar o negativo, esse tem muito mais ênfase porque o ser humano tem o dom de conseguir propagar o negativo mais que o positivo”, diz.

“Brasil não é violencia. Há lugares no Brasil onde dormes de porta aberta. Em mesmo muitos lugares. Mas por culpa do jornalismo e das pessoas só darem ênfase ao negativo, tudo o que é mau, aparece. E isso está a criar uma massa de apologia da violência, do olho por olho, dente por dente, e esse não é o espírito brasileiro. Eu acho que brasileiro, em qualquer lugar do mundo, consegue ser o mais simpático e o mais feliz”, atira Aline, dando exemplo dos Estados Unidos da América (EUA).

“Eu tenho familiares na América e lá é um país muito mais violento. Mas um jornalista a fazer uma reportagem sobre a violência, ninguém deixa sair para não criar má propaganda. Lá só se fala bem. Mas o Brasil não tem isso. Vão à favela só para filmar a parte má. Mas há muito bom nas favelas que raramente é mostrado e quando é, as pessoas não têm interesse em saber”, explica, revelando que para os que estão fora do país, chega a ser “agonizante”.

“As imagens de violência que chegam a nós, que partimos de lá, condicionam muito. Até assustam. Inconscientemente acabamos por esquecer o lado bom que sabemos que lá existe. Tenho duas filhas e quero ir com elas mas devo admitir que por vezes tenho medo, à quantidade de coisas más que passam para fora. Eu passei a infância em Recife, nas ruas, descalça, e nunca me aconteceu nada”, vinca, garantindo que não irá votar nas eleições deste domingo.

“No Brasil valoriza-se muito mostrar a tragédia”

“No Brasil valoriza-se muito mostrar a tragédia, então colocou-se na cabeça do brasileiro que o Brasil é uma tragédia. Por isso é que a extrema-direita está vindo com muita força”. As palavras são de Bento Gonçalves, turista de Recife que trabalha “na aviação”.

Sobre uma falada e muito desejada pela esquerda “virada” nos resultados que possam tirar a liderança a Bolsonaro, Bento não acredita que isso aconteça. “Vi muita gente a mudar para Bolsonaro por causa da facada, mas também há quem mude para a esquerda porque o Bolsonaro perde pela língua, e vai afetando pessoas sempre que fala. Mas são sempre minorias que mudam e isso não vai alterar o curso da eleição”, atira.

“Eu sou uma pessoa de centro mas vou votar na esquerda, porque o brasileiro parece que não tem memória do que aconteceu há não muito tempo atrás”, vinca Bento, apontando que o “golpe sobre a Dilma” só aconteceu porque o povo brasileiro já não lembrava do golpe militar.

“Depois começaram a falar da violência que aumentava com o PT e isso não é verdade. Tem sido uma bandeira de campanha da outra candidatura e a verdade é que funciona. Foi a esquerda que alavancou o país a nível económico nos últimos anos, mas vários erros, que até podem e estão a ser corrigidos, e os brasileiros acharem que vivem na violência, faz com que a extrema-direita esteja com tanta adesão”, diz.

“A esquerda teve muitos erros no Brasil. E temos de admitir isso. Eu sou mais de centro mas apoio a esquerda visto a situação atual da direita. Como a esquerda estava no poder, era mais visível o erro. Saiu a presidente e aí veio o vice que era esquerda e se tornou direita e o Brasil vive uma confusão ideológica a tentar lembrar do passado mas esquece do golpe militar, esquece as universidades que foram criadas, como hoje as pessoas pobres ou de classe média podem tornar-se médicos e engenheiros. Era impossível um pobre entrar na universidade e isso hoje é normal no Brasil, graças à esquerda”, atira.

“Viver no Brasil atualmente é muito complicado. Vou votar em Haddad, voto na esquerda. Eu trabalho na aviação e a maior parte dos meus colegas tem renda muito alta, não sabem o que é uma necessidade. Votam na direita porque não têm noção do que fez a esquerda enquanto esteve no poder”, vinca.

Haddad sobe e Bolsonaro desce

A diferença da intenção de voto entre os candidatos presidenciais Jair Bolsonaro (56%) e Fernando Haddad (44%) caiu seis pontos em uma semana, de acordo com uma pesquisa divulgada na noite de quinta-feira pelo Instituto Datafolha.

No anterior levantamento divulgado pelo mesmo instituto, com dados apurados em 17 e 18 de outubro, a diferença era de 59% dos votos válidos para Bolsonaro e 41% para Haddad.

Na sondagem divulgada na quinta-feira foram entrevistados 9.173 eleitores brasileiros em 341 cidades durate o dia de quinta-feira. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais e para menos.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista