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Este quiosque de Braga nasceu há 65 anos e já vai na terceira geração da família

Fernando André Silva

Há um espaço mítico em Braga que outrora serviu os primeiros cafés da cidade, funcionou como central telefónica para empresas e vendeu “bagacinhos” e “crofts” a empresários e artistas que passavam pelo Campo das Hortas. O espaço, Quiosque das Hortas, vai já na terceira geração desta família que resistiu às mudanças da cidade dos últimos 65 anos. O Semanário V falou com o casal da segunda geração, José Costa e Maria Teresa Melo e com o filho, Nuno Costa.

Fundado em 1954 pela primeira geração familiar para vender jornais, tabaco e bagaço, foi em 1979 passado para a segunda geração, que inovou com venda de cafés, gelados e ainda aumentou o espaço. Nuno Costa, 35, pertence à terceira linhagem de proprietários e é atualmente o principal rosto do espaço situado na freguesia da Sé, às portas do centro histórico de Braga. A explorar o espaço desde 2010 com a irmã, explica que o quiosque começou por ter uma linha nos anos 50 que foi ligeiramente inovada depois dos pais pegarem no negócio em 1979.

“Este quiosque começou por ser do padastro do meu pai e só depois é que os meus pais pegaram nisto. O meu pai como trabalhava numa fábrica vinha aqui pouco tempo. Foi mais a minha mãe que trabalhou cá estes anos todos”, conta Nuno.

Empresários e artistas, todos passavam pelo quiosque

Nuno explica que no tempo dos pais, haviam clientes fixos que “mexiam” com a cidade.”Um senhor espetacular que vinha cá todos os dias e era pintor, conhecido por Jerónimo. Pintava melhor depois de beber aqui uns bagacinhos [risos]. Lembro-me do senhor Macedo, da loja de materiais de construção, Macedo & Sá. Ele vinha sempre de manhã beber um croft e lá ia à vida dele. Era um homem com olho para o negócio e nos anos 80 já aproveitava a especulação imobiliária”, diz Nuno.

Sobre um eventual choque de gerações com a passagem de testemunho em 2010, confessa, tentou manter a mesma linha com que a mãe habituou a cidade. “A linha de venda ficou sempre a mesma. Gostava de fazer uma remodelação profunda no quiosque, porque cada vez mais temos público jovem, mas implica custos que de momento não podemos comportar”, diz.

Todos conhecem a cara familiar do quiosque

“Venho cá porque gosto disto”, conta Maria Teresa Melo, mãe de Nuno, que irrompe durante a entrevista com uma saca de pão, mesmo depois de já ter largado o negócio há quase 9 anos. “A casa é só para arrumar, depois é andar na rua. Temos uma cidade tão bonita para estar fechada em casa. Agora está tão diferente em relação há 30 anos. As esplanadas na Sé, as lojas, não havia nada disto. Havia um café lá em cima onde se vendia refeições mas de resto não havia mais nada”, diz, relembrando “outros tempos”.

José Costa, Nuno Costa e Maria Teresa Melo (c) FAS / Semanário V

“Havia ail um restaurantezinho que tinha café, mas fui das primeiras a ter, isto nos anos 80 Naquela altura era muito difícil de ter máquina de café. Não acreditavam que as pessoas conseguiam vender e então não montavam nada. Eu pedia a várias na altura e tive de comprar a máquina à minha custa, em segunda mão, naquele tempo me custou quase 200 contos. Foi uma inovação muito grande em relação ao padastro do meu marido”, explica Maria Teresa.

“Depois fiz as obras no final dos anos 80 porque tinha aqui uma barraca de gelados da Olá, mas houve um problema e mandaram tirar as barracas do cento da cidade. Eu pagava o espaço para ter a barraca, mas mandaram tirar na mesma. Depois resolvi fazer um projeto e estive muito tempo à espera mas consegui fazer o aumento, à minha custa. Assim passei a ter mais um bocadinho de espaço. Era um problema naquela altura”, explica a mãe. “E agora também é”, diz o filho.

“Ainda hoje passo na rua e toda a gente me conhece e me respeita”, prossegue a progenitora. “Havia ali os Transportes Reis no prédio em frente e aqui era a central telefónica deles. Ligavam para cá e nós passávamos a mensagem. Em troca os funcionários consumiam aqui. É preciso saber lidar com as pessoas”.

Nuno Costa conta que a mãe não viu com bons olhos a passagem de testemunho, em janeiro de 2010. “Ao início mostraram resistência mas acabaram por ceder [risos]”, diz. “Nós insistimos a pensar em nós, mas também neles, para que pudessem descansar, especialmente no inverno porque aqui faz muito frio”, conta.

Esse é, aliás, um dos “contras” do Quiosque das Hortas. “No verão é espetacular, tenho isto quase sempre cheio com turistas e locais, mas no inverno é diferente. Há sempre clientes fixos que vêm cá tomar café ou beber uma cerveja mas sem esplanada fica difícil de alguém ficar por aqui”, aponta Nuno.

Quiosque Campo das Hortas (c) FAS / Semanário V

Diferença para as gerações anteriores

“A diferença em relação à geração de clientes dos meus pais foi a juventude que começou a vir nos últimos anos. Ao final da tarde as pessoas começaram a sair do trabalho e passam cá para beber um copo e estar com os amigos antes de irem para casa. Adotaram aqui um pouco o vício dos espanhóis. Já tenho notado isso há uns quatro, cinco anos. Foi nessa altura que Braga começou a viver um bocado, também com o aumento dos turistas”, diz Nuno.

Se na geração anterior, as excursões que paravam junto ao largo das Hortas apareciam poucas vezes por mês e só no verão, agora chega a haver dias em que param 50 autocarros, como conta Nuno. “Chego a ter a esplanada só com estrangeiros”, refere.

Outra das diferenças vincadas por Nuno é que atualmente, aquele espaço é também um ponto de encontro para jovens amigos. “Passam por aqui ao final da tarde grupos de amigos que estão por Braga e que se reúnem sempre por cá. Acabámos por fazer amizade com muitos clientes”, explica

Porquê manter o negócio da família?

“Por ter nascido aqui acho que também ajudou a que quisesse ficar aqui”, atira Nuno, explicando que é intenção ainda “fazer mais por isto”. “Tentámos fazer algumas alterações mas não tem sido possível por ser centro histórico. Isso limita-nos. Mas foi sempre assim”, refere, explicando que nos últimos cinco anos tem assistido a um grande aumento de pessoas em Braga e que isso poderia dar um maior impulso ao negócio, mas para isso é necessário mudar paradigmas.

“A invasão de turistas tem cinco anos no máximo. No verão nota-se muito. Poderia notar-se mais porque os autocarros param e as pessoas vão para cima. Para baixo não há nada que chame os turistas. Nós estamos literalmente abaixo de Braga. Turistas é sempre do Arco da Porta Nova para cima”, atira.

Nuno Costa refere que as festas dos Bravos da Boa Luz dinamizam aquele largo, assim como algumas noites de Fado, ou o Sto. António. “Mas é preciso abrir aqui mais esplanadas, restaurantes, aqui para baixo. Há clientes para isso. A zona da Sé, à noite, está sempre cheio. Acho que aqui era o local ideal para abrir mais esplanadas, até porque há estacionamentos”, finaliza, com esperança natalícia de que o desejo seja atendido.

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Fernando André Silva

Fernando André Silva

Jornalista